Ventura é demitido, mas Tavecchio se recusa a deixar a federação e causa revolta

Presidente da federação decidiu não deixar o cargo, como muitos urgiam após a eliminação da Itália na repescagem

Gian Piero Ventura tentou segurar o osso. Primeiro disse que deixaria a seleção italiana, para depois falar que não se demitiria – de olho em €860 mil que teria direito se a federação italiano rescindisse seu contrato. No fim das contas, a saída do treinador foi confirmada nesta quarta, mandado embora pelos patrões. Mas quem esperava uma mudança mais profunda na estrutura do futebol italiano, pode aguardar sentado. Presidente da FIGC, Carlo Tavecchio se recusou abandonar o cargo, como muitos urgiram ao longo dos últimos dias. Continuará à frente da entidade e será o principal responsável por discutir as diretrizes após a ausência no Mundial, bem como deverá encabeçar o processo de escolha do novo técnico dos azzurri.

A posição de Tavecchio, obviamente, causou revolta. E a primeira voz a se levantar contra o cartola foi a de Damiano Tommasi, ex-volante da seleção que atualmente chefia a União Italiana de Jogadores. Em reunião com o dirigente e outras autoridades do futebol italiano, o ex-romanista deixou o encontro logo nos primeiros minutos, ao saber que o presidente não entregaria a sua cadeira.

“Tavecchio decidiu que não se demitirá. Os outros não tomaram posição e disseram que discutiriam isso no futuro. Não parece haver um clima de mudança. Se não houver mudanças, nós continuaremos tomando a mesma sopa que causou indigestão a tanta gente. Deixei a reunião antes de ouvir qualquer coisa. Minha primeira pergunta foi sobre a demissão e os outros membros não perguntaram. Não quero ouvir mais nada, não parece que exista um desejo de começar do zero”, afirmou Tommasi.

Tavecchio toma uma postura diferente de seu antecessor, Giancarlo Abete, que se demitiu logo após a eliminação na primeira fase da Copa do Mundo de 2014, ao lado do treinador Cesare Prandelli. O atual presidente, além disso, possui inúmeras controvérsias ao redor de seu nome – especialmente em episódios de racismo. O dirigente também já foi sentenciado cinco vezes pela justiça italiana, entre 1970 e 1998. Chegou a ser condenado por falsificação de documentos e evasão fiscal, entre outros motivos. Ainda assim, presidente da Liga Nacional Amadora da Itália, estendeu os seus poderes à FIGC em 2014, reeleito em março deste ano. Já em abril, assumiu o comando da Lega Serie A, que controla as competições de elite do país.

Antes do anúncio de Tavecchio, outros ex-jogadores da seleção italiana se manifestaram contra o cartola. Campeão do mundo em 1982, Marco Tardelli foi enfático: “Se Tavecchio tem o mínimo de dignidade, ele deveria se demitir. Eu conheço a realidade em outros países, porque trabalhei por lá durante anos. Eu posso te dizer que, na Inglaterra, Tavecchio sequer pisaria em um estádio, mas aqui ele é presidente. Existem coisas que você precisa se perguntar: por que ele está aqui e quem deixa ele dizer certas coisas?”.

Sem endereçar sua crítica diretamente a Tavecchio, Paolo Maldini foi outro que pediu uma reestruturação: “São os mesmos rostos no comando da seleção italiana desde que eu deixei o time, há 15 anos. Depois desta grande decepção, nós podemos começar de novo e usar o momento como oportunidade. Precisamos reconstruir nossas fundações, para encarar o futuro sem medo. Mas as pessoas no comando seguem as mesmas”. E a pressão precisará ser grande para transformar o cenário neste sentido.