Edwin van der Sar pendurou as luvas em 2011. No ano seguinte, aproveitava a aposentadoria abastada, fruto de uma carreira vitoriosíssima como jogador, quando o seu telefone tocou. Era Johan Cruyff. A lenda queria saber quais os planos do ex-goleiro ao futuro. Imaginava que ele, por tudo o que havia vivido e vencido nos gramados, seria o homem ideal para conduzir o Ajax. Mas Cruyff não se interessava apenas pelos aspectos esportivos, não imaginava Van der Sar como alguém limitado ao departamento de futebol. Perguntou se o veterano tinha intenção de, em sua nova vida, realizar uma formação específica em gestão esportiva. Via o campeão europeu de 1995 como um elo entre o conhecimento acadêmico e a experiência no futebol.

Quase uma década depois, não é preciso pensar muito para descobrir a resposta de Van der Sar: ele disse sim. Não dava para negar um convite de Cruyff. Muito menos depois que Dennis Bergkamp também ligou para convencê-lo. O ex-goleiro completou a sua especialização, assumiu o departamento de marketing do Ajax e, em 2016, virou diretor geral do clube. Nesta temporada, veio a certeza de que Cruyff tinha a razão. Van der Sar é um dos mentores do sucesso dos Godenzonen na Liga dos Campeões. Vislumbra a reconquista continental que não acontece desde 1995, tempos em que usava luvas.

“Cruyff me disse que normalmente é um advogado ou um empresário que se torna chefe-executivo. Mas ele falou também que eu tinha vindo da universidade do futebol, da universidade da vida, do que um jogador precisa aprender: contratempos, sucessos, pressão, títulos, derrotas em finais, cometer erros no último minuto, fazer uma defesa nos acréscimos. Eu cursei um mestrado em gestão esportiva depois que me aposentei, mas ainda era um salto de fé que eu precisava realizar. Que o Ajax precisava realizar”, contou Van der Sar, em ótima entrevista ao Guardian, concedida antes do primeiro jogo contra o Tottenham.

Não é de hoje que o Ajax se cerca de seus antigos jogadores para conduzir a filosofia estabelecida desde os tempos de Rinus Michels. O próprio Cruyff, revolucionário em seus tempos como jogador, auxiliou os Godenzonen a se reinventarem a partir da década de 1980. Novamente é isso que Van der Sar faz, apoiado por Marc Overmars, outro velho ídolo que virou dirigente. Ambos traçam os novos caminhos do clube, mas sem se desgarrarem das tradições e da mentalidade que dá certo desde os anos 1970. As semifinais da Champions refletem isso.

“Se você tem amor pelo esporte, conhece o sucesso do Real Madrid nos anos 1950, do Ajax nos anos 1970, do Bayern de Munique na mesma época e assim por diante. Nos últimos 20 anos, muitas coisas mudaram no mundo do futebol, principalmente nas questões ligadas à televisão e ao lado comercial. Muitos clubes perderam as perspectivas do que é ser uma agremiação esportiva. Para nós do Ajax, tudo ainda é sobre futebol. Nós temos os direitos da TV e um patrocinador na camisa, mas [em termos comerciais] somos um país com oito ou nove milhões de pessoas. Podermos nos comparar com times das cinco grandes ligas dentro de campo é uma pequena mudança”, afirmou o goleiro.

Um dos acertos do Ajax, nesta temporada, é balancear experiência e juventude. As categorias de base continuam como o grande sustento do elenco principal. Mesmo assim, Van der Sar e Overmars precisaram romper um pouco com tal visão, antes tratada de maneira ortodoxa. Os Godenzonen buscaram Dusan Tadic e Daley Blind para agregar rodagem ao grupo cheio de garotos. Os dois viraram lideranças na campanha histórica.

“Estávamos um pouco relutantes em investir nos jogadores mais velhos e pensávamos que dava para resolver as coisas com nossa base. Mas, voltando à nossa experiência, em 1995 tínhamos um time muito jovem e talentoso, mas também com Frank Rijkaard e Danny Blind. Eles jogaram Copas do Mundo e ganharam Champions. Nós refletimos um pouco sobre o que aconteceu em 1995, queríamos combinar a abundância de talento com experiência”, analisou.

E enquanto vive o seu sonho na Liga dos Campeões, o Ajax não deixa de pensar em seu futuro. A questão paralela é: por quanto tempo esse time irá durar? Van der Sar não tem uma resposta definitiva, mas sabe o que fará: “Minha ideia não é vender sete jogadores dessa equipe. Precisamos nos manter competitivos e alcançar esses níveis de novo no próximo ano. Mas esta temporada não terminou. Temos um mês emocionante pela frente, com a possibilidade de conquistar três ótimos títulos”.

Marcar a história no Ajax é algo que foi incutido logo cedo na mente dos garotos que agora deslancham. No início da última temporada, Van der Sar e Overmars chamaram sete prodígios a uma conversa: Frenkie de Jong, Matthijs de Ligt, David Neres, Donny van de Beek, André Onana, Kasper Dolberg e o negociado Justin Kluivert. Exibiram um vídeo produzido especialmente a eles, comparando-os com antigos ídolos da agremiação. Mensagem captada pela maioria absoluta, que agora escreve sua própria história.

“Dissemos: ‘Se vocês quiserem ser lendas do Ajax, precisam ganhar algo grande’. Na minha visão, o vídeo foi realmente inspirador. Eles tinham fé no clube. Precisávamos conversar com os jogadores mais jovens: ‘Esperem por nós, acreditem em nós. Estamos no caminho para ter certeza que aqui existe um time competitivo’. Isso fez um milagre”, reconta Van der Sar. Afinal, ele mesmo sabe que naturalmente os garotos ambicionarão novos destinos. Sua carreira é exemplo disso, rumando à Juventus na virada do século.

“Marc e eu fomos jogadores. Voamos do ninho em certo momento, para encontrar outro desafio, e sabemos que isso irá acontecer. Não é um problema, desde que eles deem dois, três, quatro anos de bons serviços ao clube, ganhem a liga, joguem um futebol fantástico. Então você pode ir. Também precisamos de espaços no elenco principal, para que os jogadores jovens da base possam surgir. Se você não cria isso, então o talento em ascensão é sufocado”, finalizou. E, assim, o Ajax espera fazer a sua roda do sucesso girar. Os preceitos continuam os mesmos no clube, mas com novas diretrizes. Que, diante do que faz a equipe de Erik ten Hag, inegavelmente dão certo.