A segunda passagem de Dunga pelo comando técnico da Seleção terá neste sábado seu primeiro confronto contra a Argentina. No primeiro período, de 2006 a 2010, o gaúcho teve bastante sucesso contra os rivais pela equipe principal, com três vitórias em três jogos, um deles o 3 a 0 na final da Copa América de 2007. Mas o local do reencontro neste Superclássico das Américas traz más lembranças ao treinador. Foi em Pequim que, em agosto de 2008, o sonho do Ouro nas Olimpíadas foi para o lixo após um baile dos hermanos. Mais que evidenciar a diferença entre as duas equipes, aquela partida, vista mais de seis anos depois, revela outra disparidade importante entre os dois rivais centenários. Enquanto a base daquela Argentina esteve presente também na campanha de finalista da Copa deste ano, no Brasil poucos restaram para contar história.

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Uma breve olhada para as escalações daquele 3 a 0 argentino sobre a Seleção já escancara as diferenças. De um lado, Romero, Messi, Mascherano, Agüero, Garay… Do outro, Thiago Neves, Ronaldinho, Rafael Sóbis, Lucas Leiva, Anderson (sim, aquele que não consegue encontrar seu peso ideal no Manchester United), entre outros. Numericamente falando, a coerência argentina no trabalho fica ainda mais evidente.

Dos 14 atletas que estiveram em campo na final daquela competição, contra a Nigéria, nada mais, nada menos que nove estiveram também no Mundial, todos com a condição de titulares ou de 12º jogador: Romero, Zabaleta, Garay, Mascherano, Di María, Agüero, Messi, Lavezzi e Gago. Os dois últimos, que não podem ser considerados titulares absolutos, são frequentemente usados e ambos foram titulares em algumas partidas da boa participação argentina na Copa.

Quando assumiu em 2006, Dunga tinha a missão de “revolucionar” a Seleção após o fracasso no Mundial da Alemanha. As mudanças no elenco foram quase absolutas. Poucos da equipe que ficou concentrada em Weggis tiveram chance também com o capitão do tetra. Além de sair garimpando uma série de jogadores desconhecidos, como o emblemático Afonso Alves, precisava também fazer a transição de atletas mais jovens para o time principal, e observando os nomes presentes nas Olimpíadas, o que veio a seguir em suas carreiras e o baixo aproveitamento para a Copa em casa, fica claro que aquela missão em 2008, além da conquista do ouro, fracassou.

Remanescentes do time olímpico de 2008 na Copa de 2014 (AP Photo/Martin Meissner)
Alguns dos remanescentes do time olímpico de 2008 estiveram na Copa de 2014 (AP Photo/Martin Meissner)

Ronaldinho, Thiago Silva e Robinho (substituído por Ramires antes do início da competição por causa de uma lesão) foram os chamados para as vagas de atletas fora da idade olímpica. E no elenco dos jovens, uma série de nomes que nunca conseguiram provar seu valor e permanecer até o projeto de 2014 ou sequer ter uma sequência significativa: os já citados Thiago Neves, Lucas Leiva, Rafael Sobis e Anderson; os laterais Rafinha e Ilsinho; Alexandre Pato, que nunca atingiu o potencial que dele esperavam; e os zagueiros Alex Silva (hoje sem clube) e Breno (preso na Alemanha). Para não correr o risco de ser completamente anacrônico, é bom lembrar que boa parte dessa convocação era vista como a melhor possível. Muitos confiavam no crescimento de Lucas Leiva e Anderson na Inglaterra, em Pato assumindo o papel de novo matador. O fracasso dessa transição não precisa necessariamente ter um culpado, mas é bom que seja exposto, diante de seu antônimo que foi aquele time da Argentina.

Romero, Zabaleta, Garay, Mascherano, Di María, Messi e Agüero. Essa é simplesmente a espinha dorsal da Argentina de Sabella, hoje comandada por Tata Martino. Foram os titulares com Sérgio Batista em 2008 naquela semifinal contra o Brasil, e sua permanência não por falta de opções, mas por qualidade mesmo, mostra como aquele projeto funcionou. A diferença de resultados entre eles e nós não é simplesmente circunstancial, obra do acaso. Um ou outro nome que não tenha dado certo pode, de fato, não significar nada demais, mas a distância entre os dois mostra que algo feito por lá precisa ser copiado, adaptador ou aprimorado por aqui.

O jogo

No Estádio dos Trabalhadores, a Argentina foi melhor durante todo o jogo. No primeiro tempo, as duas maiores estrelas das duas equipes, Ronaldinho e Messi, tiveram atuações que ilustravam bem a diferença entre os dois lados. Meio apagado, buscando jogadas, mas com lentidão e indecisão, o brasileiro prendia muito a bola. Já o herdeiro de sua camisa 10 no Barcelona era ágil, incisivo, o oposto de Ronaldinho. Os gols, no entanto, vieram só no segundo tempo. Agüero foi o grande nome do jogo, marcando duas vezes, aos 7 e 13 minutos da etapa complementar, e sofrendo o pênalti convertido por Riquelme, que fechou o placar em 3 a 0. Depois disso, a Argentina controlou o jogo e ainda viu os brasileiros perderem a cabeça, com Thiago Neves e Lucas Leiva acabando expulsos.

Confira os melhores momentos do jogo abaixo