Raymond Domenech parece viver em um mundo de conto de fadas. O treinador da seleção francesa comentou, em sua tradicional mensagem por vídeo colocada no site da federação, o quanto se sentia feliz com o ambiente dos Bleus e com os debates em torno da seleção. Se a vida da França estivesse tranquila nas Eliminatórias da Copa-2010, o discurso se encaixaria com a realidade. No entanto, depois do empate em casa com a Romênia e a polêmica discussão com Henry transformam tais declarações em uma piada de péssimo gosto e sem graça alguma.

A ‘vie en rose’ vista por Domenech simplesmente não existe. Henry, em entrevista ao diário Le Parisien, apenas expôs o que todos que acompanham a seleção francesa estão cansados de saber. Os Bleus não têm comando em campo, com um estilo de jogo sem qualquer padrão e com um comandante que dá provas concretas de não saber o que fazer. Embora o atacante tenha vindo a público para desmentir o que havia falado, o estrago já estava feito. Ou melhor, finalmente colocado de dentro para fora.

O decepcionante 1 a 1 com a Romênia em pleno Stade de France deixou os Bleus em péssima situação para o confronto contra a Sérvia, líder do grupo, em Belgrado. Como se estas circunstâncias já não fossem suficientes, cabe lembrar que nem mesmo uma vitória seria suficiente para os franceses alcançarem os rivais na ponta da chave. Em vez de se concentrar em extrair o melhor de um grupo que não anda de bem com ele, Domenech está mais interessado em atrair as atenções para fatores extracampo.

As vaias o acompanham, assim como as pesadas críticas da opinião pública e, como Henry deixou bem claro, também as queixas dos jogadores. Os campeões de 98 também exercem forte pressão, como colocaram Dugarry (“foi um bordel”, sobre as alterações feitas no fim do jogo contra os romenos) e Pirès (“a seleção não evoluiu e nem progrediu. Domenech não tem ideias, não transmite nada e é incompetente”). Como alguém tão questionado consegue se manter por tanto tempo no cargo?

A resposta está na própria federação. Jean-Pierre Escalettes, presidente da FFF, nunca escondeu a alta confiança depositada no treinador. Para o dirigente, o objetivo de Domenech é classificar a França para o Mundial – pouco importa se como a primeira colocada da chave ou com a disputa da repescagem. As circunstâncias pouco interessam a Escalettes; apenas o resultado final.

A FFF perdeu tempo demais ao manter Domenech depois do fiasco na Euro-2008. A oportunidade para mandá-lo embora nunca esteve tão clara, mas a federação continua cega pelo vice-campeonato mundial em 2006 com uma seleção desacreditada. Só que não dá mais para viver daquele passado e ignorar as bobagens feitas pelo treinador. Quando nem os jogadores demonstram respeito por seu líder, as coisas apenas caminham para um lado cada vez mais sombrio.

Também não existe essa história de não haver nomes capazes de substitui-lo, pois Laurent Blanc, por exemplo, segue carreira ascendente. Essa insistência baseada na gratidão exercida pela FFF somente alonga o sofrimento da torcida francesa nestas Eliminatórias. A hora de Domenech já passou faz tempo; a da seleção francesa também parece fadada a engolir a equipe.

Empate sem graça

Em uma das raras oportunidades que teve, Domenech manteve praticamente o mesmo time que ‘goleou’ Ilhas Faroe por 1 a 0 em Thorshavn. A única mudança ficou por conta da entrada de Henry, que não atuara em agosto por estar contundido, no lugar de Malouda. Isso significou a manutenção de Gignac no comando do ataque, com Anelka pelo lado direito, Benzema e Ribéry no banco de reservas. A Romênia e o Stade de France viram, mais uma vez, a falta de realismo ofensivo dos Bleus.

No primeiro tempo, apesar de um bom volume de jogo, as verdadeiras chances de perigo dos franceses podiam ser contadas nos dedos. Do ponto de vista tático, Henry e Gignac fizeram uma boa parceria pela esquerda, o que poderia deixar o jogo penso para somente um lado do campo. Anelka tratou de corrigir esta falha e equilibrou o setor. Se a movimentação estava boa, a pontaria estava bem ruim.

Com os romenos preocupados em conter os avanços dos Bleus pelas pontas, abriram-se espaços para a chegada de Gourcuff que, mesmo bem marcado, trabalhava bem as jogadas. Após uma meia hora de pressão inócua, os donos da casa baixaram o ritmo, mas sem deixar o domínio da partida, e receberam aplausos na saída para o vestiário. A seleção até jogou direitinho, mas um time que não acerta o gol complica qualquer chance mesmo que humilhe o adversário com dribles desconcertantes a todo momento.

Veio o segundo tempo e a França seguiu com seu jogo aberto pelas pontas. A defesa romena colaborava ao permitir o grande número de bolas levantadas para sua área e, em uma delas, Henry aproveitou para abrir o placar. Pouco depois, Escudé fez o favor de empatar para os romenos ao marcar contra, mas ele não deve ser crucificado pelo resultado. Fatos posteriores seriam ainda piores.

Domenech começou a destruir a equipe logo em seguida, quando tirou Gignac para colocar Ribéry em campo. Anelka passou a exercer a função de ‘centroavante’, com o jogador do Bayern de Munique caindo pelo lado direito. A alteração seria interessante se Ribéry estivesse em suas melhores condições físicas – condição essencial para que o ataque azul continuasse sua pressão. No entanto, ele sentiu a falta de ritmo de jogo e fez o setor cair de produção.

Para completar seu desastre tático, Domenech resolveu tirar Gourcuff, o principal articulador da equipe, para colocar Benzema. O técnico cometeu um erro simplório: achar que o time ficaria mais ofensivo com mais atacantes em campo. De que adianta ter quatro jogadores assim se não há alguém para organizar o jogo? Por isso o desespero de Anelka ao se dirigir ao banco de reservas, perdido, sem saber direito onde se posicionar em campo e o que fazer.

Em teoria, o 4-3-3 passava para um 4-4-2, com Henry e Benzema no ataque, apoiados por Ribéry (esquerda) e Anelka (direita). Definitivamente, um esquema sem pé nem cabeça; tanto que os Bleus em nada lembraram a meia hora inicial. A Romênia agradeceu, pois não contava com essa ajuda extra de Domenech. Pior para a França, que perdeu seu padrão tático na hora que mais precisava dele, complicou suas chances de ir ao Mundial e segue com um treinador que pensa em fazer experiências malucas quando bem entender.