Antropólogo, sociólogo, romancista, ensaísta, educador. O também genial Antonio Candido certa vez definiu Darcy Ribeiro: “O Darcy impressiona pela incrível capacidade de viver várias vidas numa só. Enquanto isso, a maioria de nós mal consegue viver uma…”. Poucos intelectuais na história do Brasil tiveram uma abrangência tão grande em seus conhecimentos. Poucos, de fato, conheceram cada palmo do país tão bem quanto o mineiro, nascido em 1922. A contribuição de sua obra é imensa. Da mente privilegiada de quem foi Ministro da Educação, senador e se tornou um imortal da Academia Brasileira de Letras. De quem sempre enfatizou a escola como caminho para o futuro da nação.

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Ao longo de sua vida, Darcy Ribeiro se debruçou sobre vários assuntos. Seus trabalhos mais conhecidos se concentram principalmente sobre a etnologia dos povos indígenas, o desenvolvimento sócio-cultural na América Latina e os projetos educacionais. Todavia, seu conhecimento o permitia enveredar por vários caminhos. Inclusive, pelo futebol, mesmo que informalmente. Segundo suas palavras, era “flamenguista, por demagogia, já que o povo é Flamengo”.

Nesta sexta-feira, a morte de Darcy Ribeiro completou 20 anos. Em forma de homenagem, relembramos um trecho de sua entrevista ao programa Roda Viva, em 1995. Questionado pelo jornalista Juca Kfouri sobre o tratamento da intelectualidade brasileira sobre o futebol, muitas vezes considerando o esporte como um elemento de alienação, o entrevistado foi pelo caminho contrário. Ressaltou justamente a importância da modalidade na identidade nacional. Vale ouvir e aprender:

Abaixo, a transcrição da resposta:

“Adoro o futebol. Futebol é o único reino em que o povo sente sua pátria. Incrível: todo brasileiro, do patrão ao empregado. Uma Copa é uma coisa formidável, a torcida da Copa… Há um livro do Antonio Candido, que é o intelectual mais eminente de São Paulo, em que ele foi estudar uma pequena comunidade caipira. Em Parceiros do Rio Bonito tem uma coisa linda, conversando com os informantes, ele diz que a ‘patriazinha’, a pátria daquela gente, era aquele local. Eles não sabiam de outra pátria. A pátria do brasileiro comum é o futebol. Quer dizer, essa briga do futebol há muita atração. Mas essa coisa, que não é alienadora… ele torce. E depois futebol era democrático, qualquer menino arranjava uma bola de pano, uma bolinha”.

“Por exemplo, uma das coisas que eu fiz, uma burrada que eu fiz na vida, para fazer os meus Cieps, não tinha terreno, é muito difícil arranjar terreno de dez mil metros, quinze mil metros, então eu acabei com sessenta campinhos de pelada, no Rio. Um dia eu mandei fazer cerca em um lugar e chego lá e os que jogavam estão acampados dizendo: ‘Aqui não faz porra nenhuma! Aqui é nosso campo’. E eu vi que era uma loucura aquilo, os campos de pelada que havia, terrenos públicos eram campos de pelada, e eu estava acabando com eles”.

“Então o que é importante é: as escolas de todo o lugar darem mais chance. Porque, para surgir um fenômeno, como um gênio, como o Einstein, dos nervos e dos músculos como o Pelé, é muito difícil; mas só é possível quando você seleciona sobre um milhão, quando um milhão de meninos estão jogando futebol. Quando não jogam, porque não há campo de pelada, é ruim. Eu acho o futebol muito importante e acho que futebol é o momento em que o brasileiro chora e se apega, em que ele tem pátria. A pátria para ele é madrasta: deu para ele uma má escola, deixa ele com fome, desempregado. É aquele momento que conta”.