Se para uns, como Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid e Sevilla, a rodada final de La Liga de nada valia, para o Villarreal ela sempre seria especial. O clube ainda precisava confirmar a classificação à Liga Europa e, de quebra, se despedia de duas figuras históricas do clube: Bruno e Santi Cazorla. O 4 a 0 sobre o Eibar e a consequente classificação foram o fim ideal a duas longas histórias do Submarino Amarelo.

Cazorla teve contribuição direta para o placar, dando assistência para o primeiro gol do jogo, marcado por Zambo Anguissa. Gerard Moreno balançou a rede duas vezes, e Moi Gómez fechou a goleada em 4 a 0, toda ela construída no segundo tempo, a partir dos 26 minutos da etapa complementar.

Ao fim da partida, Bruno e Santi Cazorla receberam a merecida homenagem por parte de seus companheiros, mas também dos adversários, com uma espécie de “corredor de honra” ainda no gramado. A única coisa faltando, e que era das mais importantes, foi mesmo a presença da torcida no Madrigal, e ambos lamentaram isso.

“Muitas vezes sonhei com isso. Não foi o final sonhado, queria estar com a minha torcida, mas não foi possível”, disse Bruno. “É uma pena não poder me despedir dos torcedores”, completou Cazorla.

Revelado pelo Villarreal, Bruno nunca conheceu outro clube em toda a sua carreira profissional. Começou jogando pela equipe B, entre 2004 e 2007, e já a partir de 2006 foi ganhando suas primeiras oportunidades no time principal, já se estabelecendo no ano seguinte.

Nestes 14 anos, se firmou como uma figurinha carimbada de La Liga e foi importante no acesso de volta à primeira divisão quando o Submarino Amarelo passou uma temporada na segundona, em 2012/13. Despede-se do futebol no estádio em que atuou por toda a sua trajetória como jogador.

Cazorla, por sua vez, teve idas e vindas no clube. Também revelado profissionalmente no Villarreal, acumulou nove anos com a camisa amarela ao longo de três passagens. Inicialmente, entre 2003 e 2006, depois entre 2007 e 2011 e, é claro, nos últimos dois anos. A segunda passagem foi especialmente bem-sucedida, lhe rendendo as primeiras convocações para a seleção espanhola. Foi a partir de seu trabalho no Submarino Amarelo que o meia garantiu seu espaço no núcleo da Roja que venceria as Eurocopas de 2008 e 2012.

Esta passagem que se encerra agora é especial a Cazorla por um outro motivo único. O meia viveu um calvário em seus últimos anos de Arsenal, batalhando contra diferentes lesões, passando por nove cirurgias e chegando a correr o risco de ter que amputar o pé, com os prognósticos indicando que era possível que ele sequer voltasse a caminhar normalmente.

Entre sua última partida pelos Gunners, em outubro de 2016, e a primeira pelo Villarreal, em julho de 2018, foram 636 longos dias. Ao retornar para casa, seu objetivo era ver se poderia novamente atuar em alto nível. Ele provou que sim, e em grande estilo.

Sua primeira temporada no retorno, em 2018/19, já teve grande impacto: foram sete gols e 11 assistências em todas as competições além de grandes atuações, como quando fez dois gols no empate em 2 a 2 com o Real Madrid, em janeiro de 2019. Sua grande recompensa foi poder retornar à seleção espanhola depois de mais de três anos e meio.

A atual temporada foi ainda mais impactante. Cazorla pode ser colocado entre um dos destaques do Campeonato Espanhol em 2019/20 – e certamente como um dos principais motivos pelo Submarino Amarelo ter alcançado uma vaga europeia. Em La Liga, alcançou os dois dígitos tanto em gols como em assistências: 11 tentos marcados e dez passes para gols de companheiros.

Por mais que se mostrasse sorridente em campo, entregando grandes atuações, não teve um dia em que Santi Cazorla não tenha sofrido com dores desde seu retorno ao Villarreal. Agora, com a despedida do futebol de elite, poderá aliviar um pouco do fardo.

Diferentemente de Bruno, Santi não se aposenta agora. Deverá encerrar sua carreira no Catar, ganhando um bom dinheiro na reta final de sua trajetória e sendo treinado por um amigo: Xavi Hernández, comandante do Al-Sadd.

Em um caminho tão sinuoso quanto foi brilhante, Cazorla deixou seu nome na história do futebol espanhol. Um verdadeiro ícone e modelo a ser seguido por qualquer canterano que surja no gramado do Madrigal.