Quando jogador, Edwin van der Sar foi icônico. Inicialmente, como parte do Ajax campeão da Champions League de 1994/95. Mais tarde, passando ainda por Juventus e Manchester United. Apesar da identificação com outras equipes, manteve a aura especial no clube de Amsterdã e hoje, como diretor-executivo da instituição, conhece como poucos o que os Ajacieden representam. Neste sentido, tem como objetivo manter a mística sobre o Ajax mesmo em tempos tão diferentes, de maior disparidade financeira para os gigantes do futebol europeu.

Atualmente, mesmo com uma história vencedora, o Ajax não pode competir com as potências do continente como Real Madrid, Bayern de Munique, Juventus e Manchester United – ainda que tenha há duas temporadas eliminado duas delas na fantástica campanha da Champions League de 2018/19. Neste cenário, os Ajacieden reforçam seus traços característicos, e é assim que Van der Sar deseja que o clube seja querido ao redor do globo.

“Quero que todo torcedor de todos os clubes do mundo tenha um segundo amor pelo Ajax, que gostem do nosso jogo ofensivo e de como desenvolvemos jovens jogadores. Talvez um dos nossos antigos jogadores esteja jogando pelo clube dele. A batalha que temos é de ser um nome grande, mas com um orçamento muito menor e lutando contra os gigantes”, explicou o dirigente em entrevista ao jornal inglês Guardian.

“Essa luta é fantástica de se ter. Algumas vezes, mesmo nós, neerlandeses, podemos ser românticos. Não temos um grande proprietário rico por trás, e isso nos torna quase únicos.”

Formar jogadores é, de fato, uma das principais facetas do Ajax. A própria jornada na Champions League em 2018/19 pôs isso em evidência. Uma equipe de jovens valores fez uma campanha surpreendente, deixando pelo caminho Real Madrid e Juventus em grande estilo e caindo nos minutos finais da semifinal com o Tottenham.

A maioria dos destaques daquele time, hoje, já alçou voos maiores: De Jong e De Ligt foram imediatamente para Barcelona e Juventus, respectivamente, Hakim Ziyech acertou com o Chelsea há alguns meses, e Donny van de Beek, o mais recente deles a sair, acaba de fechar com o Manchester United. Em comum, todos eles tiveram uma despedida amistosa do clube, até mesmo com cenas de carinho recíproco entre jogador e torcida.

O Ajax e todas as pessoas que o cercam entendem e aceitam que o clube é hoje uma espécie de estágio ou preparação para alguns dos principais jogadores do mundo, e Van der Sar fala disso com orgulho: “Digamos que nós somos a Universidade de Stanford, somos Oxford, Harvard, e depois disso você vai para a Merrill Lynch, para as grandes empresas, onde pode ganhar mais dinheiro e onde há mais competição”.

O dirigente explica que isso não é exatamente um plano de negócio, mas, sim, “um programa de futebol”. É tudo parte de uma cultura de formação que leva em conta os valores iniciados com Johan Cruyff, uma ideia de jogo atrativo e altamente desenvolvido taticamente. Para além disso, é o desenvolvimento também de uma expertise de formação, que o clube tem até exportado para outros cantos do mundo, com foco importante na educação dos atletas. No fim, quando o ciclo está completo e os jogadores mudam de clube, novas relações com novos públicos vão se criando, reforçando justamente a visão desejada por Van der Sar de carinho com os Ajacieden.

“Queremos sucesso com os jogadores que educamos. E se em dois ou três anos vencemos troféus com eles e eles alcancem um nível mais alto, o interesse de outros clubes aparece. E esses clubes devem ser maiores (que o Ajax). Depois de dois ou três anos, é hora de seguir em frente. Isso também cria espaço para os próximos. Os outros jogadores precisam ver o mesmo caminho”, destaca, em outro ponto interessante, que fala sobre como o próprio Ajax fica mais atrativo a jovens promessas de todo o mundo, que têm um lastro sobre o qual se basear para tomar a decisão de ir jogar na Johan Cruyff Arena.

Entre os anos 1990 e o fim dos anos 2010, o Ajax esteve bastante fora de “moda”, se é que podemos dizer assim. A marca precisou se reinventar, e Van der Sar vê sucesso no projeto dos últimos anos, que teve a Champions League de 2018/19 como ponto culminante.

“Nos anos 1970, tínhamos o Cruyff, nos anos 1980, Rijkaard e Van Basten, e no meio dos anos 1990, éramos eu, Rijkaard pela segunda vez, os gêmeos De Boer, Davids, Seedorf, Kluivert e Overmars. Depois desse período, foi um pouco quieto. Então, para nós, o objetivo foi ter uma nova audiência mais jovem que saiba quem é o Ajax.”