Jorge Jesus estava fora do radar dos grandes centros europeus. A promessa construída quando foi o treinador mais vitorioso da história do Benfica havia se esvaziado pelas saídas conturbadas da Luz e do Sporting, e seu último trabalho, no Al-Hilal, servia mais à conta bancária do que ao currículo. Teve, então, aos 65 anos, uma ideia brilhante: treinar o Flamengo. Na noite deste sábado, recém-coroado campeão da Libertadores e ídolo de 40 milhões de pessoas, quatro vezes a população de Portugal, deve estar muito satisfeito do momento em que aceitou a empreitada.

A língua ajuda o profissional português que quiser trabalhar no Brasil, assim como as semelhanças culturais, mas o nosso futebol ainda está fora do roteiro convencional de ambiciosos treinadores europeus, mas, para a sorte do Flamengo, Jorge Jesus não é exatamente convencional. Seu estilo mistura estudo e boleiragem, sua língua é bastante afiada, e, como ficou provado inclusive quando trocou o Benfica pelo Sporting, ele não tem medo de tomar caminhos improváveis.

Tem precisado encarar no Brasil obstáculos que vão além de um calendário caótico e da tradicional desorganização. Sofre uma resistência exagerada de colegas que mistura pitadas de xenofobia com outras de reserva de mercado e estaria em situação mais difícil se não tivesse quase imediatamente transformado as ótimas peças do Flamengo no melhor time do país, praticamente sem momentos de baixa, com exceção da eliminação para o Athletico Paranaense na Copa do Brasil, assim que chegou, e aquela derrota por 3 a 0 para o Bahia.

Desde então, são 26 partidas de invencibilidade, e nesse intervalo, o título brasileiro foi praticamente garantido, o Palmeiras, rival mais próximo em tabela e poder financeiro, foi derrotado com folgas, e a vaga na final acabou garantida com uma goleada épica sobre o melhor time do Brasil nos últimos anos. A esta altura, os títulos servem apenas como referendo a um trabalho excepcional e uma resposta aos famosos “ganhou o quê?”.

Ambos podem vir ao mesmo tempo, neste fim de semana, caso o Palmeiras não ganhe do Grêmio, e é curioso que o maior deles tenha sido sacramentado justamente no pior jogo do Flamengo desde a derrota para o Bahia. Durante a maior parte da partida em Lima, os brasileiros foram dominados pela pressão incessante do River Plate, saíram atrás e poderiam ter se encontrado em situação até pior nos minutos finais.

O Flamengo e Jesus sabiam também que aquele nível de aplicação física eventualmente deixaria o River Plate cansado. E, ao mesmo tempo, as alterações de Marcelo Gallardo pioraram o time argentino, enquanto Jesus foi bem ao introduzir Diego, que melhorou bastante a qualidade do passe rubro-negro, que esteve em um dia bem abaixo do normal.

Os gols foram frutos de erros individuais dos jogadores do River Plate, reflexo desse cansaço, mas nenhum jogo pode ser analisado isoladamente. Um time que chega a uma final no embalo deste Flamengo chega com a barra de confiança completa. Impossível não se ver perdendo, e ver o tempo acabando, e ainda assim acreditar que é melhor que o adversário e ainda pode vencer.

Essa confiança que também contribuiu para que Gabigol colocasse aquelas duas bolas na rede é resultado de um processo, do trabalho do dia a dia e da condução impecável da temporada desde o fim da Copa América. Resultado não do trabalho de Jorge Jesus neste sábado que, na comparação, talvez tenha sido pior que o de Gallardo, mas do trabalho de todos esses meses.

Finais não se jogam, finais se ganham, como diz o ditado, e Jorge Jesus ganhou a maior da sua carreira. Título de um tamanho que ele dificilmente conquistaria se tivesse tomado o caminho mais convencional e assumido algum clube grande de Portugal ou de segundo patamar de outros centros europeus.

Arriscou, e, ao fazê-lo, entrou para a história de uma nação de 40 milhões de pessoas.