Violência azteca

É triste, mas real. Poderíamos abordar na coluna dessa semana a excelente fase do Guadalajara, líder invicto e com um jogo a menos. Ou da recuperação do América, que com a excelente fase de Benítez pode finalmente aspirar ao título com favoritismo. Mas não. Somos obrigados a voltar ao tema. Um tema que, infelizmente, parece cada dia mais sobrepor as boas notícias e o crescimento do futebol azteca: a violência no país.

Cada vez mais a violência aumenta e invade o futebol no México. O episódio que chamou a atenção do mundo no último fim de semana ocorreu durante um confronto pela 6ª rodada da Primera División, entre Santos Laguna e Monarcas Morelia, em Torreón. Aos 40 minutos do primeiro tempo, disparos causaram pânico em jogadores, torcedores, imprensa e todos os presentes no estádio Corona.

No vídeo da partida (que você pode conferir aqui), pode ser notado o momento dos disparos, quando atletas e árbitros correm para os vestiários, e a maior parte do público presente estende-se no chão, sem saber de onde partiam os disparos. A partida foi cancelada minutos mais tarde, quando o presidente do clube lagunero, Alejandro Irarragorri, acompanhado do goleiro Oswaldo Sánchez, fez um pronunciamento anunciando o adiamento.

Mais tarde, autoridades e o próprio Irarragorri confirmaram que a troca de tiros ocorreu fora do estádio, quando um veículo não identificado furou um bloqueio policial e iniciou o confronto. Não houve feridos dentro do Corona, mas um policial foi levado para o hospital após o tiroteio.

O lamentável episódio correu o mundo. E teve ainda maior destaque por afetar o principal torneio do país. Mas a escalada de violência que atinge o país azteca há tempos deixou de ser algo preocupante para tornar-se um grave problema em todos os setores, incluindo o futebol.

No mesmo fim de semana, torcedores de Pumas e Puebla se enfrentaram antes do duelo de ambas as equipes, registrando alguns feridos e depredações ao estádio Cuauhtémoc. Na semana passada, o ex-lateral direito da Tri, Ignacio Flores, foi assassinado a tiros em sua caminhonete enquanto viajava com a família pela região central do país. Nacho Flores fora ídolo do Cruz Azul e disputou a Copa do Mundo de 1978.

Na mesma semana, a Máquina Cementera teve parte de suas bagagens furtadas no Aeroporto Internacional da Cidade do México, enquanto o ex-sogro do atacante uruguaio Carlos Bueno, do Querétaro, foi assassinado a punhaladas.

Como se vê, o problema não é algo localizado, nem esporádico. O tema tampouco é fato novo aqui na coluna, que já havia abordado a questão quando da recusa de Guille Franco em assinar com o então campeão nacional Monterrey, alegando preocupações com sua segurança e de seus familiares (confira aqui). O sequestro do técnico argentino Rubén Romano, quando treinava a equipe lagunera, em 2005, e o sequestro do pai do ex-goleiro Jorge Campos, em 1999, só apontam como não é algo recente.

O problema é que o próprio governo mexicano, bem como a Femexfut (que, rassalta-se, não tem essa função), parecem não saber como pôr fim aos eventos. Enquanto o Conselho Nacional de Segurança condena o episódio, o secretário geral da FMF, Decio de María, reclama que a falta de segurança afeta o futebol mexicano. É mesmo?

O tempo parece ser algo de que autoridades não mais dispõem. Uma vez que o outrora atrativo futebol azteca começa a ser atingido diretamente pela violência. Estrangeiros e até mesmo jogadores mexicanos já começam a dar ouvidos a propostas internacionais menos vantajosas financeiramentes, mas que proporcionem o desempenho do futebol em locais mais seguros.

Vale salientar que o local atingido pelos disparos, que danificaram a parte externa do estádio e as instalações do Território Santos Modelo, um complexo construído pela equipe que inclui estúdios de televisão, igreja, hotel, entre outros, está agendado para ser palco do amistoso da Tricolor contra o Brasil, em 11 de outubro desse ano.

A pergunta novamente vem em cheio: o futebol (e o país) mexicano pode ou não garantir segurança para jogadores, torcedores, e o público do futebol?

Bronze é prêmio para boa geração

Uma geração promissora. Assim pode ser definida a equipe azteca que obteve o terceiro lugar no Mundial sub-20, disputado na Colômbia. Não igualou o feito da primeira edição, em 1977, quando El Tri ficou com o vice-campeonato. Naquela ocasião, apenas uma vitória (goleada por 6×0 na Tunisia, sede da competição) e quatro empates, incluindo uma vitória (contra o Brasil, na semi) e uma derrota (contra a União Soviética, na final) nos pênaltis.

O desepenho não muito brilhante refletia-se nas poucas revelações do grupo daquela competição, do qual apenas o zagueiro Eduardo Rergis e os meias Eduardo Moses e Luis Plascencia, este último premiado com a Chuteira de Bronze pelos três gols marcados, tiveram algum destaque.

O grupo atual, todavia, aparenta muito mais talento e maturidade. Após uma primeira fase boa, mas não espetacular, com uma vitória esperada (3×0 na Coreia do Norte) e dois resultados médios (derrota por placar mínimo para argentinos e empate sem gols com ingleses), os meninos da sub-20 surpreenderam o mundo.

A vitória sobre o perigoso Camarões foi apenas o aperitivo para a excelente partida frente aos donos da casa. Até então invicta, a Colômbia foi surpreendida por um futebol insinuante e ofensivo, mas equilibrado. E a vitória por 3×1 colocou o time na semifinal depois de 34 anos.

A derrota para o Brasil era esperada, mas o time soube se recompor e venceu com sobras a França de Lacazette, campeã do Europeu da categoria, por 3×1. Um prêmio para a boa safra, capitaneada pelo volante Jorge Enríquez, o goleiro José Rodríguez, e os atacantes Erick Torres e Edson Rivera. Mal acostumada após a conquista do bicampeonato no Mundial sub-17 deste ano, alguns podem até achar pouco o terceiro posto. Algo bom, e que já mostra que das seleções (pelo menos da base) mexicanas já se espera algo mais que apenas boas participações.