Cantor. Compositor. Para sempre ligado ao Camisa de Vênus, banda que fundou, da qual é o vocalista e líder (na formação clássica e nas voltas, como a atual), além de cuidar da carreira solo. Considerado um símbolo do rock no Brasil por quem conheça sua trajetória – talvez até por quem não simpatize com sua personalidade. Assumidamente arrogante e pretensioso (“Nasci no mesmo dia em que morreram Robert Johnson e Elvis Presley: morrem reis e nascem outros…”). Um membro assumido e militante do politicamente incorreto, daqueles que preferem perder amigos a perder piadas – algo claro por frases como “Eu sou ateu, graças a Deus” (e esta é só uma das mais leves). Pois bem: por incrível que pareça, Marcelo Nova, que completa 67 anos nesta quinta, teve lá sua ligação com o futebol.

Essa ligação não perdurou muito. Mesmo sendo torcedor do Bahia, nativo de Salvador que é, Marcelo não é lá o mais interessado dos homens na modalidade. No entanto, quando criança, teve um momento de envolvimento maior com o time. Envolvimento causado por motivo até maior: a vontade de estabelecer algum laço com o pai, o médico Fernando Nova – este sim, torcedor apaixonado do Tricolor.

Foi o que Marcelo revelou em “O galope do tempo”, biografia lançada no ano passado, escrita a partir de depoimentos dados ao jornalista André Barcinski: “Eu ia pra Fonte Nova com meu pai praticamente todo domingo, levando bandeira, essas coisas. Meu pai era torcedor fervoroso, tinha uma cadeira numerada lá. (…) O Bahia teve bons times nessa época, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Mas eu ia ao estádio também para tentar me aproximar de meu pai. Ele era um homem com uma grande dificuldade de se deixar aproximar. Nunca me deixou faltar nada: casa, comida, roupa lavada, escola, nada, mas não era um homem que chegava para você e dizia ‘Pô, e aí, velho, tá tudo bem com você?’. Não havia nenhum tipo de aproximação, sabe? Era sisudo demais. Penso que muito disso, da minha vontade de ir ver jogo de futebol, estava ligado a querer me aproximar dele”.

Mais ou menos na mesma época, Marcelo também se arriscava nas peladas – ou melhor, nos “babas”, na linguagem baiana: “Tinha [amigos] na minha rua, a Horácio Urpia. O esporte da molecada aos 12, 13 anos era, evidentemente, jogar um pouquinho de futebol, mas até na hora de jogar futebol eu parava no meio para voltar pra casa e escutar meus discos, que era o único assunto que me interessava”. Por falar em escutar, foi isso que manteve o fanatismo do pai pelo Bahia: “Ele teve um problema de coração, e numa época o médico o proibiu de ir ao estádio, então ele ia pro banheiro, se trancava com um rádio no ouvido, e minha mãe ficava gritando do lado de fora ‘Fernando, você é maluco, quer perder a vida por causa de futebol?!’ E ele: ‘Não, não, estou ouvindo noticiário!'”.

No entanto, Marcelo também se valia do futebol para extravasar a irreverência que se consolidou como adulto. Azar do zagueiro Romenil, histórico nome do Vitória na década de 1960: “O que eu gostava mesmo era de xingar o Romenil (…). Naquela época o Vitória treinava no Vale do Canela, e dava para ver tudo da janela do meu quarto, do alto do prédio. O time tinha um zagueiro chamado Romenil, que jogou lá um tempão, era ídolo do time. Ele era invocado, tipo xerifão, e era meio gordo. Eu, que era torcedor do Bahia, ficava escondido atrás da cortina, gritando ‘Romeniiiil, viaaado!’. E ele respondia lá de baixo ‘vai se foder, filho da puta, viado é teu pai!’. O cara ficava tão furioso que parava o treino para tentar descobrir de onde vinham os xingamentos. Isso durou anos. Todo dia eu xingava o Romenil, o cara só faltou enlouquecer de ódio. Décadas depois, eu estava em Salvador, entrei num táxi, comecei a bater papo sobre futebol com um taxista, e contei a história do Romenil”.

O taxista possibilitou que Marcelo Nova, já adulto e desencanado, desse vazão ao galhofeiro torcedor do Bahia que um dia foi: “Ele [o taxista] disse: ‘Pois agora Romenil mora aqui’, e apontou um prédio. Não resisti: pedi para ele parar, botei a cara para fora do táxi e gritei: ‘Romeniiiil, viaaaado!’. Infelizmente ele não estava em casa”.


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