Por Rodolfo Zavati

Observando a classificação da segunda divisão espanhola nas últimas temporadas, fica evidente que o Celta de Vigo se tornou um frequentador habitual da metade inferior da tabela. Trata-se, portanto, de uma realidade bastante diferente quando comparada aos feitos que a equipe da Galícia conquistou num passado ainda recente, entre o fim dos anos noventa e o início da década seguinte.

 

Neste período glorioso, além da manutenção constante na divisão principal, os celestes emplacaram seguidas classificações para a Copa da UEFA, um título na Copa Intertoto e um vice na Copa do Rei. EuroCelta foi o nome criado pela imprensa espanhola para apelidar o time que conquistou resultados expressivos diante de gigantes europeus, como Liverpool, Benfica e Juventus. Entre os nomes que fizeram parte desta era histórica para os galegos, estão os franceses Dutruel e Makélélé, os argentinos Gustavo López e Fernando Cáceres, os brasileiros Mazinho e Catanha, o espanhol Míchel Salgado e o israelense Revivo.

Entretando, as estrelas da companhia sempre foram russas: Aleksandr Mostovoi e Valery Karpin. Os meias formavam uma dupla perigosa e entrosada, que se conhecia desde os tempos de Spartak Moscou, quando a União Soviética ainda existia. Enquanto Mostovoi construiu praticamente toda sua carreira espanhola com a camisa celeste do Celta, Karpin destacou-se também com as cores da Real Sociedad, além de uma passagem pelo Valencia.

Começo na Rússia

Valery Georgievich Karpin nasceu em 1969, em Narva. Apesar de fazer parte do território estoniano, a cidade possui mais de 80% de russos ou descendentes, além de se localizar na fronteira entre os dois países – o que explica sua origem étnica. Iniciou sua carreira no Sport Tallin e teve passagens rápidas por CSKA Moscou e Fakel Voronezh, antes de chegar ao Spartak Moscou, em 1990, aos 21 anos. Em cinco temporadas pelo time moscovita (duas pela antiga Liga Soviética), firmou-se como um dos principais jogadores da geração pós-URSS, conquistando seguidamente os três primeiros campeonatos russos disputados.

Coube a Karpin a honra de marcar o primeiro gol da novíssima seleção russa, num amistoso diante do México, em agosto de 1992, numa vitória por 2 a 0. Sua estréia aconteceu ainda pela CIS (sigla do inglês Commonwealth of Independent States – Comunidade dos Estados Independentes), durante a fase de transição entra a extinta União Soviética e a formação das novas seleções. Era só o começo de sua longa tragetória de onze anos, 72 jogos e 17 gols com a camisa nacional. Esteve nas Copas de 1994 e 2002 e na Eurocopa de 1996, se despedindo em 2003. Apesar da origem genuinamente russa, Karpin foi o primeiro jogador de futebol nascido na Estônia a disputar uma Copa do Mundo.

Após o Mundial do Estados Unidos, o meia transferiu-se para a Real Sociedad. Após dois anos de destaque pelos bascos, foi reforço do Valencia para 1996-1997. A campanha dos morcegos foi decepcionante, mas Karpin jogou boa parte das partidas e anotou meia dúzia de gols. Entretanto, a regularidade não foi suficiente para sua manutenção e, na temporada seguinte, já estava no Celta. Em Vigo, reencontrou-se com Mostovoi e viveu o melhor momento de sua carreira, sendo eleito o melhor jogador russo de 1999.

Depois de mais cinco temporadas na Galícia, acertou seu retorno à Sociedad. Em sua segunda passagem pela equipe de San Sebastián, liderou o time surpreendente que disputou, ponto a ponto, o título espanhol de 2002-2003 com o galático Real Madrid. Os merengues, de Figo, Zidane, Raúl e Ronaldo, levaram a melhor em cima do bom elenco basco, que contava também com Xabi Alonso, De Pedro, Kovacevic e Nihat. A Karpin, restou o consolo de poder disputar a Champions League seguinte.

Apesar de ainda se manter como um dos jogadores mais frequentes da equipe, o russo se aposentou após o término da temporada 2004-2005.

Vida como ex-jogador

Fora dos gramados, Karpin fixou residência em Vigo e tornou-se empresário no ramo imobiliário, em sociedade com o ex-companheiro Míchel Salgado. Além disso, passou patrocinar equipes de ciclismo, vôlei e rúgbi. Em seu último ano na cidade, recebeu fortes críticas por ser considerado um dos grandes responsáveis pela especulação imobiliária crescente na cidade galega.

Em 2008, retornou ao Spartak, como diretor Geral. Em 2009, assumiu o comando do time interinamente, como substituto do demitido Michael Laudrup. O bom desempenho naquele ano e o vice-campeonato provocaram sua efetivação. Entretanto, os fracos resultados na atual temporada do futebol russo (cinco vitórias em quinze jogos) fazem do ex-ídolo Krasno-belye um sério candidato a conhecer sua primeira demissão como treinador.


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