Vez das peças pretas

O aspecto mais fascinante da overdose de Real Madrid x Barcelona entre o final de abril e os primeiros dias de maio é analisar como as duas equipes reagem às ações da outra. Afinal, o futebol não está acostumado a esse tipo de situação: uma série de confrontos que vai se desenvolvendo até um dos times atingir o único objetivo que realmente importa a ambos.

É uma situação diferente de um mata-mata tradicional, em dois ou (como foi usado no Brasil) três jogos. Nesses, o vitorioso sai na soma de placares ou em algo perto disso. O que os dois gigantes vivem é uma situação mais parecida com a dos playoffs melhor-de-sete (ou de cinco) de outros esportes, como vôlei (até a Globo enxugar o mata-mata da Superliga) ou basquete. Perder o primeiro duelo, mesmo que de modo contundente, não faz tanta diferença em longo prazo. O importante é aprender com cada encontro e ganhar força e fôlego para vencer os finais.

Como num jogo de xadrez, o primeiro movimento foi das peças brancas. Depois de tomar um mate de pastor (quem já jogou xadrez sabe do que se trata) no primeiro turno, o Real Madrid sabia que precisava proteger melhor seu rei antes de lançar suas peças à caça do monarca adversário. Foi assim no empate pelo Campeonato Espanhol, no sábado retrasado. Pela Copa do Rei, na última quarta, suas torres, bispos e cavalos se aventuraram mais pelo tabuleiro, criando espaço para o ataque decisivo da rainha (nenhuma conotação sacana em colocar Cristiano Ronaldo como rainha. Trata-se de uma comparação óbvia com a peça mais perigosa e versátil de um time).

José Mourinho já aprendeu a anular o Barcelona depois de cinco derrotas seguidas do Real (apenas uma sob seu comando). Enquanto isso, o time catalão manteve seu estilo, confiante que ele se mostraria superior em todas as circunstâncias. De fato, o Barça ainda é mais forte e, mesmo na derrota na final da Copa do Rei, teve seus momentos de domínio. Ficou evidente, porém, que o adversário já aprendeu a obstruir o tabuleiro para inibir a livre movimentação de suas peças.

Por isso, é Guardiola quem precisa se mexer agora. Nos encontros dos últimos 10 dias, o Real Madrid teve sucesso quando aumentou a marcação no meio-campo, tirando o espaço que Xavi, Iniesta e Messi usam tão bem para as tabelas de toques curtos. Ao Barcelona cabe buscar alternativas, como explorar mais os lados do campo, tentar bolas longas e jogadas individuais (duas especialidades do time na época de Ronaldinho e Eto’o) para variar o jogo, tentar finalizações de longa distância e/ou apertar a marcação na intermediária para deixar os merengues sufocados, sem opções de avanço.

Estamos na metade dessa série que os dois maiores times da Espanha vivem. O Barcelona deve ficar com o Campeonato Espanhol e o Real com a Copa do Rei, mas os dois clubes não se preocuparam muito com isso. É como ter um romance com a garota mais bonita no terceiro mês da novela. É bom, vende algumas revistas de fofoca, mas o importante é quem casa com ela no último capítulo. Nesse caso, a garota até arrastava uma asa pelo galã catalão, mas o pretendente de Madri que a convidou antes para um jantar.