A saída de Ernesto Valverde do Barcelona era iminente. O descontentamento com o trabalho acompanhou o treinador durante a maior parte de sua passagem pelo Camp Nou. Todavia, a eliminação nas semifinais da Supercopa da Espanha aumentou drasticamente os rumores sobre a demissão e iniciou uma enxurrada de notícias sobre quem seria o possível sucessor. Nesta segunda-feira, enfim, os blaugranas oficializaram seus novos rumos. Valverde realmente perdeu o emprego, demitido após dois anos e meio no cargo. Enquanto isso, o substituto será Quique Setién, com contrato de dois anos e meio – com cláusulas de desempenho que podem abreviar o período.

Em seu comunicado oficial, o Barcelona expressou seu agradecimento a Valverde “pelo profissionalismo, compromisso, dedicação e trato sempre positivo e próximo que demonstrava”. Após negociar com substitutos ao longo dos últimos dias sem fazer questão de esconder, a direção marcou uma reunião com o treinador neste início de semana, apenas para formalizar sua saída. O acerto com o sucessor já estava fechado e logo foi anunciado.

A troca na casamata do Barcelona indica uma mudança drástica de pensamento. Afinal, Valverde e Setién estão longe de seguir a mesma filosofia de jogo. O antecessor, apesar do bicampeonato espanhol, lidou constantemente com as críticas sobre a falta de um padrão mais propositivo e a dependência extrema de algumas estrelas. Enquanto isso, o novo treinador ganhou fama pelo futebol vistoso que apresentou à frente de equipes modestas, nas quais primava pela agressividade sem a bola e pelo cuidado com a posse. Setién se aproxima mais daquilo que é visto com o ideal aos blaugranas. Entretanto, não possui um currículo que o respalde.

Encontrar um novo treinador ao Barcelona, de qualquer maneira, era um problema claro neste momento. As alternativas disponíveis no mercado eram escassas e alguns devaneios pintaram. Dos técnicos mais tarimbados, Massimiliano Allegri não é um entusiasta do futebol ofensivo e Mauricio Pochettino, ídolo do Espanyol, já declarou várias vezes que nunca dirigiria os maiores rivais. Marcelo Gallardo renovou com o River Plate. Xavi surgiu com força nas manchetes – mas uma força que não possui como técnico, especialmente pelas muitas dificuldades que apresentou à frente do Al-Sadd no Mundial de Clubes. Já Ronald Koeman, nome histórico do clube e renascido à frente da seleção holandesa, não quis abandonar o projeto rumo à Euro 2020. Sobrou Quique Setién.

Setién estava sem trabalho desde junho de 2019. Terminou a temporada com o Betis, mas não convenceu o suficiente para se manter à frente do clube pelo terceiro ano consecutivo. A equipe caiu de nível e acumulou resultados ruins no segundo turno do Campeonato Espanhol. O futebol proposto pelo comandante não era o suficiente para agradar a torcida, em meio às brigas com Lorenzo Serra, personagem querido no Benito Villamarín. Já neste novo momento, o técnico vem para renovar os ares do Barcelona. Tem uma missão urgente para resolver, embora o tempo de seu contrato indique uma aposta da atual diretoria. Precisa fazer o elenco e a torcida comprarem sua ideia, com pouquíssima margem de manobra.

A direção do Barça, além do mais, com pouco moral nos últimos tempos, corre risco de ser ainda mais alvejada pela maneira como conduziu o episódio. Os cartolas já desagradavam boa parte da torcida ao sustentar Valverde, assegurado mais por causa dos títulos no Campeonato Espanhol do que propriamente por desempenho. A demissão, quando finalmente aconteceu, tornou-se um espetáculo midiático e até colocou o treinador em posição de vítima, pela forma como os trâmites para tirá-lo vieram a público e pela mudança de humor repentina da diretoria. Por fim, Setién se torna uma bala de prata.

O veterano de 61 anos é o que estava ao alcance do Barça, por mais que não possua o tal de “DNA do clube” – um escudo que muitas vezes protege as escolhas na Catalunha. A direção confia em seu proclamado “cruyffismo”, a quem já afirmou que “daria um dedo mindinho para ter jogado no Dream Team” e que “tudo o que sabe como treinador deve aos tempos em que corria atrás da bola contra o Barça”. Admirador confesso de Cruyff, Setién garante que passou a ver o futebol com outros olhos desde que pôde acompanhar o trabalho do falecido treinador holandês mais de perto. Agora, terá que botar em prática tudo o que absorveu como aprendiz.

O que não deu certo com Valverde

Não é preciso ser torcedor do Barcelona ou acompanhar o clube tão de perto para saber os inúmeros problemas enfrentados ao longo dos últimos dois anos e meio no Camp Nou. Ernesto Valverde representou uma quebra na Catalunha, após substituir Luis Enrique. Se o antigo treinador não era exatamente um adepto do tiki-taka, formando um time com vocação ofensiva a partir de uma postura mais voraz, o antigo comandante do Athletic Bilbao ampliou essa cisão. O Barça se baseou bem menos no toque de bola desde 2017, com o técnico até confiando em jogadores que fugiam do perfil do clube – em especial no meio-campo, com os “tanques” Paulinho e Arturo Vidal.

Os dois títulos no Campeonato Espanhol aconteceram, assim como a vitória na Copa do Rei durante a primeira temporada. Não queria dizer, porém, que tudo estava bem no Camp Nou. O Barcelona, sim, teve suas boas sequências em La Liga. Isso quase sempre dependeu do binômio formado por Marc-André ter Stegen e Lionel Messi. Enquanto um segurava as pontas atrás e acumulava milagres sob as traves, o camisa 10 carregava o time nas costas durante inúmeras vezes. Até manteve a competitividade nos pontos corridos, contra adversários mais fracos e sem a regularidade dos principais concorrentes – Real Madrid e Atlético em transição. O problema seria a infelicidade nos mata-matas.

Diante do tricampeonato merengue na Champions, a pressão sobre o Barcelona se tornou maior. A principal frustração foi causada pelas vantagens excelentes que os blaugranas deixaram escapar diante de Roma e Liverpool. De classificações que pareciam praticamente asseguradas, os catalães permitiram viradas históricas. E isso explica muito da incapacidade coletiva de Valverde. Entre a defesa fragilizada, o meio-campo pouco produtivo e o ataque dependente de seu gênio, os culés sucumbiram. Quando Messi estava bem marcado, ficou bem mais fácil derrubar os catalães do precipício. O mesmo sentimento de impotência vale à final da Copa do Rei, contra o Valencia, em 2019.

É fato que o Barcelona sentiu falta de jogadores-chave que saíram, como Neymar e Andrés Iniesta. Também alguns protagonistas caíram de produção, a exemplo de Luis Suárez. Mas a verdade é que o time não apresentou soluções aos seus diferentes entraves e as limitações ficaram cada vez mais claras. Some-se a isso as peças que não correspondem ao valor que foi investido em suas contratações (Antoine Griezmann, sobretudo) e o resultado é um clube estagnado. A vantagem de ter um Messi arrebatador ainda existe, como bem se viu no Espanhol ou em vários momentos da Champions, apesar das eliminações. Ainda assim, nada suficiente para satisfazer as ambições de uma camisa que se pretende como a mais poderosa do mundo.

A queda para o Atlético de Madrid, na semifinal da Supercopa, esteve distante de ser a pior apresentação do Barcelona com Ernesto Valverde. Pelo contrário, os blaugranas jogaram melhor e mereciam a classificação. Pararam em mais uma atuação inspiradíssima de Jan Oblak e em acertos do VAR, que negou corretamente dois gols aos catalães. Problema maior foi o acúmulo de atritos, que transformaram a eliminação em uma mera desculpa para a troca no comando. Diante da cobrança sobre a diretoria pela demissão que postergaram, optaram pela mudança bem no meio da temporada.

Valverde sai do Barcelona com títulos, mas longe de viver anos memoráveis ou merecer o carinho da torcida. Precisa ser muito mais grato a Messi e Stegen do que qualquer outra coisa, pois são eles que realmente protagonizaram o período. Apesar de seu passado no clube, o que justificou a aposta inicial, ficou claro que o técnico não tinha a estatura para assumir o Barça ou mesmo a identidade que se pedia. Sai em baixa e é difícil imaginar que ele receba oportunidades em outros times europeus de primeira grandeza – algo que, nos últimos anos, apenas Pep Guardiola e Luis Enrique estiveram a salvo entre os mentores do Barça.

O que esperar de Setién

São raríssimos os exemplos de treinadores espanhóis que chegaram ao comando do Barcelona sem terem nascido na Catalunha ou sem terem jogado pelo clube. Há apenas três exceções, e Setién é a mais recente delas, o primeiro desde 1976. Não possui qualquer blindagem por seu histórico local e também não conhece o ambiente de antemão. A seu favor, conta muito mais o seu retrospecto recente no Campeonato Espanhol e o fato de professar a religião de Johan Cruyff. Quando conduziu times com bem menos expectativas, extraiu resultados notáveis.

O primeiro trabalho de projeção dirigido por Quique Setién aconteceu no pequenino Lugo. Ele conquistou o acesso à segunda divisão e fez campanhas de meio de tabela, ajudando a estabelecer o clube com um jogo ofensivo. Virou aposta do Las Palmas e marcou época nas Ilhas Canárias, não apenas por manter o time na primeira divisão e almejar as copas europeias, como também por peitar os grandes tantas vezes. O futebol agressivo deixava sua marca em La Liga. E o ápice aconteceria no primeiro ano à frente do Betis. Muitas vezes os verdiblancos jogaram por música, embora em outras ocasiões se arriscassem à morte súbita.

O “Betis de Setién” se transformou em uma entidade viva e deu certo na primeira temporada, após pegar embalo no segundo turno. Descolou uma vaga na Liga Europa e conquistou vitórias históricas contra Sevilla e Real Madrid. No entanto, quando o time ganhou reforços e a continuidade parecia pronta a solidificar o projeto, o salto não aconteceu da maneira esperada. Uma das últimas boas impressões se deu em novembro de 2018, dentro do Camp Nou. A vitória por 4 a 3 sobre o Barcelona fez muitos culés se renderem a Setién, com direito a um presente de Sergio Busquets. O volante blaugrana entregou uma camisa autografada ao adversário, declarando sua “admiração pela maneira de ver o futebol”. Só que os resultados não se sustentaram quando o físico se comprometeu e a queda de produção se tornou vertiginosa.

Diferentemente de Valverde, Setién possui bem mais carisma e manejo na comunicação. Suas entrevistas costumam ser ótimas. Mas também é teimoso em certos momentos e, apesar da boa relação com jogadores, não se furta a bater de frente com dirigentes. Pesa seu idealismo, como evidente em entrevista recente: “Todos queremos ganhar, mas a vitória deve ser consequência de fazer as coisas bem, sobretudo porque eu sempre pensei que uma vitória não vale por si, creio que você trabalha para dar continuidade às coisas. Não é preciso valorizar tanto a vitória, porque só um a consegue. Todos os outros perdem. Temos que valorizar o esforço, como manejar os recursos que cada um tem. Estamos transmitindo à nossa juventude que, se não ganha, não é válido. Vamos criar uma quantidade de fracassados tremenda”.

Fazer as filosofias funcionarem de uma hora para outra não é das tarefas mais fáceis, especialmente ao pegar o bonde andando. Em contrapartida, Setién nunca teve um elenco tão qualificado para isso em suas mãos. Há lacunas a serem preenchidas e problemas a se resolverem, como a própria ausência de Luis Suárez pelos próximos meses. Seu primeiro objetivo será encontrar um funcionamento coletivo, após um período com outra mentalidade em prática. Considerando a falta de solidez vivida sob as ordens de Valverde, não será necessária muita persuasão para convencer os atletas sobre um caminho mais eficaz, com a valorização da bola e a voracidade sem ela.

Mas, assim como aconteceu com Valverde, há dúvidas sobre a capacidade de Setién para gerir um clube com o tamanho e as pressões do Barcelona, bem como um elenco de tantos medalhões. Há um vigor que se injeta com o “fato novo” e o técnico precisará capitalizar isso em campo. Botar os blaugranas para atuar em sua máxima rotação é um começo, ainda que as condições físicas de muitos veteranos também mantenham interrogações quanto ao nível geral. Os mais jovens, no fim das contas, também serão tão importantes quanto neste período de adaptação. Setién precisará encaixá-los, enquanto lida com o aval dos velhos senadores.

Mesmo uma temporada campeã no Barcelona pode ser considerada decepcionante, e Valverde é a maior prova disso. Setién ainda vê o Campeonato Espanhol ao seu alcance. Conquistar ou não La Liga, de qualquer maneira, não deve ser o fiel da balança. O maior risco será lidar com a Champions sem que uma possível eliminação seja concebida como hecatombe. Só então, o novo treinador encontrará um pouco mais de calma para pensar em médio prazo e desenvolver um trabalho mais arraigado. É o que seu contrato oferece, ao menos no papel.

Os dois anos e meio de vínculo, contudo, não significam que Setién será um treinador duradouro no Camp Nou. Pelo contrário, até pela sua idade, não dá para imaginar uma estadia tão longa mesmo com sucesso. Sua escolha aparentemente aponta a um recomeço mais amplo, para que o próximo passo seja realmente com um comandante ligado à identidade do Barcelona – e Xavi será a opção natural. Resta saber se a crença em Cruyff, propriamente dita, permitirá a Setién escapar da fogueira que queimou técnicos com tanta facilidade na Catalunha. Se as porcentagens frias não bastaram a Valverde, só jogar pra frente também não deve bastar a partir de agora.