O lançamento de Seedorf, atrás da linha do meio-campo, chegou milimétrico. Perfeito para o domínio com o pé esquerdo, em meio à passada, já dentro da área. Acompanhado de perto por Vítor, bastou puxar a bola para o marcador passar lotado. Depois, chegou Odvan como um trem desgovernado. Mais um corte seco, atrapalhando também Carlos Germano. Com o caminho livre, ficou fácil para estufar as redes. Naquele momento, Raúl decidia o Mundial Interclubes de 1998, com a vitória por 2 a 1 sobre o Vasco. Um dos tantos momentos de brilho do camisa 7, vivo na lembrança de muitos brasileiros. Aos 38 anos, a lenda do Real Madrid ainda vive de suas glórias com o New York Cosmos. Mas já anunciou que para em novembro.

Os números dizem muito sobre a grandeza de Raúl. Entre os diversos recordes que lhe pertenceram, foi o maior artilheiro do Real Madrid e da Espanha. Liderou também a lista de artilheiros da Champions e das competições europeias. Capitão emblemático no Bernabéu, levantou outras tantas taças, incluindo três de campeão europeu. E sempre carregou consigo a mística merengue. O camisa 7 encarnou o madridismo, aquele que cresceu no clube e se tornou um craque com a camisa branca. O ídolo que cada torcedor viu desabrochar desde as categorias de base, tornando-se líder e exemplo. Que, ainda por cima, conduziu o Real de volta aos grandes títulos, fundamental para encerrar o jejum de 32 anos na Champions.

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Entretanto, é difícil deixar de lado o culto à figura para relembrar o craque que Raúl foi. Mesmo em seu ocaso no Bernabéu, quando não rendia o mesmo e jogava mais recuado, o espanhol seguia uma sumidade para os madridistas. O ideal é retornar a meados dos anos 1990, ou ao início dos anos 2000. Naquele momento, o camisa 7 aparecia entre os atacantes mais implacáveis do mundo. Marcava gols a rodo no Espanhol e na Champions, para estrelar os merengues mesmo ao lado de outros gênios. O auge técnico de quem também fez por merecer com a bola nos pés tamanha adoração.

Basta rever os lances de Raúl para perceber as suas virtudes. A inteligência, principalmente, foi seu grande diferencial. O atacante possuía uma velocidade de raciocínio imensa. Parecia sempre antecipar o que acontecia ao seu redor. Não precisava levantar a cabeça para saber onde estava o defensor, e fintá-lo num piscar de olhos. Uma breve espiada já localizava o goleiro, vítima de chutes muito bem colocados e de inúmeros toques por cobertura. Além disso, Raúl também impressionava pelo domínio que tinha do espaço. Os movimentos eram curtos, mas abruptos. O suficiente para definir o lance.

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A magia no Real Madrid se encerrou em 2010, após 16 anos como profissional. Mas nunca a idolatria. Além disso, o veterano ainda rendeu bem no Schalke 04, servindo como maestro. E viveu os últimos lampejos entre o dinheiro do Al Sadd e o projeto do Cosmos. Fim de carreira como embaixador da bola, para quem também rodou o mundo com a seleção espanhola. A Fúria em seus tempos não ganhava títulos, mas dependeu bastante do camisa 7 para justificar o apelido, por mais que o desempenho em grandes torneios tenha decepcionado.

Raúl fará mais algumas partidas pelo Cosmos, antes do adeus definitivo. Completará, enfim, o seu ciclo como jogador. Sua figura quase sempre será ligada ao Real Madrid. Amado pelos madridistas e um pouco desdenhado por aqueles que acham a exaltação exagerada. Mas segundos de seus lances no auge bastam para evidenciar como merece todo o carinho.