À medida que o tempo passa, duas coisas ficam cada vez mais claras: Alex Ferguson era maior do que enxergávamos; e o Manchester United depois de sua saída é uma grande bagunça. Os detalhes dos bastidores do clube são escassos, afinal, mesmo quem já passou por lá tem natural resistência em revelar os problemas que encontrou. Mas Louis van Gaal certamente não está neste grupo. Em entrevista ao jornal Guardian, o ex-treinador holandês relembrou seu tempo nos Red Devils, detalhou a crise estrutural que vive o clube e comentou também situações mais pontuais de sua passagem em Old Trafford.

Assim como Mourinho afirmou no início de seu trabalho no United, Van Gaal diz que o problema começa com o fato de que o clube nunca foi atualizado (estruturalmente e também em termos de elenco). O holandês tentou fazer o trabalho, mas diz que “nem sempre consegui os jogadores que queria”. “Este é o problema. Existe o Woodward (Ed Woodward, CEO do United), e seu braço direito é o (chefe de desenvolvimento corporativo) Matt Judge. O Judge eu via de vez em quando, mas não muito. E então havia o chefe de olheiros. Essa era a estrutura, mas você sempre depende do Woodward e do Judge”, revelou Van Gaal.

O ex-treinador conta que, ao chegar ao United, achava que o clube era capaz de contratar quem quisesse – por seu poder, especialmente o financeiro. “Aparentemente, alguns jogadores não eram alcançáveis ao Manchester United. Não consigo entender, mas era assim”, disse.

Se este é mesmo o caso, a questão não é falta de verbas. Desde 2014/15, o clube gastou £ 733 milhões em contratações, atrás apenas de Manchester City (£ 812 milhões) e Chelsea (£ 747 milhões). Quatro treinadores e muitos reforços depois, fica cada vez mais evidente que não existe um planejamento a longo prazo ou alguma filosofia sendo seguida, exceto a de buscar retornos imediatos. Desde pelo menos a reta final do trabalho de Mourinho, o assunto da chegada de um diretor de futebol se tornou discussão frequente na imprensa inglesa e entre torcedores, e Van Gaal também vê a importância de alguém neste cargo para guiar um clube da estatura do United – ele revela que, quando negociou sua ida à equipe, em momento algum se falou em filosofia da agremiação, algo que, segundo ele, não é comum: “sempre conversei disso”.

Lentamente, os Red Devils demonstram entender a necessidade de contratar alguém que sirva como ponte entre a diretoria e a equipe, alguém do futebol que possa capitanear o projeto a longo prazo da instituição, mas os primeiros indícios mostram que o foco está no caminho equivocado. Ex-jogadores sem experiência alguma na função, como Rio Ferdinand e Darren Fletcher, foram especulados.

Van Gaal defende que, antes de tudo, um diretor de futebol precisa de muita experiência no mundo do futebol. “Você precisa de conhecimento do esporte, de métodos de treinamento, de experiência de preparação, educação das categorias de base, de scouting, e você precisa pensar em estruturas. Quando se está em sua profissão como diretor técnico, você desenvolveu um nome, então você tem uma grande rede e pode sempre usar essa rede.”

Anteriormente um banqueiro, Ed Woodward assumiu o comando de CEO do clube em 2013. Seu sucesso financeiro e corporativo desde então é inquestionável, com o Manchester United figurando ano após ano como um dos três clubes mais ricos do mundo. Entretanto, a bonança não se traduziu ao campo. “Acho que é preciso mudar a estrutura na organização do Manchester United, porque, agora, o equilíbrio entre o departamento de futebol e o departamento comercial não está certo e até se inclina mais ao comercial”, avaliou Van Gaal.

“O que eu vivenciei é que eu precisava ir para os Estados Unidos antes da temporada e tínhamos que jogar várias partidas em um curto espaço de tempo. Essa é uma boa preparação comercial, mas não a melhor para mim como treinador. Todos estavam felizes, menos eu, porque nos Estados Unidos ganhamos tudo, mas a primeira partida na liga foi uma derrota: para o Swansea. Isso porque todos os jogadores estavam exaustos. Quando você tem que começar assim, isso não é bom.

Ao observar jogadores, o Manchester United não tem a organização para entregar os melhores jogadores, na minha opinião. Então, com o desenvolvimento de jogadores, não dá para dizer que o do Manchester United é muito bom. Quantos jogadores estão subindo das categorias de base?

No Manchester United, você tem um departamento de desempenho fantástico, e isso está sob a orientação do médico. Mas esse departamento de desempenho precisa também da orientação de um diretor técnico experiente. Você tem que usar esse departamento não apenas para o time principal, mas também intensivamente para as categorias de base. Então, os jogadores jovens aprendem mais sobre a filosofia do Manchester United, e o grande passo ao time principal é muito mais fácil. Esses são os aspectos importantes que você tem que desenvolver como diretor técnico.”

Sua saída do clube

Contratado para um projeto inicialmente de três anos, Van Gaal ouviu do clube um dia depois de conquistar a Copa da Inglaterra que teria seu contrato encerrado. Ele afirmou ao Guardian que se sentiu traído e que a maneira como foi demitido foi horrível, dando detalhes de bastidores que justificam o sentimento. “Senti-me traído porque o que ouço de muitas pessoas é que já estava decidido em dezembro, janeiro. Conversei todas as semanas com Woodward. Depois de três péssimas derrotas em dezembro, quando também fomos eliminados da Champions League, conversei com ele e disse: ‘Entendo que você me demita’. Em um clube como o Manchester United, você não pode perder três consecutivas. Então ele disse: ‘Não, nunca. Eu nunca o demitirei. Acredite em si. Não leia os jornais’. Acho que então dá para se sentir traído, mas agora eu consigo entender melhor, porque ele sabia que no ano seguinte eu diria adeus. No mercado estava o Mourinho. Ele também é um treinador muito bom, e o Woodward pensou que havia garantido para o Manchester United o alto nível de Mourinho por anos.”

Van Gaal diz não ter ressentimento de Mourinho e entende sua prontidão em aceitar o cargo mesmo enquanto o holandês estava no comando. “Posso imaginar que o Mourinho queria o cargo de técnico do Manchester United, porque, na minha opinião, é o cargo mais alto na Inglaterra. Antes de assinar pelo Manchester United, o Tottenham também esteve aqui na minha sala – o Sr. Levy esteve. Eu poderia assinar também pelo Tottenham e disse para minha esposa que o Tottenham tinha o elenco melhor que o do Manchester United. Mas escolhi o United pelo desafio e porque sempre treinei o clube número um de um país”, recorda o ex-técnico.

O torcedor do Manchester United com alguma memória certamente não sente falta do futebol jogado sob o comando de Van Gaal, mas ele se defende, afirmando que jogava o que muitos chamavam de “futebol entediante” porque “não tínhamos muitos jogadores criativos para aumentar a velocidade da bola e usar passes mais verticais. Mas era melhor do que estacionar o ônibus, eu acho”.

Ángel Di María

Em 2014, Di María havia sido um dos grandes nomes do Real Madrid na final em que derrotaram o Atlético de Madrid para conquistar sua primeira Champions League em 12 anos. Após a Copa do Mundo, o argentino foi contratado por Van Gaal e, depois de muita expectativa, decepcionou, lentamente perdendo espaço, saindo do clube como desafeto da torcida e criticando Van Gaal.

O holandês falou sobre o hoje jogador do PSG, afirmando que deu todas as chances de ele ir bem. “O Di María tinha um problema com a cultura de futebol e o clima da Inglaterra. Não dá para comprar jogadores e saber, com certeza, que eles irão corresponder. Não dá para saber porque o futebol é um esporte coletivo.”

Van Gaal com Di María (Foto: AP)

“Eu sempre pergunto ao jogador onde ele quer jogar. Para ele, era na ponta, aberto e, principalmente, pela esquerda. Na seleção argentina ele joga na esquerda. Comecei ele ali. Ele não estava tendo um desempenho muito bom, não no nível que você espera de um jogador de £ 80 milhões. Acredito, então, que tenho que ver se outra posição é melhor para ele. Eu o coloquei na ponta esquerda, como dez, como segundo atacante e pela direita. Então os críticos dizem que ele estava jogando em muitas posições. Eu dei a ele todas as chances que havia para ter um bom desempenho”, conclui.

Wayne Rooney

Rooney deixou o Manchester United em 2017, já depois de uma temporada com Mourinho, retornando ao Everton. O sentimento era de que o jogador já havia passado de seu auge, algo corroborado por Van Gaal, que ainda assim o elogiou. “Desculpa, mas ele já estava ‘na curva descendente’. Porém, apesar disso, ele era um dos meus melhores jogadores.”

Mesmo com a impressão que teve do atacante à época, Van Gaal lhe deu a faixa de capitão. “Você não pode dizer nada sobre seu profissionalismo como jogador nos treinos ou no campo. Fora do ambiente do campo de treinamento e do estádio é diferente. Eu o tornei capitão porque eu queria controlar essa vida fora (do campo).”

O problema em comum

Ed Woodward, diretor executivo do United (Getty Images)

É importante que Van Gaal traga essas revelações sobre os bastidores do United para entendermos melhor e confirmarmos os problemas que explicam a queda e estagnação do clube desde a aposentadoria de Ferguson. Ainda que parte da torcida e da imprensa local apontem o dedo para essas questões mais estruturais por parte de todo o caos, é mais comum ver a análise dos problemas dos Red Devils limitadas ao imediatismo das derrotas ou às questões táticas em campo.

Ex-jogadores como Ferdinand, Scholes, Giggs, e até certo grau mesmo Gary Neville, parecem desproporcionalmente tornar alvos jogadores e técnicos e aliviar a barra de um dirigente sem conhecimento prévio de futebol que tem tomado todas as grandes decisões desde 2013. O caminho do Manchester United de volta ao topo passa por entender seus obstáculos e colocar as pessoas certas para lidar com eles. Esse exercício de autocrítica esteve ausente nos últimos anos e parece longe de acontecer mesmo agora.