Três minutos. Gol do Celta. Catorze minutos. Gol do Celta. Dezoito minutos. Gol do Celta. Em menos de 20 minutos, o Valencia, no Mestalla, já estava perdendo por 3 a 0 do Celta de Vigo, no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Rei, que terminou 4 a 1 para os visitantes. O resultado poderia ser consequência de um começo sonolento dos valencianos, ou mais um daqueles dias em que tudo dá errado, se não fosse apenas sintoma de uma crise muito mais profunda.

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Com o Campeonato Espanhol aproximando-se do fim do primeiro turno, o Valencia está à beira da zona de rebaixamento. Em 17º lugar, tem os mesmos 12 pontos do Sporting Gijón, o melhor time da zona de classificados para disputar a segunda divisão ano que vem. É verdade que tem uma partida a menos que o resto do campeonato, mas, sendo contra o líder Real Madrid, as chances de tirar algum ponto dela são pequenas. Já foi derrotado nove vezes em 15 rodadas e ganhou apenas três jogos: Alavés, Leganés e Gijón.

Na última sexta-feira, Cesare Prandelli pediu demissão, com apenas um triunfo em oito partidas de La Liga, três meses depois de ter substituído Pako Ayestaran. Saiu atirando: disse que o clube está “obcecado por números” e que encontrou resistência para abrir os treinamentos aos torcedores e até mesmo para se relacionar com a imprensa porque há uma lista de jornalistas mal vistos.

Afirmou que a diretoria quebrou promessas em relação a reforços. Simone Zaza deveria chegar à Espanha em 27 de dezembro, mas, dois dias depois, ainda não havia sinal da sua contratação. Em vez dos quatro novos jogadores que esperava, o clube pediu que Prandelli escolhesse entre um atacante e um meia. “Futebol é sobre paixão e sentimento, e se você não tiver esses ingredientes, é difícil ir para qualquer lugar”, afirmou o técnico italiano.

Prandelli não queria novos jogadores por capricho: o Valencia vendeu seus melhores atletas na última janela de transferências e não dá para falar que a reposição foi à altura. André Gomes, Mustafi e Paco Alcácer foram embora, totalizando sozinhos uma receita de € 106 milhões para o clube. No entanto, apenas € 34 milhões foram investidos em contratações, como Ezequiel Garay e Nani. Outros reforços notáveis – Munir, Montoya, Mangala e Mario Suárez – vieram por empréstimo ou de graça e não correspondem à qualidade dos atletas que deixaram o Mestalla.

Quando Peter Lim comprou o clube em 2014, houve a expectativa de que ele pudesse reverter a sorte do Valencia, mas os problemas financeiros continuam presentes. Além deles, segue também a anarquia dos treinadores. O último que conseguiu emplacar duas temporadas completas foi Unai Emery, que ficou no comando da equipe entre 2008 e 2012. Desde então, oito homens, incluindo Prandelli, treinaram o Valencia – sem contar Voro, que assume interinamente pela terceira vez. Desses, apenas Nuno Espírito Santo completou uma temporada.

No meio de todo essa bagunça, o Valencia até conseguiu fazer boas campanhas, como a quarta colocação em 2014/15, que valeu vaga na Champions League. Mas já é a segunda temporada seguida que passa por apuros – foi 12º colocado na anterior, com direito a uma longa sequência sem vitórias sob o comando de Gary Neville – e, nessa toada, ser goleado pelo Celta, em casa, pode ser o menor dos vexames.