Esta parecia a noite propícia para o Palmeiras conquistar o título do Campeonato Brasileiro. Allianz Parque lotado, contra um adversário frágil e a goleada em vista. Obviamente, não dependeria apenas dos alviverdes. Apesar da derrota do Internacional contra o Atlético Mineiro, em seu primeiro revés no Beira-Rio nesta Serie A, o Flamengo também precisava tropeçar contra o Grêmio. O passeio sobre o América Mineiro, de fato, veio com os 4 a 0 no placar. A taça, não, com o triunfo dos rubro-negros no Maracanã. Ainda assim, a vitória palmeirense serviu para que os torcedores sentissem um pouco mais o sabor da glória. E para que exaltassem Dudu, um dos símbolos desta geração vitoriosa dos palestrinos, que arrebentou em mais um jogo decisivo na campanha. Para sair ovacionado pela torcida.

Dudu é um jogador que viveu altos e baixos no Palmeiras, natural a qualquer um. Teve fases em que alguns preferiam vê-lo pelas costas e tantos outros nos quais foi adorado. A idolatria, porém, tem prevalecido bem mais ao ponta, incomparavelmente. Autor de ambos os gols na finalíssima da Copa do Brasil de 2015, ele já havia sido uma das faces principais na conquista do Brasileirão em 2016. Demonstrou o seu amadurecimento e chamou a responsabilidade em diversos momentos, liderando a festa alviverde. Mas nem sempre manteve a efetividade. Mesmo depois de recusar as suntuosas propostas da China e reafirmar o seu compromisso com o clube, não se tornou unânime. Só que a fidelidade se paga justamente quando mais se espera dos palmeirenses. Nesta quarta, o camisa 7 teve uma atuação digna de protagonista do campeão.

O primeiro tempo viu um Palmeiras um tanto quanto ansioso por matar o jogo logo. O time de Felipão massacrava, com as melhores chances quase sempre saindo com Dudu. Voando baixo pelo lado esquerdo, o camisa 7 encarava a marcação e infernizava os defensores com seus dribles em velocidade. Tentava resolver logo, criando perigo seja nas finalizações ou nos passes. Ia parando nas boas defesas de João Ricardo, que encabeçava a resistência do América. Os minutos finais da primeira etapa, aliás, viram o melhor do Palmeiras em termos de intensidade. Bombardeava o Coelho, faltando um pouco mais de competência nas conclusões.

Dudu só não terminou o primeiro tempo com uma assistência por que Borja perdoou na melhor oportunidade do Palmeiras. Após boa jogada dentro da área, o ponta apenas rolou ao colombiano, com a meta escancarada. Pois ele conseguiu mandar para fora. Se o empate ampliava a angústia dos palmeirenses no Allianz Parque, o atropelamento oferecia a esperança que o gol não demoraria a se consumar. Especialmente porque o camisa 7 queria jogo. Das incríveis 15 finalizações palestrinas nos 45 minutos iniciais, cinco foram dadas pelo ponta e outras quatro nasceram em seus passes. Um nível impressionante.

Para o segundo tempo, o Palmeiras veio com Deyverson no lugar de Borja. E o centroavante seria importante ao botar ainda mais fogo no jogo, anotando um gol anulado no primeiro minuto. A postura dos alviverdes não era tão agressiva quanto nos instantes anteriores ao intervalo, mas o time seguia com total controle da situação. O esperado gol aconteceu aos 15, em lance confuso, no qual Lucas Lima cruzou para Luan completar dentro da área. A partir de então, os palestrinos tiravam um peso nas costas. Jogaram como um digno líder, prontos a implodir o América em meia hora intensa no Allianz Parque.

Faltava o show de Dudu se transformar em lances de gol. E o camisa 7 foi recompensado, orquestrando o chocolate do Palmeiras. O segundo gol já contou com um drible magistral sobre Carlinhos, antes da ótima enfiada a Mayke no espaço vazio. O cruzamento do lateral bateu na zaga, mas a bola sobrou mansa ao camisa 7, que só ajeitou a Willian, ampliando aos 30. Dois minutos depois, Dudu faria ainda melhor. Da entrada da área, acertou um chutaço que passou por entre as pernas do marcador e não deu chances de defesa a João Ricardo. Lindo gol. Tudo para sair logo depois, aplaudidíssimo pelo Allianz Parque. O tributo necessário para coroar sua noite mágica. Do banco, o ponta viu Mayke cruzar para Deyverson desviar de cabeça e fechar a conta.

Ouvido no rádio, o Palmeiras ainda esperou para comemorar o título nesta quarta-feira. O Flamengo abriu o placar com Uribe e, em certo momento, até chegou o rumor no Allianz Parque que o Grêmio havia empatado, resultado suficiente à conquista. Não passava de boato, que enganou uma multidão vibrante e inclusive Felipão. De fato, os tricolores quase arrancaram a igualdade no finalzinho, mas César fez milagre para barrar a cabeçada de Geromel. Já no fim, um contra-ataque puxado por Berrío rendeu o segundo gol, de Diego. Cinco pontos atrás dos alviverdes, os rubro-negros possuem chances matemáticas. Mas será difícil aos palestrinos desperdiçarem este troféu. Se não vier contra o Vasco na próxima rodada, no Rio, pode ficar ao duelo com o Vitória no Allianz Parque. Um triunfo bastará.

Em boa parte do segundo turno, o Palmeiras utilizou seus teoricamente “reservas” no Brasileirão. Mas manteve alguns titulares pontuais, e nessa Dudu acumulou atuações estrondosas. A partir de agosto, na última rodada do primeiro turno, anotou quatro gols e serviu nove assistências em 15 aparições. Decidiu contra Vitória, Botafogo, Cruzeiro, Grêmio. Fez clássicos maiúsculos ante Corinthians, São Paulo e Santos. Ainda assim, não foi tão destrutivo como nesta quarta-feira de sonhos sobre o América Mineiro. Um jogo para referendar o tamanho de Dudu aos palestrinos e sua capacidade técnica. Alguns ressentimentos até podem ficar. Todavia, o Brasileirão novamente marca sua carreira. Quem sabe, com mais um título para se dizer que, sim, é o principal ídolo desta era dourada no Allianz Parque.