O futebol nada mais é do que um recorte da sociedade. Se o microcosmo que se vive dentro do estádio representa com cores tão vivas as paixões, também não pode ser visto como um universo à parte diante dos problemas. Lógico, há suas particularidades. Mas dissociar a violência que acontece em torno das partidas daquilo que também se noticia nas ruas, mais do que um erro, acaba diminuindo as chances de medidas mais eficazes para combater a questão.

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Neste domingo, Flamengo e Palmeiras fizeram a partida de maior público no Campeonato Brasileiro, com 54 mil presentes no Estádio Mané Garrincha. No entanto, milhares daqueles que estavam no local, incluindo os jogadores, arcaram com as consequências de um embate entre as torcidas organizadas. A polícia agiu atirando gás lacrimogêneo – o que pode ter sido válido, mas não deixa de ser uma temeridade em um local fechado. As cenas que se seguiram, então, foram de muita gente sofrendo com os efeitos, incluindo mesmo crianças. Nas imagens mais fortes, um bebê era levado à ambulância, enquanto um pai chorava ao carregar nos braços o filho cadeirante.

Também afetado pelo gás, Fernando Prass comentou o episódio ao repórter da TV Globo na saída de campo. E não se limitou a separar o estádio do restante da sociedade: “Não é o futebol, né, é o nosso país é que está assim. A gente viu o que aconteceu nessa semana no Rio de Janeiro com a menina e o que aconteceu agora em São Paulo, com um garoto de 10 anos. Isso aí é o fim do país. Uma criança de 10 anos ser morta pela polícia, independente da versão, quer ela esteja armada ou não, não sei qual que é a pior”.

Além disso, o capitão do Palmeiras também falou sobre a questão da torcida única: “Tem que ter um caminho. Leis mais rígidas, que criminalizem mais esses atos dentro do futebol. Porque a gente sabe quem faz. Todo mundo sabe quem faz, quem participa. É tão bonito ver duas torcidas misturadas, assim, como estava aqui, mas hoje é impensável. Torcida única não é solução para nada, só um paliativo. Ainda assim, na minha visão as brigas estão acontecendo fora do estádio, na ida ao estádio. Dentro do estádio praticamente a gente não tem confusão”.

Identificação e punição para criar liberdade. O que Prass ressaltou não é segredo para ninguém, embora as autoridades insistam em refutar quase sempre, generalizando a culpa a todo e qualquer torcedor. Exaltar o espetáculo. E, principalmente, não separar o que acontece no futebol do resto do mundo. As palavras do goleiro merecem ser ouvidas com um pouco mais de atenção. Refletidas. Dizem muitíssimo e, como deveria ser, não apenas sobre futebol.