O Tottenham encarou diferentes desafios nesta quarta-feira de Liga dos Campeões. A mais óbvia, e mais aterrorizante, era lidar com a vantagem estabelecida pelo Ajax. Neutralizar o futebol ofensivo e deslumbrante dos Godenzonen se punha como um desafio e tanto. Além do mais, existia a pressão incontornável dentro da Johan Cruyff Arena, diante de uma torcida que não parava de cantar. Pois os Spurs ganharam na bola. Ganharam na vontade incessante que apresentaram em 45 minutos finais fabulosos. E ganharam na mente, de quem soube enfrentar os Ajacieden com os dentes arreganhados. De quem soube entrar na cabeça dos adversários. Mauricio Pochettino contou com a experiência de três inimigos íntimos, adorados em Amsterdã, que conhecem tão bem aquela atmosfera e aquela mentalidade. Christian Eriksen, Jan Vertonghen e Toby Alderweireld foram importantes em meio à apoteose dos londrinos.

Lucas Moura é a figura óbvia do Tottenham nesta noite histórica. Son Heung-min, Dele Alli, Fernando Llorente e outros também se tornaram instrumentais. Todavia, a maneira como os Spurs amassaram o Ajax dependeu de um trabalho em bloco. Dependeu de um meio-campista como Christian Eriksen. Muitas vezes cobrado, nem sempre o dinamarquês apresenta um nível constante. O próprio jogo em Amsterdã serve de exemplo, um tanto quanto sumido quando se cobrava ímpeto. Em compensação, ele fez outro papel durante os 90 minutos. Naquela que foi sua casa durante o início da carreira, jogou mais recuado, buscando ditar o ritmo da pressão. Apareceu em diferentes cantos da meia-cancha.

O Tottenham precisava ter a bola. E, na equipe, não há ninguém mais qualificado para trabalhar com ela do que Eriksen. Se a troca de passes faz parte do DNA do Ajax, isso também está enraizado no estilo de jogo do meio-campista. Uma característica que se sobressaiu. O camisa 23 não foi tão agudo, embora tenha comparecido para definir algumas chances. Contudo, seu principal papel foi coordenar os avanços durante o segundo tempo. Apareceu em todos os lados para apoiar os companheiros, para dar continuidade às jogadas, para auxiliar as investidas pelas pontas. Tentava dar um pouco de desafogo aos Spurs.

Eriksen era um dos que precisava absorver a energia que imperava na Johan Cruyff Arena e transformar em força para o Tottenham. Era um dos que não se intimidariam com o ambiente imposto pela torcida do Ajax. Mas não era o único. Vertonghen e Alderweireld também conviveram com aquele clima por anos, também não cairiam na pilha numa oportunidade tão grande aos Spurs. Foram dois motores ao time, impulsionando-o de trás.

O segundo tempo soberano do Tottenham também refletiu o desencontro do Ajax. O destempero bateu forte contra os holandeses e a pressão dos Spurs resultava em chances aos montes. No entanto, o crescimento do time também se valeu do trabalho feito na defesa. Vertonghen e Alderweireld não viveram a exibição perfeita, encontrando dificuldades para lidar com a movimentação constante do ataque dos Godenzonen. Entretanto, cresceram na noite e ajudaram os londrinos no milagre final.

Defensivamente, a dupla se empenhou nos bloqueios. Fechou a porta às finalizações do Ajax na segunda etapa. Ainda correram perigo, não fosse o milagre de Hugo Lloris nos acréscimos ou o tento de Hakim Ziyech que a trave evitou. Centímetros que permitiram a história vitoriosa dos londrinos em Amsterdã. Além do mais, a dupla também seria fundamental para empurrar o time a partir do campo defensivo. Avançavam e campo e se responsabilizavam pela saída de bola. Alderweireld, sobretudo, se tornou um novo volante em meio ao desespero. Enquanto isso, Vertonghen vivia sua superação pessoal, após a concussão que o tirou de campo na ida.

E se o Tottenham precisava confiar, Vertonghen quase concretizou o impossível. O zagueiro também se aventurou no ataque, também tentou se consagrar como herói. Não conseguiu apenas porque o inacreditável aconteceu na área do Ajax. Primeiro, o antigo ídolo carimbou a trave. Depois, veria o seu chute no rebote ser travado na pequena área. A Lei do Ex pode não ter preponderado na Johan Cruyff Arena. Nada que impedisse o êxtase quando Lucas Moura transformou míseros segundos em um triunfo para se contar por décadas.

A filosofia do Ajax formou, forma e formará grandes jogadores. O Tottenham sabe muito bem disso, por tudo o que sofreu nestas semifinais e pela maneira como seu elenco se faz mais forte graças a estes talentos. Eriksen é uma parte da engrenagem, nem sempre desequilibrante, mas presente. Vertonghen e Alderweireld compõem uma das melhores defesas da Europa. Jogadores moldados para tratar bem a bola, para ter uma mentalidade ofensiva, para atuar com coragem. Algo que não faltou aos Spurs na Johan Cruyff Arena, com os antigos garotos ajacieden encabeçando um Tottenham inabalável rumo à final.