A participação da seleção uruguaia na Copa do Mundo de 2014 parou nas oitavas de final, mas possivelmente teria acabado ainda na fase de grupos se Luis Suárez não se recuperasse de sua lesão a tempo para entrar em campo pela Celeste no Brasil. E o craque uruguaio jamais teria tido a chance de disputar a competição sem a intervenção de Walter Ferreira. Mesmo sem entrar em campo, o fisioterapeuta da seleção uruguaia foi um dos heróis da Copa de 2014. O “Mão Santa”, como foi apelidado pelos jogadores uruguaios, faleceu neste domingo, aos 64 anos, vítima de um câncer cujo tratamento colocou em espera para ajudar Luisito a fazer parte do Mundial. A comoção por sua morte evidenciou sua grandeza para o futebol charrua.

VEJA TAMBÉM: Douglas Costa é eleito o melhor jogador da primeira metade da Bundesliga

Descrito pelo jornal uruguaio Ovación como um sujeito reservado, Ferreira era de poucas palavras, em tom quase sempre baixo, mas sempre uma figura sorridente. Não teve uma formação acadêmia, mas sim quase toda construída através da experiência prática. Ao longo de sua carreira como fisioterapeuta no Nacional e na seleção uruguaia, nunca se fechou para atletas de outros clubes. Craques uruguaios procuravam-no quando alguma lesão persistia, e sua fama levava atletas como Paolo Montero e Daniel Fonseca, durante seus períodos na Europa, a buscar o “Mão Santa” sem nem mesmo tentar a recuperação em seus respectivos clubes. Como eles, muitos outros iam até Montevidéu confiando no poder de Ferreira.

Foi o que fez Suárez às vésperas da Copa do Mundo de 2014, ao ver sua participação quase descartada. Trinta dias antes de entrar em campo na Arena Corinthians e comandar a vitória do Uruguai por 2 a 1 sobre a Inglaterra com dois gols, Luisito passou por uma artroscopia no joelho esquerdo. O tempo de recuperação médio para a lesão que havia sofrido era de dois meses, mas o camisa 9 do Barcelona foi até Ferreira para acelerar esse processo.

O “Mão Santa” tratou o craque tanto na concentração da seleção uruguaia quanto em sua própria casa em Montevidéu. Entregou-se à recuperação de Suárez enquanto lutava sua própria batalha, muito mais dura e importante. Walter Ferreira alternava as sessões com o jogador com as suas próprias de quimioterapia, em sua luta contra o câncer. Teria sido melhor para o fisioterapeuta ficar em casa, repousando, mas, no sacrifício, juntou-se à delegação uruguaia que veio ao Brasil para a Copa. E é por isso que, em um momento de tamanho brilho individual, Suárez quis direcionar os holofotes também para Ferreira. Ao comemorar seu primeiro gol contra os ingleses em São Paulo, Luisito correu até seu salvador, deu-lhe um beijo e apontou o dedo para ele, trazendo à tona um dos heróis do Mundial que trabalhou nas sombras.

A relação entre Suárez e Walter Ferreira, no entanto, é muito mais longa do que as semanas que antecederam a Copa do Mundo. Segundo revelou Alberto Pan, médico da seleção uruguaia, em entrevista coletiva durante o Mundial, os dois se conhecem e são amigos desde a infância de Luisito. Para Pan, a conexão da dupla, além das mãos mágicas de Ferreira, foi também essencial para a recuperação milagrosa do camisa 9 a tempo da disputa da Copa.

Em seu Facebook, Luis Suárez escreveu um depoimento tocante para seu grande amigo e homem responsável pela participação do craque no Mundial.

“Hoje, foi-se mais do que um amigo… Ele foi um batalhador que, dia após dia, lutou não apenas por ele, mas por todos. Nunca vou esquecer o que você fez por mim, porque você me ensinou muitas coisas na vida, que ainda tenho muito presentes. Obrigado por me dar a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. Obrigado por tudo que deu ao futebol e obrigado pelo grande ser humano que você foi. Nunca vou te esquecer. Meus mais sentidos pêsames à família. Que descanses em paz, Walter.”

Hoy se fue más que un amigo… Se fue un luchador que, día a día, no sólamente luchaba por él, sino por todos los demás….

Posted by Luis Suarez on Sunday, January 3, 2016

O descontrole de Luis Suárez na partida contra a Itália, a última do Uruguai na fase de grupos da Copa, acabou diminuindo sua aparição no Mundial para apenas duas partidas, de certa forma pondo a perder todo o sacrifício de Walter Ferreira. Essa é a análise fria, pelo menos, mas não a verdade completa. Suárez foi um personagem importante desta Copa, sua história será sempre lembrada quando se falar no Mundial de 2014. Consequentemente, a história de Walter Ferreira será contada. E, pela narrativa que propiciou e a entrega com que trabalhou para ajudar seu país, o “Mão Santa” se eternizou.