Fale para um jogador de futebol que ele precisa jogar sempre ao máximo, dar 100% em campo em 100% dos jogos. Ele rirá da sua cara. E com razão. Ainda que nossa paixão pelo esporte queira ver o mundo de forma romântica e idealizada, é óbvio que não se pode exigir que os atletas estejam sempre em seu melhor. Primeiro, porque a temporada é longa e é preciso dosar as energias. Segundo, porque não é todo dia que se está no auge físico, técnico e psicológico.

Por isso, os grandes times sempre precisam modular seu nível de jogo de acordo com a necessidade. Sobretudo na Europa, onde o desnível técnico entre seus adversários é muito grande (na mesma semana, o Barcelona pegou Bate Borisov e Real Madrid, uma diferença técnica muito maior do que pegar, por exemplo, Avaí e Santos, lanterna do Brasileirão e campeão da Libertadores) e os times têm elencos números para se dar ao luxo de ajustar seu desempenho jogo a jogo.

Isso impressiona no Barcelona. O time mostrou alguma fragilidade nesse início de temporada. Fora de casa, fazia uma campanha nada excepcional: duas vitórias (Sporting de Gijón e Granada), três empates (Real Sociedad, Valencia e Athletic Bilbao) e uma derrota (Getafe). Aliás, um retrospecto apenas decente e formado por apenas dois duelos contra adversários do topo de cima da tabela.

E daí? O que parecia fragilidade eram apenas ajustes na modulação no nível de jogo do time. Ou, em português menos empolado, era só “virar a chavinha” na cabeça dos jogadores. E foi isso que o Barcelona fez contra o Real Madrid no Santiago Bernabéu: virou a chavinha, elevou seu nível de jogo e venceu com a autoridade de quem é o melhor time do mundo já faz um tempo.

Foi um Barcelona com outro volume de jogo, com outra intensidade na marcação, com outra fluidez nas movimentações, com outro índice de acerto de dribles, com outra rapidez de leitura tática. Uma equipe quase imparável. O Real Madrid não estava preparado para isso, talvez porque jogue normalmente perto de seu 100% e não tem mais margem de melhoria para esses momentos-chave da temporada. O Barça até gera dúvidas quando fica entre 40 e 60%, mas cresce muito quando tenta dar o máximo. Por isso transformou seu maior rival em freguês.

Ubiratanice do dia
Futebol americano tem seu lado interessante, mas não consigo concordar com um aspecto: cada jogador só exerce uma função absurdamente específica. Na minha cabeça, jogador bom tem de saber fazer várias coisas em uma partida. No mínimo, atacar e defender. Até entendo haver um especialista no time (como o goleiro em vários esportes ou o líbero do vôlei), mas o time inteiro de caras especializados? Ah, assim é fácil!