O clássico entre Colo-Colo e Universidad de Chile neste sábado não terá qualquer influência aos rumos do título do Campeonato Chileno 2019. Porém, não é isso que diminui o peso deste jogo como um dos mais importantes na história da rivalidade. Mesmo na segunda colocação, os colo-colinos estão a 11 pontos de alcançar a Universidad Católica na liderança. Em contrapartida, teriam a chance de afundar La U, que ocupa a vice-lanterna e corre seríssimos riscos de rebaixamento. O que se viu no Estádio Monumental David Arellano foi uma partida memorável, em que o Cacique arrancou a virada e, depois de sofrer o empate, garantiu a vitória por 3 a 2 aos 49 do segundo tempo. Os albos fizeram sua parte para aumentar a crise azul, numa noite que ainda consagrou Esteban Paredes como o maior artilheiro da história do Campeonato Chileno.

A semana do clássico foi mais intensa do que o costume, e isso ficou evidente durante os treinos abertos realizados pelos dois clubes. Naturalmente, as atividades da Universidad de Chile seriam marcadas pelos protestos. O time somou apenas três vitórias em 23 rodadas e vinha de um jejum de seis partidas. Houve manifestação e confusão nas arquibancadas do Estádio Nacional. Apenas 1,5 mil pessoas estiveram presentes, já que a principal barra preferiu boicotar o “arengazo” em repúdio à diretoria e realizar um “hotelazo” na concentração dos azules. Já o último treinamento do Colo-Colo teve 14 mil espectadores, embora o clima também não fosse tranquilo. Houve uma invasão de torcedores, que depredaram vidros no Monumental para tirar fotos com os jogadores. A pressão por enterrar os rivais era grande.

Antes que a bola começasse a rolar neste sábado, uma calorosa atmosfera tomou o Estádio Monumental, que teve ingressos esgotados. A torcida do Colo-Colo ofereceu um recebimento completo, com fogos de artifício, papéis picados e bexigas. O destaque principal ficou para um bandeirão homenageando os índios mapuches – que são inspiração ao próprio nome do clube. “Sangue araucano, somos da raça valente”, dizia a mensagem abaixo das imagens de indígenas.

Para frustrar o estádio inteiro, a Universidad de Chile abriu o placar aos 12 minutos. Gonzalo Espinoza converteu o pênalti que deixou a equipe em vantagem. O Colo-Colo teve algumas boas chances durante o primeiro tempo, mas La U era superior e se lançava mais ao ataque. O clássico mudou de ares apenas na volta do intervalo. Em 20 minutos, o Cacique buscou a virada. O empate saiu aos cinco, num cruzamento de Pablo Mouche que Gabriel Suazo dominou na área e fuzilou o goleiro Fernando de Paul. Quinze minutos depois, a virada veio com mais um presente de Mouche, que entregou a bola para Esteban Paredes bater de primeira.

O gol de Paredes não era um gol qualquer. Graças a este tento, o veterano se isolou como o maior artilheiro da história do Campeonato Chileno. No final de agosto, o centroavante havia chegado aos 215 tentos e igualara Francisco “Chamaco” Valdés como máximo goleador da competição. No entanto, a seca do camisa 7 perdurava desde então e ele não havia conseguido abrir distância sobre o antigo ídolo colo-colino. Realizou de maneira inesquecível.

Só que aquele gol ainda não seria o definitivo no clássico. A Universidad de Chile também empatou em grande estilo, aos 31, logo após Paredes ser substituído por lesão. Antiga promessa do Manchester United, Ángelo Henríquez acertou um sem-pulo magnífico da entrada da área. O tirambaço estourou no travessão e entrou, sem nem permitir reação do goleiro Brayan Cortés. Henríquez teria a chance da nova virada pouco depois, mas ironicamente pegou mal na bola dentro da área.

O Colo-Colo, todavia, não desistiu. A equipe ficou com um jogador a mais a partir dos 42, quando Camilo Moya foi expulso. Seguiu na pressão e, depois de uma bola boba que o goleiro adversário deixou escapar pela linha de fundo, anotou o gol da vitória aos 49 – já no estouro do tempo adicional concedido pelo árbitro. Em sua terceira assistência na tarde, Mouche cobrou escanteio rumo à pequena área e Julio Barroso se antecipou na primeira trave para desviar. Causou um terremoto no Monumental. Com o resultado, o Cacique completa 19 anos sem perder para o maior rival dentro de sua casa.

Depois da partida, o Colo-Colo ainda realizou uma grande homenagem a Paredes. Entregou a bola do jogo, um pedaço da rede, uma camisa emoldurada com o número 216 e chuteiras douradas. Além disso, o clube exibiu no telão um vídeo de Chamaco Valdés, o antigo dono do recorde que faleceu em 2009. “É um sem fim de emoções. Quem ia imaginar que eu conseguiria o recorde no clássico? Quero agradecer aos meus companheiros, a todos eles ao longo da minha carreira. Também dedico à minha família, porque estão nos bons e nos maus momentos”, afirmou o veterano.

Já o técnico Mario Salas aproveitou o momento para desabafar. Bastante criticado pela torcida do Colo-Colo, o comandante foi vaiado em jogos recentes. Diante das oscilações da equipe, que só havia vencido uma partida pelo Campeonato Chileno nas sete primeiras rodadas a partir do retorno da Copa América, os colo-colinos pediam sua demissão. O triunfo, o segundo consecutivo desde o fim da série ruim, levou o técnico à forra. Saiu de campo fazendo sinal de silêncio às próprias arquibancadas.

A situação da Universidad de Chile é crítica. O time permanece com 21 pontos, restando sete rodadas para o fim do campeonato. Matematicamente, a distância de dois pontos para sair do Z-2 pode não assustar tanto, mas o psicológico dos azules está um caco. A equipe não dá sinais de reação, sucumbe à pressão e desperdiça pontos que pareciam fáceis. Além disso, há uma crise institucional e financeira, que culmina na derrocada de um clube que chegou a apresentar o futebol mais vistoso do continente no início da década. A Azul Azul, sociedade anônima que administra a agremiação desde 2007, chegou a cortar o xampu dos vestiários na última semana para reduzir os gastos. Virou motivo de piada antes do clássico.

O Colo-Colo pode até ver a Universidad Católica abrir 14 pontos na sequência da rodada. A consumação do título é questão de tempo aos Cruzados. O interesse maior do Cacique é manter a segunda colocação, que vale uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores. Os colo-colinos têm quatro pontos de vantagem sobre o Palestino, em diferença que pode cair para um ponto neste domingo. Antes de pensar na competição continental, no entanto, o time queria aumentar o drama dos maiores rivais. A missão foi cumprida. Os albos não só roubaram os pontos de La U, como também proporcionaram uma vitória trepidante à sua torcida – e com um recorde histórico de quebra.

Para degustar um pouco mais a emoção do jogo, vale acompanhar também o fio que os amigos do Impedimento fizeram ao vivo durante o clássico: