La Liga anunciou a controversa medida de oferecer testes de coronavírus para os jogadores do time principal dos 42 clubes sob sua jurisdição, mesmo que nem todos tenham suspeitas de contaminação. O Valladolid anunciou, nesta quarta-feira, que recusou os kit por um motivo ao mesmo tempo simples, nobre e óbvio: há outras pessoas precisando mais do que eles.

O El País publicou que as autoridades sanitárias da Espanha estão preocupadas que não haja testes suficientes para diagnosticar todos os casos da COVID-19, o que é chave para combater a pandemia. “Não podemos parar esta pandemia se não soubermos quem está infectado”, disse o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde. “Temos uma simples mensagem a todos os países: testem, testem, testem. Testem cada caso suspeito. Se eles testarem positivo, isole-os e e descubram com quem tiveram contato nos dois dias anteriores ao desenvolvimento de sintomas e testem essas pessoas também”.

A OMS recomenda testes mesmo em pessoas sem sintomas, mas, segundo o El País, “essa medida não está incluída nas orientações da Espanha”. Nos grandes hospitais de Madri, são realizados de 200 a 400 testes por dia. “Gostaríamos de testar todos, mas, com a capacidade de diagnóstico e o número de kits que temos, isso não é possível, não é viável”, afirmou o chefe de microbiologia do hospital Ramón y Cajal, no norte da capital espanhola.

“La Liga colocou à nossa disposição, mas não os fizemos por critério médico e social”, afirmou o porta-voz do Valladolid, David Espinar. “Nenhum jogador apresentou sintomas e acreditamos que há pessoas muito menos beneficiadas e com mais necessidades. São eles que precisam ter prioridade”.

O presidente da Federação Espanhola, Luis Rubiales, criticou com severidade a iniciativa de La Liga, presidida por Javier Tebas, seu notório desafeto.

“Acho que é irresponsável quando há pacientes com muito mais em jogo do que uma competição, com a própria vida. Não é apropriado usar esses testes quando há pessoas que precisam testes. Estamos confinados em casa. Não faz diferença se você foi infectado ou não, o resultado é o mesmo (ficar isolado). E se alguém tem sintomas severos, essa é a pessoa que precisa do teste. Não um jogador de futebol. Ele ficará isolado (de qualquer maneira)”, disse.

“As autoridades disseram isso: se alguém tiver testes, máscaras, luvas, entregue-os. Os hospitais estão ficando sem. Há alguém enviando testes (aos clubes): isso é uma falta de solidariedade, pode até ser ilegal. Ele deveria ficar envergonhado. Não queremos isso, e é anti-patriótico. Quando tudo isso acabar, quando menos pessoas precisarem, então talvez consideremos testar os jogadores dos nossos clubes (da terceira divisão para baixo, sob jurisdição da federação), mas, por enquanto, os testes têm que ir para quem precisa deles. Todos temos que contribuir”, completou.

Segundo levantamento da universidade americana John Hopkins, a Espanha é o terceiro país mais afetado do mundo, fora a China, com 13.910 casos e 623 mortes.