O Vasco chegou a estar a 13 pontos de sair da zona da degola. Foi humilhado pelo Internacional. Não tinha uma equipe minimamente arrumada, confiável, definida. O técnico estava perdido, e o presidente só sabia soltar bravatas (isso, palpito, nunca deixará de acontecer). Enfrentava a inevitabilidade de mais uma queda, a terceira, e a discussão era sobre cronograma: quando seria concretizada? Mas com Jorginho, Nenê e a paixão da sua torcida, o tetracampeão brasileiro conseguiu chegar aos últimos minutos da temporada ainda vivo. Só que não foi o bastante. O começo de campeonato cobrou um preço alto demais.

LEIA MAIS: Há 18 anos, Edmundo destruía o Fla e quebrava recorde no Brasileiro

Alto demais porque o Vasco foi rebaixado pela segunda vez seguida. Caiu em 2013, voltou em 2014, cai de novo em 2015. Bateu na primeira divisão e voltou. Isso enfraquece a tese do acidente de percurso. Evidente que o clube nunca deixará de ser gigante. Os títulos, a história, os ídolos, e principalmente, os torcedores são os mesmos. Mas o presente está envolto em uma nuvem que bloqueia a visão do futuro. Já caiu uma vez e não se organizou. Duas e não se organizou. O que leva qualquer um a acreditar que conseguirá agora?

O roteiro da terceira queda começou em novembro do ano passado, quando Eurico Miranda renasceu das trevas para voltar ao clube. Impossível dissociar a campanha ruim da figura do seu presidente. Afinal, nas glórias, ele não faz questão nenhuma que isso acontecesse. Quando venceu o Campeonato Carioca – como todo estadual, pródigo em disfarçar fragilidades -, adotou um discurso tão descolado da realidade que afirmou que o Vasco disputaria o título do Campeonato Brasileiro, e depois, que se mudaria para a Sibéria se fosse rebaixado.

O elenco foi montado a esmo, sem um norte claro, acumulando jogadores renomados fora de forma ou na fase final das suas carreiras com outros médios que já atuaram em times grandes. No segundo semestre, Eurico, que divide o seu tempo entre presidir o time e comprar brigas de bastidores na Federação Carioca, ainda anunciava reforços. Nenê chegou em agosto. Foram três treinadores ao longo da temporada – Doriva, Celso Roth e Jorginho -, uma troca constante de comando que sempre atrapalha. O torcedor pensa o que aconteceria se o último tivesse chegado antes.

Porque se alguém sai por cima neste ano sombrio do Vasco é o técnico Jorginho. Estreou ganhando do Flamengo, na Copa do Brasil, mas a reação demorou para começar no Brasileiro. Os primeiros quatro jogos na liga terminaram com derrota, uma delas por 6 a 0 para o Internacional. Mas o lateral direito do tetra continuou em frente, e nas 15 rodadas seguintes, perdeu apenas uma partida. Conquistou 28 pontos de 45 possíveis. Um aproveitamento de 62%, maior que o do Atlético Mineiro em todo o torneio.

O problema é que, antes disso, o Vasco havia conquistado apenas 13 pontos nas 23 primeiras rodadas, fazendo apenas nove gols. Além disso, vacilou imperdoavelmente nos confrontos diretos. Perdeu para o Figueirense e para o Coritiba com um gol aos 48 minutos do segundo tempo, antes da reação começar. E depois do início dela, faltou concentração contra Avaí, Chapecoense e São Paulo, três jogos que o Vasco vencia, mas levou o empate depois dos 40 da etapa final.

O segundo turno do Vasco, embora muito bom, não foi impecável. Ficaram faltando um ponto, uma vitória ou alguns gols, dois pontos, um instante de mais concentração, uma bola que carimbou a trave. Ou tudo isso, que poderia ter feito toda a diferença. Mas o clube não foi rebaixado nos detalhes.

Foi rebaixado nas primeiras 23 rodadas do Campeonato Brasileiro. E por Eurico Miranda, o arquiteto do desastre, um dirigente, de fato, de segunda divisão. E quando Eurico cai, inevitavelmente arrasta o Vasco e sua massa de torcedores apaixonados para o buraco junto com ele. O que tem que preocupar o torcedor agora não é o rebaixamento consumado. É como será o 2016 do clube. Não parece haver boas perspectivas. A última passagem do Vasco pela segunda divisão não foi tranquila. Será preciso melhorar muito para evitar que o sufoco de 2014 se repita.