Fabio Capello nunca foi um técnico dado a elogiar abertamente jogadores. Nem a demonstrar sentimentos com ênfase. Mas houve um dia em que o italiano chorou no banco de reservas: 18 de agosto de 1995, antes do Milan, clube que ele treinava, enfrentar a Juventus na disputa do Troféu Berlusconi, torneio amistoso. A razão do choro? Dentro do campo, despedia-se da torcida um jogador que anunciara o fim da carreira na véspera. Nesta sexta, 31 de outubro de 2014, ele faz 50 anos: Marco (algumas fontes citam “Marcel”) van Basten.

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Até hoje, Capello lamenta amargamente que o atacante holandês tenha parado de jogar tão cedo. Na edição desta semana que a revista “Voetbal International” fez, celebrando o cinquentenário de Marco, o treinador italiano relembrou: “Quando vejo de novo as imagens da despedida dele em San Siro, ainda me sinto comovido. Eu sentia uma injustiça enorme no fato de que ele teria de parar”. Não é o único: muita gente lamenta que um dos atacantes mais técnicos que o futebol viu, um destaque supremo entre as décadas de 1980 e 1990, tenha perdido para seus tornozelos.

E também não impressiona que Van Basten tenha passado um bom tempo, cerca de seis anos, totalmente afastado do futebol, após sua lesão. Porque seu temperamento sempre foi, e continua sendo, bastante retraído. Não necessariamente afetuoso, já que ele teve alguns problemas ao longo desses 32 anos em que está no futebol. Mas é inegável: o ex-atacante sempre teve uma personalidade distante. Raras são as vezes em que aceita dar uma entrevista exclusiva. Mais raras ainda são as vezes em que aceita falar sobre o que fez enquanto jogador. Só nesta semana abriu uma exceção, falando ao repórter Yoeri van den Busken, para a edição supracitada da “Voetbal International”.

Dois fatos que ocorreram na vida de Van Basten podem ajudar a explicar seu ar altivo. O primeiro, ainda quando criança: na cidade de Maarssen, ele patinava sobre um rio congelado, com um amigo, Jopie, que caiu num buraco aberto. Van Basten fez o que podia para trazer ajuda, mas o amigo morreu afogado e congelado na sua frente. O outro fato ocorreu em 16 de outubro de 1985: sua mãe, Leny van Basten, sofreu um AVC enquanto o filho jogava pela seleção holandesa, na repescagem das eliminatórias para a Copa de 1986.

Duas semanas depois de ser internada, Leny sofreu um infarto. Passou a necessitar de ajuda, e perdeu parte da memória. Não mais acompanharia a carreira do filho, e ainda fez com que o marido, Joop van Basten, então incentivador presente da carreira de Marco, tivesse de ajudá-la até sua morte. O filho teve de deixar a casa dos pais, indo viver com Liesbeth van Capelleveen, então namorada – e há 21 anos, esposa e mãe de seus três filhos. E passou a proibir, desde então, toda e qualquer menção à vida privada em entrevistas.

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Como o futebol é o que importa nas entrevistas, é bom falarmos da carreira. Inspirado no pai – ex-zagueiro -, Van Basten começou a jogar no EDO, clube amador de Utrecht, aos 6 anos. Depois, foi para mais um clube municipal, o UVV. Aqui, vale um parêntese: aos 15 anos, Van Basten foi examinado pelo ortopedista Rein Strikwerda, que trabalhava no Utrecht. E o médico foi sucinto ao dizer que seus dois tornozelos não estavam bem, e que ele deveria parar de jogar. Caso contrário, corria até risco de precisar de uma cadeira de rodas, em alguns anos. Marco e o pai decidiram que ele continuaria.

Logo depois, foi para o Elinkwijk, outro clube amador da cidade natal, até que Aad de Mos, então técnico do Ajax, visse qualidades no garoto e o levasse para Amsterdã. Aos 17 anos, Van Basten iniciava sua carreira profissional. Sua primeira partida foi contra o NEC, em 3 de abril de 1982, pelo Campeonato Holandês da temporada 1981/82. E ele já fez gol, na goleada por 5 a 0. Logo em sua estreia pelos profissionais do Ajax. Como fizera Johan Cruyff, que tomou o jovem como pupilo, por muito tempo.

Dali em diante, o desenvolvimento foi fulgurante. Para o bem: em 1983, a estreia na seleção holandesa (e no mesmo ano, a presença no Mundial sub-20). E em 1985, a eleição como melhor jogador do ano na Holanda. E a Chuteira de Ouro europeia, na temporada 1985/86. Fora gols inesquecíveis, como estes dez que o site do Ajax enfileirou no ano passado. Mas o desenvolvimento ocorreu do lado ruim, também: em 7 de dezembro de 1986, após tentar cometer falta em Edwin Oude Riekerink, do Groningen, num jogo do Campeonato Holandês, o próprio Van Basten lesionou seu tornozelo direito. Começava ali a série de cirurgias.

Johan Cruyff não quis saber: àquela altura já treinando o Ajax, esperou só algumas semanas e mandou Van Basten voltar na base do “vai jogar com dor, e se reclamar vai jogar mais ainda”. Mesmo assim, bastou para ele ser o personagem fundamental na conquista da Recopa Europeia da temporada 1986/87, inclusive marcando o único gol da final. E mesmo com dor, mostrou o suficiente para ser trazido a peso de ouro pelo Milan, escolhido a dedo por Silvio Berlusconi, Adriano Galliani e Arrigo Sacchi.

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Na temporada 1987/88, o holandês mal jogou pelo Campeonato Italiano. Somente 11 jogos, com três gols. Pior: em dezembro de 1987, teve de voltar à mesa de cirurgia, para novamente operar o tornozelo direito. Ali o cirurgião René Marti, “fiel escudeiro”, descobriu o problema: a cartilagem no local estava completamente comprometida. Van Basten voltou aos campos já na parte final da temporada, e ainda teve tempo de marcar um gol na vitória milanista por 3 a 2 sobre o Napoli de Maradona e Careca, triunfo fundamental para a conquista rossonera da Serie A. Mas ficara a dúvida: convocado para a Euro 1988, ele conseguiria estar em forma ali?

A resposta veio em forma de cinco gols, a artilharia do torneio europeu de seleções e o posto de principal destaque não só da Holanda campeã, mas daquela competição. Tudo coroado com a obra-prima totalmente casual que Van Basten fez, na final da Euro, contra a União Soviética. Aquele que começara o torneio na reserva da Oranje saía dele completamente consagrado. Ali começava a melhor fase de sua carreira. Já no fim de 1988, foi eleito o melhor jogador da Europa pela revista “France Football”.

Em 1989, Van Basten viveu o seu apogeu. Seu estilo de técnica refinada, de atacante que sabia não só fazer gols mas também armar jogadas, trouxe vários apelidos: San Marco, “Gazela”, “Cisne holandês”. E vários títulos: fundamental nas conquistas da Copa dos Campeões e do Mundial Interclubes, foi novamente eleito o melhor jogador europeu pela “France Football”.

Só que em 1990, com mais uma Copa dos Campeões no currículo e o posto de goleador do Campeonato Italiano, chegando à Copa do Mundo como o principal atacante do planeta e grande esperança da Holanda, Van Basten decepcionou. Naufragou em meio a um elenco cheio de problemas de relacionamentos, mostrou-se cansado e apagado. Não fez gol, não trazia perigo às defesas, nada. Nem o bicampeonato mundial do Milan apagou o fato de que ele fora a grande surpresa negativa daquela Copa, entre os jogadores.

Em 1992, isso não aconteceu. Mesmo negando fogo em mais um torneio pela Holanda (perdeu um pênalti decisivo na semifinal da Eurocopa, contra a Dinamarca), Van Basten trouxe desempenhos assombrosos pelo Milan – já então, de Fabio Capello, credenciado pela campanha invicta no título italiano de 1991/92. Mesmo num clube cheio de atacantes de bom nível (Eranio, Lentini, Papin, Massaro), ele era a estrela principal. Com atuações primorosas – destaque para o 4 a 0 contra o IFK Göteborg sueco, pela fase de grupos da Copa dos Campeões 1992/93, quatro gols dele -, conseguiu o feito de unificar os títulos de melhor jogador europeu, pela “France Football”, e de melhor jogador do mundo, pela Fifa.

Justamente na semana em que recebeu o troféu da Fifa, porém, o holandês teve o golpe mais duro entre os tantos da carreira. Sofrera entrada em seu tornozelo direito, quando o Milan enfrentava o Ancona, em 13 de dezembro de 1992, pelo Italiano. E foi operado, em 21 de dezembro de 1992. René Marti retirou pedaços da cartilagem e de ossos do tornozelo. E a partir dali, deu um prognóstico pessimista. Que se confirmou: em 1993, Van Basten esteve em apenas três jogos, incluindo atuação apagada na final da Liga dos Campeões.

Aquela decisão foi sua última partida profissional: logo depois, outra cirurgia, desta vez com o médico belga Marc Martens. O jogador esperava recuperar-se a ponto de ser convocado para a Copa de 1994. Não só não deu certo, como ele ainda passou por mais uma intervenção no tornozelo. Até que em agosto de 1995, após mais de dois anos esperando voltar, o segundo melhor jogador da história do futebol holandês desistiu: “Eu não melhorei. Só de ficar em pé o tornozelo já dói, só com uma partidinha de tênis ele já dói. E não sei se os doutores sempre me ajudaram, já que de 1992 para frente a situação só piorou”.

Na verdade, as dores só pararam com uma cirurgia em 1996, quando Van Basten fixou os ossos do tornozelo com parafusos. Passou a mancar levemente da perna direita, mas os problemas estavam terminados. Só ficava o trauma de ter parado tão cedo. O ex-jogador ficou bem distante do futebol: somente jogava golfe, esporte que até hoje pratica. Até 2001, quando viu Johnny van’t Schip, colega dos tempos de início de carreira no Ajax, comandar equipes de base no clube. Van Basten pensou que talvez fosse bom recomeçar daquela maneira. E foi ali que ele começou a ser técnico: na base do Ajax.

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E ficou tranquilo na volta ao futebol até 2004, quando foi escolhido para treinar a seleção holandesa e voltou aos holofotes. Nos quatro anos em que ficou lá, teve problemas de relacionamento – com Van Bommel, Van Nistelrooy, Seedorf, Davids… – e nunca chegou a empolgar. Quando a equipe rendeu bem, na Euro 2008, ele já estava de saída marcada, para o Ajax, que pretendia reformular-se internamente.

Mas o que podia ser uma parceria frutífera com Johan Cruyff, seu mestre, terminou logo no começo: Cruyff saiu ao ter o projeto de mudar as categorias de base censurado por Van Basten. E a relação entre os dois nunca mais foi a mesma. Pior: o Ajax foi humilhado várias vezes na temporada 2008/09, e Van Basten se demitiu. Perfeccionista, achava que jamais conseguiria melhorar a equipe onde tudo começou.

O trabalho razoável no Heerenveen, entre 2012 e este ano, ajudou a aumentar a crença de que ele seria um técnico tão bom quanto o jogador que fora, algum dia. Ir para o AZ, clube um pouco mais ambicioso, poderia ser a grande oportunidade de reconquistar algum crédito. Mas em julho passado, o pai Joep morreu. O trauma de perder o principal responsável por sua carreira no futebol somou-se ao perfeccionismo excessivo que Marco sempre teve. Algumas arritmias cardíacas fizeram-no pedir licença dos Alkmaarders, iniciada a temporada. Pouco depois, ele decidiu: encerraria a carreira de técnico, para virar auxiliar.

Sair do olho do furacão talvez vá fazer bem a Van Basten enquanto sua vida durar. Afinal de contas, como ele disse há uma semana, “a vida é uma só para todos, e temos de torná-la melhor, pelo menos”. Mas todos os que o viram jogar lamentam ter durado tão pouco. Mas, como compôs e cantou o outro, talvez foi por ter durado pouco que sua carreira como jogador foi inesquecível.