“Uma semana depois dos eventos nada sabemos sobre quem são essas pessoas, se se tratavam de membros de claques, se se tratavam de membros de grupos rivais, se se tratavam de membros com outro tipo de motivações; uma semana depois, nada sabemos sobre isso. Mas foram esses elementos que foram responsáveis por estragar uma festa.”

As duras palavras acima são de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, e refletem a sensação de uma enorme dúvida sobre o que motivou a confusão que estragou a festa do Benfica pelo 34º título nacional de sua história.

No domingo (17), quando milhares de pessoas deveriam apenas comemorar na praça Marquês do Pombal, tradicional reduto de festas populares em Lisboa, um tumulto pôs fim precoce aos festejos. Nem mesmo a presença dos jogadores campeões no palco montado em volta da estátua do marquês e os apelos do capitão Luisão, ao microfone, foram suficientes para acalmar os ânimos.

Foi um domingo tenso, que entrou para a história do futebol português como o dia em que o Benfica foi campeão com uma rodada de antecedência (empatou por 0 a 0 com o Vitória de Guimarães, mas foi beneficiado pelo empate do Porto por 1 a 1 com o Belenenses). Mas um dia que ficará marcado, também, por cenas dantescas.

As confusões começaram ainda em Guimarães, onde o clima tenso e hostil esteve presente dentro e fora do estádio. O símbolo da hostilidade está neste vídeo, publicado aqui mesmo na Trivela, em que um policial agride um homem na frente de seus filhos. O caso ganhou proporções enormes em Portugal e um grande clamor da opinião pública fez com que a polícia abrisse investigação para apurar a atitude impensada e inexplicável do policial.

Mas não foi “só” isso. Dentro do estádio, torcedores do Benfica, que deveriam estar festejando a conquista do título nacional, resolveram saquear o depósito de material esportivo do Vitória de Guimarães. O Jornal de Notícias publicou um vídeo que mostra a ação. Nele, é possível ver as pessoas calmamente circulando pelo local, com bolas, camisas e outros materiais nas mãos – como se o que estavam fazendo fosse algo normal e legal.

Pelas contas do Vitória de Guimarães, o prejuízo causado pela ação supera os € 100 mil. Só de bolas, foram furtadas aproximadamente 160 – cada uma delas custa cerca de € 150. O Benfica se prontificou a pagar pelo prejuízo, mas nenhuma ação judicial foi tomada.

Os acontecimentos negativos em Guimarães pareceram pegar o caminho de volta para a capital portuguesa junto com a delegação campeã. Foi quando os jogadores, comissão técnica e dirigentes já tinham subido ao palco montado no Marquês e o sistema de som começava a tocar o hino do clube que a guerra explodiu.

Um grupo de torcedores passou a atirar garrafas e pedras e a soltar rojões contra policiais. Estes, por sua vez, revidaram. Uma grande confusão estava formada e acabava de estragar a festa. Como os apelos de Luisão ao microfone não surtiram efeito, os jogadores saíram do local, assim como a enorme maioria dos torcedores. Quem ficou, entrou numa batalha com a polícia. Para se ter uma ideia do tamanho do problema, o trânsito só foi liberado no local mais de quatro horas depois do início do tumulto, que teve saldo de 138 feridos e 13 presos.

Há várias teses sobre o que pode ter acontecido. Uma delas é que parte da torcida encarnada estava enfurecida com a polícia por conta dos incidentes em Guimarães. Outra é que tudo começou por causa de um grupo de torcedores bêbados, que passou do limite. Outra ainda é que os policiais exageraram na dose na hora de revidar e transformaram o que poderia ser um problema pontual numa guerra campal.

O fato é que o final do Campeonato Português foi manchado. Ao invés de somente exaltar o primeiro bicampeonato benfiquista dos últimos 31 anos, as manchetes se dividiram entre o noticiário policial e o esportivo. E, o que é muito pior, sabe-se lá quantas pessoas tornaram-se desgostosas com o futebol. Elas só queriam festejar a conquista do clube de coração e acabaram se vendo no meio de uma guerra. Ou vendo o pai ser agredido covardemente bem à sua frente.

No ano passado, a festa feita pela torcida do Benfica foi tão bela e grandiosa que até a estátua do Marquês de Pombal foi vestida com a camisa do clube.

Neste ano, uma série de atitudes inconsequentes, de todos os lados, estragou tudo. Se as autoridades não tomarem providências sérias, punindo os culpados, a chance de fatos como o de domingo voltarem a acontecer aumenta muito. E quem perde é o futebol.