As táticas do futebol estão em constante processo de mudança. O esquema do momento é o 4-2-3-1, assim como em outras épocas foi o WM, o 4-2-4, o 4-3-3 e assim por diante. Há uma evolução permanente, um aprimoramento inevitável dos sistemas táticos do esporte, até pelo aumento de especialistas e estudiosos da modalidade.

O tempo fez com que diversas posições sumissem com o passar dos anos. O ponta clássico, que jogava aberto no ataque sem a responsabilidade de marcar, por exemplo, sobreviveu até os anos 1980. Outra posição, no entanto, perdurou por mais tempo, produzindo alguns dos maiores jogadores de todos os tempos do futebol. Exigia técnica, vigor físico e muita disciplina. Só que atualmente, o líbero praticamente morreu.

Cesare Maldini, Franz Beckenbauer, Franco Baresi, Lothar Matthäus. Os exemplos comprovam a grandiosidade da posição. O líbero é o jogador da sobra, aquele que atua atrás da linha de defensores do time, sem a responsabilidade da marcação fixa. Seu diferencial é a liberdade para sair jogando e ajudar o ataque, por isso não basta ser um ótimo zagueiro, é preciso ter qualidade para passar e, até mesmo, finalizar. Mas por que ele desapareceu?

Primórdios…

Os primeiros relatos do líbero, que em italiano significa “livre”, surgiram nos anos 1930. O técnico austríaco Karl Rappan alterou o esquema da moda na época, o WM, deu liberdade para os jogadores trocarem de posições, puxou defensores, montou uma espécie de 5-4-1 e acabou criando seu “ferrolho suíço”. Suas ideias são consideradas a base do pensamento do catenaccio e da criação do líbero.

Com isso, treinadores italianos absorveram a tática e a aperfeiçoaram. Nereo Rocco, no Milan, foi um dos primeiros – antes fez o mesmo no Padova. Passadas algumas décadas, seu Milan, com Giovanni Trapattoni como líbero, teve uma era espetacular nos anos 1960 e venceu sua primeira Copa dos Campeões da Europa em 63. Já nessa época, a utilização do líbero se tornava comum na Itália, mesmo com quatro defensores – “zagueiro direito” (terzino destro), um “zagueiro central” (stopper) e um “zagueiro esquerdo” (terzino sinistro), além do líbero.

Antes disso, porém, a Internazionale já tinha o seu. No início dos anos 1950, Ivano Blason exerceu essa função tática no time, campeão nacional em 1952/53. Na década seguinte, a Inter venceu duas vezes a Copa dos Campeões com Helenio Herrera no comando do catenaccio e il capitano Armando Picchi como líbero.

Daí em diante, a posição se instituiu definitivamente no futebol mundial. Ganhou seu espaço e teve outros jogadores que marcaram seu tempo atuando nessa função. Além dos citados no início, houve também Gaetano Scirea, de triste recordação para os brasileiros na Copa do Mundo de 1982. Mas entre tantos italianos, surgiu um alemão. Beckenbauer nos anos 1970 “deu” a liberdade definitiva para a posição e criou o “líbero alemão”.

Tempos modernos

Nos anos 1980 e 1990 o 3-5-2 – surgido “oficialmente” com a Dinamarca do técnico Sepp Piontek na Eurocopa de 1984 – ganhou ainda mais espaço no futebol mundial. E nesse período, dois grandes nomes da modalidade garantiram destaque para a posição – cada um ao seu estilo.

Piontek é um dos “pais” do líbero

Na Itália, Franco Baresi tomava conta da defesa do Milan e da Azzurra. Jogador clássico, defensor impecável, possuía talento invejável para desarmar e sair jogando. Na mesma época, em terras alemãs, um meia-atacante baixinho infernizava as defesas adversárias. Com o passar dos anos, porém, Lothar Matthäus foi recuando. Deixou de ser um meia e virou outro grande líbero da história.

Em entrevistas exclusivas à Trivela, Baresi e Matthäus falaram sobre a posição. No caso do italiano, um desejo desde jovem. “Desde que eu era garoto, sempre gostei das posições de meia e líbero. Sempre fiz o melhor para ajudar os meus colegas do Milan e jogar em um ótimo nível”, conta o defensor italiano.

Já o jogador alemão explica sua “transformação” em líbero. “É um processo natural para um jogador que vai ficando mais velho. Você precisa de mais energia para atuar no meio campo e, quando você está com 35 anos, simplesmente não tem mais essa energia. Por outro lado, um jogador assim é muito útil com a experiência dele, podendo ajudar os jovens. Ele se torna um técnico assistente no campo, alguém que organiza o time e muda as táticas. Dá segurança e estabilidade para a equipe”, diz Matthäus.

O jogador alemão foi bem didático ao explicar sua adaptação à posição: “Eu me tornei campeão mundial como meio-campista, mas jogar como zagueiro foi fácil para mim. Eu poderia facilmente fazer esse trabalho até os meus 50 anos. Você só tem que manter a sua posição, ler o jogo e se antecipar em dois ou três movimentos. A sua principal função é se tornar um comunicador do time e ajudar os seus colegas com conselhos”.

Questionados sobre o maior líbero da história, os dois não titubearam na resposta: Franz Beckenbauer. “Ele foi um ídolo da minha geração. Depois, se tornou o meu técnico e aprendi muito com ele, que continua sendo um dos meus melhores amigos”, conta Matthäus. Já Baresi lembra de outros jogadores também: “Depois do Beckenbauer, o Bobby Moore e, na minha geração, o excelente Scirea”, conta o defensor italiano, que mantém o site www.francobaresi6.com.

Experiência brasileira

No início dos anos 1990, o líbero ainda era fortemente usado, e foi quando a Seleção Brasileira teve sua primeira experiência com o posicionamento atrás da linha de defensores. No Mundial da Itália, Sebastião Lazaroni colocou Mauro Galvão para atuar na posição.

Muito criticado e eternamente lembrado pelo fracasso na competição, Lazaroni foi procurado pela Trivela, mas informou, via assessoria de imprensa, que não comenta mais assuntos relativos à Copa de 1990. Mauro Galvão, jogador do Botafogo na época, no entanto, falou sobre a experiência.

“Foi uma coisa treinada e colocada em prática na Copa América. A defesa se entendia bem com três zagueiros e a intenção era liberar os laterais. A finalidade do Lazaroni, naquele momento, era dar à defesa uma cobertura, que pudesse ao mesmo tempo sair jogando. Quando você tem dois laterais que atacam muito e ao mesmo tempo, a defesa pode ter problemas. A ideia do Lazaroni era ter uma segurança maior jogando com os laterais avançados sem perder a característica defensiva”, explica Mauro Galvão.

Inicialmente, apesar das críticas dos torcedores e da imprensa na época, o esquema funcionou. O Brasil foi campeão da Copa América em 1989 e o 3-5-2, com líbero, foi sacramentado – a história sobre a decisão de Lazaroni indica que, em 89, após a excursão à Europa quando o Brasil perdeu por 4 a 0 da Dinamarca, ainda no avião, o assistente técnico Nelsinho sugeriu ao treinador que a Seleção jogasse no 3-5-2, com líbero. Sugestão acatada.

“Ganhamos a Copa América e isso nos deu confiança. No futebol é assim, quando você tem uma forma de jogar e vai bem, não tem porque mudar. Fomos bem na Copa do Mundo até perdermos uma partida. Mas como futebol é resultado, ficou parecendo que não deu certo. Como o Brasil não ganhou a Copa, colocou-se isso como o maior problema. Mas, às vezes, os outros times são melhores ou aproveitam melhores as chances. O Brasil escolheu uma forma de jogar, foi superior e infelizmente não ganhou o jogo. Não foi por causa da nossa forma de jogar”, lembra Mauro Galvão, referindo-se à derrota por 1 a 0 para os argentinos, nas oitavas de final, com um gol de Claudio Caniggia, que apareceu livre atrás da defesa.

Copa América: Ricardo Gomes e Aldair como zagueiros, e Mauro Galvão como líbero

Com isso, em território brasileiro, o 3-5-2 passou a ser demonizado. Virou sinônimo de retranca, em um país onde discussões táticas sempre foram (e ainda são) menosprezadas. Até que um pequeno time do interior de São Paulo, comandado por um desconhecido treinador chamado Osvaldo Alvarez, encantou a todos com seu futebol ofensivo. E no 3-5-2, com Capone como líbero.

“Houve resistência, porque havia a ideia de que jogar com três zagueiros era defensivo. Sofri isso com o Carrossel Caipira no Mogi Mirim, no Campeonato Paulista de 1992. Como o Mogi Mirim não disputava o Campeonato Brasileiro, tive tempo para treinar, de errar e me preparar para o Paulista. A imprensa e até os jogadores ficaram com receio. Até cheguei a falar para eles: ‘Se não der certo, a gente mantém o esquema, mas vocês não precisam ficar se movimentando toda hora’”, lembra Vadão.

Atualmente desempregado, após passagens por grandes clubes do futebol brasileiro, Osvaldo Alvarez é claro ao explicar a origem de suas ideias: “Gostava do Carrossel Holandês de 1974. A Holanda provou que era possível jogar com versatilidade, movimentação e rotatividade”, diz o treinador, que cita outros exemplos. “Na Copa de 90 gostei da Alemanha jogando em 3-5-2 com o líbero. Queria usar esse esquema, mas eu não queria um 3-5-2 parado. Então eu tentei unir o 3-5-2 usado pelos alemães com a rotatividade do Carrossel Holandês”.

O Mogi caiu na segunda fase do Paulistão, mas garantiu a artilharia do torneio com o meia Válber. Além dele, também revelou Rivaldo para o futebol.

Antes de tudo isso, pontualmente, houve exemplos de líberos no futebol brasileiro. Luis Pereira, já veterano, teve esse posicionamento no Palmeiras em 1983, com Rubens Minelli como treinador. “O Minelli fez um sistema em que Vagner Bacharel sempre saía na caça do adversário e o Luis Pereira sobrava. Na prática, o Luis Pereira era líbero desse time. Isso pode ter acontecido em inúmeras outras equipes sem que o Brasil tenha percebido”, relata o jornalista da ESPN Brasil Paulo Vinícius Coelho.

Rubens Minelli, porém, já tinha armado outro time com líbero antes disso: o Internacional, campeão brasileiro de 1976. Segundo o próprio, em entrevista concedida ao jornalista Mauro Beting na Universidade do Futebol, Marinho Peres fazia essa função. “O grande segredo foi uma mudança tática que ninguém percebeu na época. Todos os times brasileiros atuavam no 4-3-3. Todos iguais, um volante e dois meias. Nós jogamos em 1976 no 1-3-1-2-3. O líbero era o Marinho Peres, que havia jogado no Barcelona em função parecida, com o Rinus Michels. Ele ficava atrás da linha de três zagueiros: o Figueroa saía na caça, com o Cláudio e o Vacaria marcando os pontas.”

Já Roberto Assaf, jornalista e historiador do futebol nacional, garante que a primeira experiência por aqui com um líbero, mesmo que não intencionalmente, ocorreu bem antes de tudo isso.

“Eu diria que o primeiro a tentar a usar o líbero no Brasil foi o treinador Dori Krueschner, que foi importado pelo Flamengo na segunda metade dos anos 1930 e tentou utilizar o Fausto, a ‘Maravilha Negra’, como líbero. Os times, na época, jogavam com um goleiro, dois zagueiros, três na linha média e cinco atacantes. O Krueschner tentou implementar no Flamengo um estilo de jogo que era comum na Europa, mas que a gente desconhecia. Ele foi tratado como louco e saiu depois de umas três, quatro derrotas exatamente porque teve a ousadia de colocar o Maravilha Negra como líbero. Ele já tinha uma certa idade e não tinha mais tanto fôlego para jogar como centromédio”, conta Assaf.

Início do fim

A última seleção campeã mundial com três zagueiros foi a brasileira, em 2002, liderada por Luiz Felipe Scolari. Quando assumiu o time, nas eliminatórias, Felipão priorizou arrumar a defesa e liberar os laterais, que atacavam muito e precisavam de uma boa cobertura – uma das virtudes do esquema. Nem de longe, porém, o posicionamento de Edmílson no 3-5-2 como terceiro zagueiro lembrava o de um líbero.

Edmílson, na Copa de 2002: líbero?

O exemplo do ex-volante de São Paulo e Barcelona, é apenas um do que virou o líbero: um terceiro zagueiro. “O líbero não existe mais. O futebol está mudando. Agora você tem zagueiros específicos e com boa qualidade, como Terry”, sentencia Franco Baresi, citando o defensor do Chelsea.

Lothar Matthäus, por outro lado, não concorda com o completo desaparecimento da função em campo. “A evolução do futebol fez com que isso ficasse fora de moda. O jogo de hoje é muito diferente do que era há 20 ou 30 anos. Mas, ainda hoje, o líbero não desapareceu”, explica o atual técnico da seleção da Bulgária.

Já Mauro Galvão dá uma explicação mais técnica para o sumiço dos líberos no futebol mundial: “É difícil achar jogadores com essa qualidade de saída de bola, de leitura de jogo. Não é fácil fazer essa função, que requer muita mobilização, percepção da jogada, antecipação e qualidade para jogar. Os zagueiros não têm aquela característica de sair jogando no ataque e participar do jogo. Há algumas exceções como o Lúcio, o Juan e o Thiago Silva”, diz o superintendente de esportes do Avaí.

Quem concorda com a questão técnica, ou seja, falta de qualidade dos defensores atuais, é o jornalista Mauro Beting, da Rede Bandeirantes e do jornal Lance. “Dentro da minha concepção, há muito tempo não existe mais o líbero. Para mim, o último grande líbero foi o Scirea. Beque de espera pode ter vários. Cada vez menos se tem porque primeiro falta qualidade, inteligência e capacidade física para fazer esse vai e vem, e a maioria dos times tem jogado apenas com um atacante”, diz Beting.

Nos esquemas mais utilizados hoje em dia, como o 4-2-3-1 ou o 4-4-2, com duas linhas de quatro jogadores na defesa e no meio, a marcação é feita por zona. Não há jogadores nas sobras, ou seja, livres, até para o setor defensivo não ficar em inferioridade numérica contra adversários que atacam até com cinco jogadores ao mesmo tempo. A marcação individual perdeu espaço. Os defensores precisam ser rápidos o suficiente para fazer o combate individual e também a cobertura.

Outro fator que deve ser considerado é a exigência técnica dos volantes modernos. Hoje em dia, os jogadores responsáveis pela marcação no meio também precisam ter qualidade para sair jogando e surgirem como elementos surpresa na frente. Algo muito similar ao idealizado para os líberos.

De qualquer modo, há quem acredite em um retorno triunfante do líbero. “Pode voltar a ser utilizado. A gente não sabe o que pode acontecer no futebol. O WM, de Herbert Chapman, usava um sistema com três zagueiros. Os três voltaram a ser utilizados depois no 3-5-2. O 4-3-3, que era utilizado antigamente, voltou em alguns times, só que com algumas diferenças, por exemplo”, explica Osvaldo Alvarez.

De qualquer modo, a história do líbero está muito mais para “Morte e Vida Severina” do que para a lenda do retorno do Rei Sebastião.