Eram cinco anos na elite. Maior período para o Bournemouth, segundo para o Watford. Esses cinco anos terminaram para ambos, neste domingo, na última rodada da Premier League. Juntaram-se ao Norwich como os rebaixados da temporada e essas quedas apresentam pelo menos dois pontos em comum: um excesso de erros e uma potencial impossibilidade financeira de ir além do que eles já haviam ido.

Os erros cometidos pelos dois foram diferentes. Os do Watford concentraram-se no banco de reservas. E, para ser justo, a facilidade com que a família Pozzo demite treinador vem de antes do acesso. Mas a saída de Nigel Pearson, o terceiro treinador dispensado na temporada, foi um novo ápice.  O clube estava com três pontos de vantagem para a zona de rebaixamento e teria que enfrentar Manchester City e Arsenal.

Era difícil conseguir um resultado de qualquer maneira, mas as chances com certeza seriam maiores com Pearson, que tirou o Watford da lanterna e esboçou a salvação de uma temporada que parecia perdida. Poderia pelo menos ter evitado a goleada do City, o que aumentaria a possibilidade de permanecer. Que tenha sido demitido por desavenças entre ele e os donos, a abordagem mais sensata seria esperar o fim da Premier League para demiti-lo.

E o Bournemouth gastou mal. Muito mal. Foi elogiado por ser um clube que vivia dentro da sua realidade e que, mesmo assim, tentava jogar de uma maneira ofensiva e divertida, o que deu certo por um tempo. No entanto, quando decidiu investir mais, não conseguiu melhorar nem seu time e nem seu elenco e os desgastes começaram a aparecer.

Gastou quase € 300 milhões em contratações. Não é tanto. O valor é o 15º maior entre os 29 times que disputaram a Premier League nesses cinco anos e inferior até que o do Aston Villa, que subiu ano passado. O problema é que quase ninguém vingou. Soltou bombas em refugos do Liverpool, como Jordan Ibe (€ 20 milhões) e Dominic Solanke (€ 15 milhões), e no fim o que se deu melhor foi Harry Wilson, emprestado.

Jefferson Lerma, negócio mais caro desse período, se tornou um jogador importante, e Nathan Aké, especulado no Manchester City, foi um bom investimento, mas foram poucas as peças que realmente conseguiram elevar o patamar do Bournemouth. O último mercado é o maior exemplo. Lloyd Kelly e Arnaut Danjuma custaram mais de € 30 milhões e nenhum passou dos 650 minutos em campo pela Premier League.

Watford e Bournemouth abusaram dos erros em uma liga que concede pouca margem para as equipes menores.

E há uma outra questão que talvez pegue mais o Watford do que o Bournemouth. A última temporada dos Hornets foi muito boa. Terminou confortável no meio da tabela e chegou à final da Copa da Inglaterra. Mas, em vez de conquistar um título, levou 6 a 0 do Manchester City. Esse é o máximo que um clube com seu tamanho pode alcançar? E se é, da onde vem aquela motivação extra para a campanha seguinte?

Talvez não seja. O Burnley chegou a jogar a Liga Europa, o Sheffield United passou bem perto, mas também é fato que existe um teto muito claro para os times menores da Inglaterra, como escreveu o jornalista Miguel Delaney, do Independent, neste artigo publicado na época do rebaixamento do Norwich.

Mesmo os que têm fundos e disposição para gastar muito para tentar dar um salto mais alto correm riscos – alô Fulham e Aston Villa -, mas os que se recusam a fazer isso acabam sendo envolvidos pelo tédio de sobreviver apenas para existir, argumenta Delaney, e não encaram o rebaixamento como um desastre. É, na verdade, quase inevitável: 86% dos times que subiram acabaram caindo e a média de permanência na Premier League aos promovidos é de 3,84 temporadas.

Isso não quer dizer que fizeram corpo mole, mas, quando as coisas começam a dar errado, uma série de lesões, de má sorte, de resultados ruins, a situação é encarada com um pouco mais de normalidade, sem, por exemplo, o desespero do West Ham. O planejamento desses clubes precisa incluir uma queda eventualmente e há um limite para o quanto jogadores querem suar sangue para terminar no meio da tabela ser goleado numa final de copa.

E ambos ainda lutaram. O Bournemouth goleou o Leicester recentemente e bateu o Everton, fora de casa, na última rodada. Mesmo o Watford, que parecia morto ao levar 3 a 0 do Arsenal no primeiro tempo, conseguiu descontar para 3 a 2. Não deu e agora cabe a ambos aproveitar bem o dinheiro do paraquedas da Premier League – auxílio financeiro aos clubes que caem – para se reagrupar e retornar à elite quando puderem.

É simbólico que os três rebaixados desta temporada sejam exatamente os três promovidos da Championship em 2014/15, com o Norwich tendo batido e voltado na segunda divisão antes de cair novamente. Um ciclo que parece ser a realidade atual da Premier League para os clubes menores.

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