Era o melhor contra-ataque do mundo. A despeito das recorrentes eliminações nas copas continentais, o Arsenal era um time de se meter medo em qualquer gigante europeu. Henry, Pires, Bergkamp, Gilberto Silva, enfim, era uma constelação que orquestrada por um inspirado Arsene Wenger constava na lista de favoritos para qualquer comentarista de futebol de respeito.

Isso até a fatídica derrota para o rival Manchester United, que acabou com a invencibilidade do time no campeonato inglês. Como um castelo de cartas, o Arsenal foi desabando. Empates cedidos nos últimos minutos, novas derrotas, outra eliminação na Liga dos Campeões, questionamentos sobre a capacidade do técnico, falatório da imprensa, caça as bruxas, inúmeras escalações diferentes, a maior contratação da história do clube falando que viver em Londres era ´´um inferno´´… Nada dava certo.

No olho do furacão, no triste momento de recolher os pedaços e começar de novo, aparece um atacante canhoto. Envergando a camisa 11 nas costas, Robie van Persie, um holandês de 21 anos, começou a se destacar pela extrema habilidade, visão de jogo e finalização. Foi, apesar da idade, muito importante para iniciar uma trajetória de recuperação do time.

Vindo do Feyenoord, Van Persie marcou 14 gols em 70 partidas pelo time de Roterdã. Ele estreou no elenco profissional com apenas 17 anos, deixando a impressão de que possuía potencial. Recebeu, inclusive, o prêmio de revelação da temporada 2001/2. Provavelmente, os dirigentes do Feyenoord não imaginavam o tamanho da capacidade do atacante ao fecharem negócio com os Gunners por cerca de US$ 5 milhões, uma pechincha. Tanto que Van Persie desembarcou na capital inglesa com ‘low profile’, afinal, não parecia ter nada que o diferenciasse das inúmeras promessas de craques contratadas pelo Arsenal que, em boa parte, não passam disso.

Mas o freqüentador das seleções de base sub-21 da Holanda se diferencia por outra característica além de sua técnica. O jovem jogador é a pedra fundamental da seleção, capitão e o líder do elenco laranja. Além disso, não é à toa que ele é comparado com Dennis Bergkamp. Quando começou sua carreira, aos 13 anos, no Feyenoord, havia um jogador que era examinado durante os jogos e a quem Persie dedicou toda a sua reverência de fã: o próprio Bergkamp.

A velha história

E como esse jovem teve oportunidade para mostrar seu futebol num gigante inglês e se tornar uma peça válida no elenco? Se não fosse pela série de lesões de seus colegas de posição, talvez Van Persie não tivesse nenhuma chance de mostrar que pode, com as devidas ressalvas, ser alcunhado de ‘futuro Bergkamp’.

A verdade é que Van Persie ainda está longe do futebol hábil e competente do seu herói ptesiofóbico, ou com fobia de avião. Especialmente pela capacidade de ‘garçom’ de Dennis e pelo absurdo controle de bola, Van Persie tem um longo caminho a percorrer.

O jovem, no entanto, mostrou que tem a centelha do craque, a capacidade de decidir um jogo. O exemplo mais notável foi na vitória sobre o Blackburn na seminfinal da FA Cup, quando entrou aos 82 minutos em lugar de seu ídolo e marcou dois tentos, o primeiro dos quais foi belíssimo.

Aparentemente humilde, o jogador tem se mostrado feliz com suas repetidas escalações e o aumento de aparições no time do Arsenal. Em entrevista ao site do clube, Van Persie destacou que gosta de assistir a partidas para aprender mais sobre o posicionamento e técnicas de grandes jogadores e definiu: ´´não consigo dizer o quanto estou feliz aqui. Tive meus altos e baixos nesta temporada, mas a amizade e a receptividade me ajudam muito a melhorar´´. Na temporada 2004/5, o atacante marcou oito gols em 35 aparições, na grande maioria entrando no final do jogo.

A esperança em seu futuro é, como a cobrança, muito grande. Wenger sentenciou na ocasião de sua contratação: ´´ele é alto, usa bem o corpo e é bom de cabeça. Tem ótima visão de jogo e chuta muito bem. É um novo talento com futuro´´. Para confirmar as palavras do chefe, Persie vai precisar suar muito a camisa. Por enquanto, vai muito bem.