A última rodada da Premier League marcou uma série de despedidas. E o Tottenham convive com a saída de dois nomes frequentes em suas delegações nos últimos anos. Michel Vorm permaneceu no banco de Hugo Lloris ao longo do tempo e não superou os 50 jogos pelo clube, mas foram seis temporadas com os londrinos. A grande figura que dá seu adeus, de qualquer maneira, é Jan Vertonghen. Seja como zagueiro ou como lateral, o belga simbolizou os Spurs durante quase uma década. Foram oito temporadas consecutivas como uma das principais peças do time e também como um dos principais defensores da Premier League. Sai com o status de ídolo, ainda que as grandes campanhas não tenham culminado no merecido título.

Quando chegou a White Hart Lane, em 2012/13, Vertonghen carregava uma boa dose de moral. Era não apenas o capitão do Ajax, como também havia sido eleito o melhor jogador da Eredivisie durante o bicampeonato nacional dos Godenzonen. Aos 25 anos, o investimento de €12,5 milhões na contratação hoje soa como uma grande pechincha. E o impacto do novato no Tottenham seria imediato. Jogando na zaga e na lateral do time de André Villas-Boas, causou um barulho imenso em sua primeira temporada. Acabaria eleito para a equipe ideal da Premier League, por toda a sua consistência e por sua contribuição ofensiva.

A campanha seguinte não seria tão simples a Vertonghen, lidando com as lesões. Porém, recuperado, se provava uma das grandes lideranças no sistema defensivo do Tottenham. Era um jogador que combinava leitura de jogo e qualidade técnica para desempenhar suas funções na marcação, mas sem perder a firmeza aos combates mais duros dentro da área. Acabou ganhando a confiança do novo técnico Mauricio Pochettino e se tornando também um dos vice-capitães nos Spurs. Um dos desafios ao belga foi se manter um pouco mais saudável, com pequenas lesões que quebraram suas sequências. Ainda assim, formou uma ótima dupla ao lado do compatriota Toby Alderweireld a partir de 2015/16.

O Tottenham se estabeleceu como um time de Champions League e, enfim, passou a frequentar posições mais altas na tabela do que o rival Arsenal. Faltava algum troféu para coroar o momento de ascensão vivido pelo clube, mas as boas campanhas na Premier League eram frequentes – e Vertonghen aparecia entre os nomes inescapáveis na zaga. Entre seus períodos de alta, o belga voltou a desfrutar uma temporada significativa em 2017/18. A terceira colocação dos Spurs também rendeu outra vez o reconhecimento ao zagueiro na seleção ideal do campeonato, bem como o prêmio de melhor jogador do clube. Seguiu em alta para alcançar a semifinal da Copa do Mundo com a Bélgica – na qual é o recordista de jogos, aliás.

As duas últimas temporadas guardaram uma versão menos presente de Vertonghen. Em 2018/19, teve problemas com lesões musculares, mas ainda assim contribuiu à excelente campanha rumo à decisão da Champions. Brilhou especialmente na classificação contra o Borussia Dortmund nas oitavas de final, embora também tenha aparecido na mítica semifinal diante do Ajax, quando foi para o sacrifício e atuou de máscara após tomar uma pancada no rosto durante a ida. Seria titular na zaga durante a derrota ao Liverpool na final em Madri.

Já nesta edição da Premier League, Vertonghen acumulou poucos minutos em campo. Chegou a perder alguns jogos por contusão, mas durante a maior parte do tempo seria mantido na reserva por José Mourinho – que, apesar disso, o elogiava pelo enorme profissionalismo. Esquentou o banco principalmente na metade final da campanha, tornando-se mais um na rotação dos Spurs. Sua vulnerabilidade parecia cada vez mais frequente e não desfrutava dos mesmos créditos com o lusitano. Reserva contra o Crystal Palace, sequer entrou em campo durante a última rodada da Premier League. E, sem contrato, fica livre para definir um novo rumo à sua carreira.

Nesta segunda-feira, o Tottenham se despediu de Vertonghen com homenagens. Não deveria ser de outra maneira, a quem disputou 315 partidas pelo clube e será um nome inescapável quando o atual período dos Spurs for recontado. Sua tradicional comemoração, fingindo abrir a camisa do Superman, ganhou até mesmo um quadro com o uniforme do Homem de Aço. Foi assim que o belga se colocou tantas vezes à torcida: como um herói em quem se podia confiar, um líder.

Aos 33 anos, Vertonghen ainda não definiu o próximo passo de sua carreira. Não tem mais físico para jogar em uma equipe de ponta da Premier League, mas pode fazer um bom papel em ligas secundárias ou mesmo encher os bolsos de dinheiro em algum campeonato periférico em outro continente. Nome tem para isso. O defensor em ascensão no Ajax confirmou seus predicados se tornando uma referência no futebol inglês e um ídolo ao Tottenham. Sai pela porta da frente, para ser aplaudido a cada retorno ao norte de Londres.