Todo país tem sua mitologia futebolística. A cultura oral do torcedor, que passa de geração para geração criando ditos populares e personagens de um universo próprio. Essas ideias marcam os debates na TV e nas esquinas de cada cidade até hoje, mesmo que algumas delas se mostrem imprecisas ou ultrapassadas com o passar do tempo. Mas servem de ponto de partida de muito do que se vê de futebol.

SÉRIE ESPECIAL: Entidades místicas do futebol europeu

 

Aqui no Brasil, muitas dessas ideias surgiram nas crônicas de Nelson Rodrigues ou de jornalistas e torcedores que nele se inspiraram. Na Argentina, uma dessas referências é a revista El Gráfico, mais tradicional veículo esportivo do país. Uma publicação que teve seu fechamento anunciado na última terça, encerrando uma linda trajetória de quase 99 anos.

Para quem acompanha futebol internacional há alguns anos, a principal imagem da El Gráfico vem do “Abraço da Alma”, uma das mais espetaculares peças de fotojornalismo da história. Trata-se da imagem de Victor Dell’Aquila, torcedor que havia perdido seus dois braços durante a infância, invadindo o gramado para abraçar, com as mangas vazias de sua blusa, Tarantini e Fillol na comemoração da conquista da Copa de 1978.

O momento foi captado pelo fotógrafo Ricardo Alfieri e eternizado na El Gráfico (curiosamente, a foto não foi capa, mas ocupou página dupla no interior da edição). A imagem foi tão marcante e entrou dentro do folclore do futebol argentino que, para promover seu patrocínio para a Copa de 2014, a Coca-Cola reuniu novamente Dell’Aquila, Tarantini e Fillol em uma propaganda.

Mas o grande legado da revista para a cultura do futebol argentino é outro e vem de 50 anos antes. E parece muito com o que nós, brasileiros, também ouvimos tanto sobre nosso jeito de jogar.

Em suas primeiras décadas, o futebol argentino tinha forte influência dos britânicos. Os clubes de origem inglesa partiram na frente nos torneios locais, sobretudo o Alumni, primeira potência do país. Em 1913, o Racing se tornou o primeiro campeão argentino que não contava com britânicos no elenco. Aos poucos, as equipes com jogadores nacionais passaram a ganhar espaço, apresentando um jeito de jogar diferente.

Em 1928, a El Gráfico publicou um texto defendendo a teoria de que havia surgido um estilo de futebol argentino, “criollo” (no sentido de local, nativo).

“Com o correr dos anos, toda a influência saxã do futebol foi desaparecendo para dar espaço ao espírito menos fleumático e mais inquieto do latino. Inspirados na mesma escola dos britânicos, rapidamente os latinos foram mudando a ciência do jogo e fizeram uma própria, hoje amplamente reconhecida. Ela se diferencia da inglesa por ser menos monocórdica, menos disciplinada e metódica, pois não sacrifica o individualismo em homenagem à soma coletiva dos valores. No futebol inglês, tudo tende a destruir a ação pessoal para formar um todo sólido, de modo que um time não se conta pelos seus homens separadamente, mas pela ação uniforme de todo um conjunto. É daí que o futebol britânico se torna realmente poderoso e tem a força regular e impulsiva de uma verdadeira máquina, mas é monótono porque sempre é igual e uniforme. O futebol rioplatense, no entanto, não sacrifica inteiramente a ação pessoal e utiliza mais o drible, o esforço pessoal generoso, tanto nos homens de ataque como nos de defesa. Por consequência, é um futebol mais ágil e vistoso.”

A comparação de estilos de jogo europeu e sul-americano feita pela El Gráfico não é muito diferente das feitas no Brasil. Mas eles criaram uma alegoria própria, passando para a realidade futebolística e urbana dois elementos tradicionais da Argentina, o gaucho e o ambiente que permite seu surgimento, o pampa. No caso do futebol, o pibe e o potrero, o garoto e a várzea.

A El Gráfico defendia que esse jogo técnico e de habilidade surgiu na Argentina porque o futebol se aprendia nos terrenos baldios das cidades. Era lá que ele pegava uma bola feita de trapos e desenvolvia uma forma mais lúdica, espontânea e livre de ver e praticar o esporte.

Com o passar dos anos e a transformação desse menino em jogador adulto, outros elementos eram agregados a sua personalidade. Ele precisava ser o principal provedor financeiro da família, ele era a referência de sua comunidade, do bairro em que cresceu. Mas, ele jamais deixaria de ser um pibe, um garoto, cheio de ingenuidade e impulsividade dentro de sua imensa capacidade de criar fantasias. Esse é o autêntico jogador argentino.

Ao longo dos anos, o país teve diversos pibes. Até que, no final da década de 1970, essa narrativa se encaixou perfeitamente a um adolescente baixinho, atarracado, talentoso até a medula que surgiu na periferia de Buenos Aires: Diego Maradona. Não à toa, ele rapidamente foi apelidado de Pibe de Oro. Era o pibe dos pibes, o garoto dos garotos, dentro dessa alegoria tão entranhada entre os torcedores e criado pela revista ainda nos anos 20.

Essa imagem do jogador argentino ser sempre um garoto, mesmo que um garoto grande, ajuda a explicar a forma como o argentino idolatra seu maior craque. Não se exige a perfeição de Maradona dentro e fora de campo, não se exige a maturidade total nas ações de Maradona. Afinal, quem exige a perfeição e a maturidade de um pibe?

Então, a El Gráfico pode até estar fechando as portas neste mês. Mas ela seguirá viva por muito tempo. Enquanto algum torcedor argentino ver um meia habilidoso e tratá-lo como um garoto, a revista ainda estará pulsando.

PS: A El Gráfico surgiu em maio de 1919 como uma revista de notícias em geral. Quase todo o material era fotográfico, e daí veio seu nome. Aos poucos, o esporte foi dominando as páginas até 1925, quando a publicação adotou de vez sua vocação esportiva.

O futebol era o carro-chefe, mas a revista falava também de outras modalidades. Em 1998, a revista foi comprada pela empresa de marketing esportivo Torneos y Competencias (atual Torneos). Em 2002, a periodicidade mudou de semanal para mensal. Ainda assim, suas edições eram volumosas, com mais de 100 páginas.

A Torneos anunciou o fim da edição impressa da El Gráfico, mas a marca deve permanecer de forma digital.

 


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