Atualizada às 15h35 de 18/01/2017: em entrevista à rádio Cadena Ser, Van Gaal afirmou que a continuidade da sua carreira dependerá das ofertas que receber, que não está aposentado e que decidirá ao fim do seu período sabático, em junho ou julho.

“Eu achei que talvez parasse. Depois, pensei que seria um ano sabático, mas agora eu acho que eu não vou voltar a treinar”. Foi com essa frase, em uma entrevista ao jornal holandês De Telegraaf, que um dos técnicos mais vitoriosos das últimas duas décadas anunciou, até segunda ordem, a sua aposentadoria. Depois, conversando com a rádio Cadena Ser, voltou atrás e tomará uma decisão final ao fim da temporada, dependendo das propostas que receber.

Controverso, nem sempre palatável, frequentemente agressivo, mas incontestavelmente talentoso e vitorioso, Louis van Gaal, 65 anos, pendurou a prancheta, depois de 25 anos como treinador de Ajax, Barcelona, AZ Alkmaar, Bayern de Munique, Manchester United e seleção holandesa, com um total de 17 títulos.

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Nada mal, certo? Até porque, alguns deles foram bastante especiais, como a Champions League de 1995/96, com o Ajax, ou o título holandês de 2008/09, com o AZ, que não vencia a liga desde 1981 – e até hoje tem apenas esses dois troféus da Eredivisie para se gabar. Foi bicampeão espanhol com o Barcelona e levou o Bayern de Munique à porta de uma Tríplice Coroa. Conquistou a dobradinha Bundesliga e Copa da Alemanha, em 2009/10, mas foi derrotado pela Internazionale de José Mourinho na decisão europeia.

Após um terceiro lugar pela seleção holandesa na Copa do Mundo de 2014, Van Gaal encarou seu último desafio em Old Trafford. Tinha a missão de reencaminhar o clube às glórias, depois de David Moyes, substituto de Alex Ferguson, ter realizado vários desvios drásticos. Não foi bem sucedido. Foram duas temporadas de futebol pobre, defensivo e com poucos gols. Devolveu o United à Champions League, com o quarto lugar na Premier League de 2014/15, mas foi eliminado dela precocemente e não conseguiu reconduzir a equipe à principal competição europeia, ficando apenas em quinto lugar no Campeonato Inglês da sua última temporada como técnico.

Conseguiu, pelo menos, despedir-se como seu recheado currículo merecia e levantou a Copa da Inglaterra. Seu grande mérito em Old Trafford não foi esse título, que o Manchester United não conquistava desde 2004. Foi promover a estreia de muitos jovens (14 no total), uma das marcas de sua carreira como treinador. Van Gaal é conhecido por não ter medo de dar chance a jovens e já revelou um punhado de craques. Segundo um levantamento da ESPN britânica, realizado em setembro de 2015, o holandês promoveu, em média, 2,75 estreias por temporada em sua carreira, que o deixava em segundo lugar entre alguns dos principais treinadores dos últimos anos, atrás apenas de Pep Guardiola (3).

“Você tem que jogar como um time e não como indivíduos”, afirmou Van Gaal ao site da Fifa, em 2013. “É por isso que eu sempre retomo a minha visão, ao time, e a quais jogadores encaixam-se no meu sistema, um 1-4-3-3, porque estou sempre jogando assim. Se um jogador jovem pode fazer isso, então eu o escolho. Se for um jogador mais velho, isso não me importa. Não é o fator mais importante. A idade não é importante”.

Van Gaal foi assistente no Ajax antes de se tornar o treinador principal e, certamente, muito da sua filosofia de promover jovens deriva da identidade do clube holandês, que teve pratas da casa em seus times mais vitoriosos, de Cruyff a Van Basten. Nos anos noventa, foi Van Gaal quem deu as primeiras chances a Davids, Seedorf e Kluivert. No Barcelona, simplesmente revelou Xavi e Iniesta, pilares da época mais vitoriosa do clube catalão. No Bayern de Munique, encontrou espaço para Thomas Müller e Alaba. No Manchester United, descobriu Rashford.

“Isso me deixa feliz e orgulhoso. Mas Xavi, Iniesta, (Thiago) Motta, Müller ou Alaba encaixavam-se no perfil da posição”, explicou. “Por exemplo, eu conversei com Alaba sobre jogar de lateral esquerdo. Ele não queria jogar lá. Ele foi educado como meia, mas eu tinha uma posição vaga para ele porque eu sofri com lesões e achei que ele poderia fazer bem esse trabalho. Depois de muita conversa, no fim, ele jogou lá porque queria ajudar o time. Onde ele joga agora? Na lateral esquerda”. E é um dos melhores laterais esquerdos do mundo.

O desenvolvimento que Van Gaal conseguia promover não depende sempre da idade. Foi ele, também, quem encontrou a melhor posição para Bastian Schweinsteiger, levando o craque alemão da extrema esquerda para a área central do meio-campo, onde ele se tornou um dos melhores jogadores do mundo. “Para mim, ele não se encaixava na posição de extrema esquerda”, disse. “Quando chego a um novo clube, converso com cada jogador sobre sua posição, sua personalidade, o time e como ele trabalha com seus companheiros. Eu disse a Bastian: ‘Eu acho que você tem que jogar no meio-campo’. Naquela época, jogávamos com dois meias de contenção e um número 10, que era Müller. Então, ele foi jogar como meia de conteção e descobriu que estava gostando ainda mais de jogar”.

Van Gaal deixou sua marca no futebol europeu e mundial, que pese os seus fracassos – além do Manchester United, não conseguiu classificar uma forte seleção holandesa à Copa do Mundo de 2002 – e o relacionamento pessoal ruim, que deixou rusgas em diversos clubes ao redor do continente. Foi campeão, muitas vezes campeão, e responsável por promover alguns grandes nomes. Selecionamos dez deles para prestar uma homenagem a este grande treinador.