Determinar o melhor jogador italiano de todos os tempos, diferentemente do que acontece em outras potências do futebol mundial, não é das missões mais simples. Diversos craques aparecem em pé de igualdade com seus feitos para pleitear o posto. Giuseppe Meazza e Roberto Baggio são nomes bastante citados, impulsionados por seus feitos em Copas do Mundo. E mesmo sem nunca ter disputado o torneio, a memória de Valentino Mazzola prevalece. Não foi a morte precoce que negou a reverência à lenda do Grande Torino, um dos melhores times do mundo durante a década de 1940.

Mazzola era tudo o que poderia se esperar de um ídolo. O camisa 10 empilhava gols, demonstrava raça dentro de campo, possuía um enorme senso de liderança e deslumbrava com sua qualidade técnica. Não à toa, encabeçou os grenás no pentacampeonato nacional, que nem mesmo a Segunda Guerra Mundial foi capaz de atrapalhar. Referência da seleção, Mazzola poderia ter disputado a Copa de 1950. No entanto, o desastre aéreo de Superga, que vitimou todo o time do Grande Torino, custou a vida do capitão quando tinha 30 anos.

Aproveitando o fim de ano, iremos lançar aqui na Trivela alguns textos de efemérides que, por algum motivo ou outro, não foram publicados durante a devida data por estarem incompletos. Neste domingo, fica a homenagem ao centenário de Valentino Mazzola, bem como à memória de Superga após 70 anos da tragédia.

Padeiro, tecelão, mecânico, marinheiro, futebolista

Valentino nasceu em uma família humilde, afetada pelas mazelas da Itália durante o entre guerras. Cassano d’Adda, o vilarejo próximo a Milão onde os Mazzola moravam, possuía uma vizinhança repleta de casas abandonadas. O pai, Alessandro, trabalhava em uma companhia de transporte público para sustentar os cinco filhos. Porém, a Grande Depressão provocou a demissão do progenitor em 1929. Desta maneira, Valentino precisou abandonar os estudos e trabalhar desde cedo. Aprendiz de padeiro, logo passou a assar pães para ajudar no sustento de seus irmãos.

Um episódio marcante na vida de Mazzola aconteceu justamente nesta época. Aos dez anos, o menino se tornou um herói da comunidade ao se lançar nas águas do rio Adda para salvar outro garoto, de quatro anos, que se afogava. A vítima era ninguém menos que Andrea Bonomi, futuro capitão do Milan e adversário de seu salvador na Serie A. De qualquer forma, o sonho de Valentino como jogador de futebol se restringia ao trajeto do trabalho para casa. Aos 14 anos, foi contratado por uma tecelagem e costumava ir até a fábrica chutando garrafas de leite.

Naquele momento, a Juventus ascendia como a grande força do Campeonato Italiano. Os bianconeri compunham a base da Azzurra campeã do mundo e também empilhavam títulos na Serie A. Curiosamente, o futuro ídolo grená era um tifoso bianconero. E logo começou a construir sua própria história nos gramados. Seu primeiro time foi o Tresoldi, da região milanesa. Famoso desde já como um jogador versátil, o então meio-campista chegou à equipe principal quando tinha 16 anos, recebendo 10 liras por jogo. Não demoraria a chamar atenção por seu talento.

Aos 18 anos, Valentino Mazzola passou a ter seu futebol cobiçado por outras equipes. O Milan chegou a propor uma transferência ao jovem. Além disso, um funcionário da Alfa Romeo se encantou com o futebol do adolescente e o convidou para atuar no time da fábrica, que participava da Serie C do Campeonato Italiano. Embora os rossoneri já estivessem estabelecidos na primeira divisão, o craque optou pela proposta mais modesta por um simples motivo: ele faria parte do quadro de proletários da indústria automobilística, ganhando também um emprego como mecânico. “Foi muito melhor escolher o Alfa Romeo. Se eu fosse para o Milan, eu ganharia um salário considerável de 100 liras por mês e não iria trabalhar. É melhor trabalhar. A ociosidade poderia arruinar minha paixão saudável pelo futebol e a minha carreira”, escreveu em seu diário. Ficou por lá durante uma temporada, atuando como ponta.

Às portas de seu estopim, a Segunda Guerra Mundial influenciaria na caminhada de Mazzola. Em 1939, o rapaz de 20 anos foi convocado às forças armadas e se juntou à Marinha em Veneza. Embora permanece a bordo de navios, o período foi importante para que o capitão concluísse os seus estudos. E mesmo diante de uma Europa em chamas, ele encontraria tempo ao futebol. Durante as peladas com o time de militares, o jovem também se destacava. Um oficial da Marinha, que torcia para o Venezia, o convenceu a fazer um teste no clube da cidade. Valentino chegou descalço ao treino, optando deixar suas chuteiras em casa para não estragá-las. Ainda assim, gastou a bola e convenceu a agremiação a trazê-lo. Depois de alguns meses com o segundo quadro, assinou seu primeiro contrato profissional em janeiro de 1940.

No Venezia, as primeiras glórias

Mais do que a porta de entrada ao futebol de elite, o Venezia proporcionou a Valentino Mazzola uma chance de se transformar em estrela nacional. Sua estreia na Serie A aconteceu em março de 1940, entrando como centroavante no duelo com a Lazio. Estava ali porque o titular, Francesco Pernigo, havia se lesionado. Logo o novato tomaria a posição. Dando novo fôlego ao ataque, o jovem ajudou os arancioneroverdi a permanecerem na primeira divisão. Contra o Bari, inclusive, anotou o gol que evitou matematicamente as chances de rebaixamento. O bom momento, contudo, contrastaria com um drama pessoal. Em agosto de 1940, o pai do talentoso jovem faleceu, atropelado por um caminhão. O futebol seria também uma válvula de escape.

Valentino Mazzola poderia ter outros rumos na temporada 1940/41. O craque assinou contrato com o Bari logo no início da temporada. O problema é que, ainda ligado à Marinha em Veneza, não recebeu sua transferência para a Puglia e defendeu o Venezia nas primeiras rodadas da Serie A. O negócio se tornou um imbróglio e, após as intervenções da federação e das próprias forças armadas, ele acabaria seguindo com os arancioneroverdi. Aquela seria a sua primeira temporada como titular e o polivalente atacante apareceu em todas as posições da linha ofensiva. O maior sucesso era como centroavante, logo acumulando seus gols. O tento contra a Juventus na rodada de Ano Novo, aliás, repercutiu ao redor do país por sua beleza. A lenda desabrochava.

Já no segundo turno da temporada, Giovanni Battista Rebuffo foi alçado ao cargo de técnico. O comandante havia trabalhado com Valentino Mazzola no segundo quadro e conhecia melhor do que ninguém a capacidade técnica do jovem. Resolveu deslocá-lo como interno esquerdo e, mais encarregado das funções na armação, o rapaz se colocou entre os melhores da Serie A. Não à toa, a imprensa o consideraria a grande revelação do campeonato, que sofria um impacto inegável por conta da Segunda Guerra Mundial. O Venezia terminou a campanha no 12° lugar, embora o grande feito tenha acontecido na Coppa Italia, realizada após o término da liga.

Mazzola se transformou no grande condutor de um surpreendente Venezia, amassando cada adversário em seu caminho. Os arancioneroverdi eliminaram Savona e Udinese, até uma épica vitória sobre o Bologna nas quartas de final. Depois, destroçaram a Lazio na semifinal, até encarar a Roma na decisão. O jogo na capital guardou uma tarde memorável. Com menos de 20 minutos, os giallorossi já venciam por três gols de diferença. Eis que o craque conduziu uma romada daquelas, anotando um dos gols no empate por 3 a 3. Já no reencontro em Veneza, Ezio Loik anotou o gol da vitória por 1 a 0, que garantiu o título mais importante da história dos venezianos.

Loik, aliás, é um personagem especial nesta história. Nascido na antiga cidade de Fiume, hoje pertencente à Croácia e conhecida como Rijeka, o meia surgiu na Fiumana e passou pelo Milan, antes de se juntar ao Venezia em 1940. Por lá, formaria como Mazzola uma das duplas mais célebres do Calcio. Dizia-se que os dois companheiros eram complementares. Enquanto o camisa 10 deslumbrava com sua técnica refinada, o 8 oferecia sua potência física impressionante. Ambos se alternavam em campo, abrindo as defesas adversárias. E não que Loik fosse apenas um cara do trabalho pesado. O rapaz, meses mais jovem que Valentino, era aclamado por seus “gols impossíveis”. A conquista da Copa da Itália com o Venezia foi apenas o primeiro capítulo de uma grande amizade.

A última temporada de Valentino Mazzola (e de Ezio Loik) vestindo a camisa do Venezia aconteceu em 1941/42. Os arancioneroverdi eram considerados um dos melhores times do país e carregavam grandes expectativas, frequentando as primeiras colocações no início da Serie A. Todavia, logo a equipe perdeu fôlego, atrapalhada também por uma lesão no tornozelo sofrida pelo camisa 10. Individualmente, o rendimento do craque não foi tão alto, embora o clube de Veneza tenha encerrado a temporada na terceira colocação da Serie A, a quatro pontos da campeã Roma. Além disso, o destaque ganhou sua primeira convocação à seleção italiana. Ainda nos primeiros meses de 1942, participou de amistosos contra a Croácia e contra a Espanha, anotando um dos gols nos 4 a 0 sobre a Fúria em Milão. Seriam os únicos dois jogos dos azzurri naquele ano, interrompendo as atividades por causa da Segunda Guerra Mundial

O Torino e a afirmação do craque

O ano de 1942 seria ainda mais especial a Valentino Mazzola. O camisa 10 era cobiçado ferrenhamente por Juventus e Torino. Havia uma disputa nos bastidores entre os dois clubes e o camisa 10 chegou a se apalavrar com seu clube de infância. No entanto, a oferta irrecusável feita pelo presidente grená, Ferruccio Novo, acabou transformando os rumos do craque e do clube. Por 1,25 milhão de liras, um valor recorde para a época, o Toro acertou a transferência. Ezio Loik também estava incluído no pacote, enquanto Raúl Mezzadra e Walter Petron seguiram para Veneza. Graças à bolada, criticada amplamente pela imprensa por conta de sua suntuosidade em meio ao esforço de guerra, o Venezia também pôde sanar as suas dívidas.

Nem mesmo como o jogador mais caro do futebol italiano Mazzola deixou de trabalhar. Em Turim, ele foi contratado pela Fiat e trabalhava em uma linha de produção fundamental à Segunda Guerra Mundial, o que o poupou do front. Em casa, junto à esposa Emilia Ranaldi, pôde acompanhar o crescimento de seu primeiro filho. Futuro ídolo da Internazionale e legado do pai dentro de campo, Sandro Mazzola nasceu em março de 1942. Seria o grande xodó.

Um jogo bastou para Mazzola apresentar seu impacto ao Torino. A estreia aconteceu em setembro de 1942, durante a goleada por 7 a 0 sobre o Ancona, em que o craque anotou dois gols. Ainda assim, o início não seria exatamente um mar de rosas. As derrotas nas duas primeiras partidas pela Serie A logo levaram a imprensa imediatista a questionar a validade da contratação da dupla veneziana. Os novatos só precisaram aguardar o primeiro clássico, contra a Juventus, no terceiro compromisso pela liga. Valentino anotou seu primeiro gol com a camisa grená e o Toro derrotou a Velha Senhora por 5 a 2. A partir de então, começou a engrenar no campeonato.

Empilhando gols, o Torino emendou cinco vitórias consecutivas até voltar a tropeçar, contra o Milan. De qualquer maneira, deixava claro o seu potencial em busca do título. Ao final do primeiro turno, três eram os principais concorrentes ao Scudetto: o líder Livorno, bem como a Juventus e a Ambrosiana-Inter. Pesou demais o segundo turno irretocável protagonizado pelo Toro. Contando com atuações monumentais de Valentino Mazzola, sobretudo na reta final, a equipe tomou a liderança restando mais três rodadas, quando a disputa pelo título já tinha se tornado uma corrida particular contra o Livorno. Seriam mais três vitórias orquestradas pelo camisa 10 a partir de então, mantendo a vantagem de um ponto sobre os toscanos.

Na rodada final, o empate por 0 a 0 contra o Bari poderia tirar a taça do Torino, até que o astro apareceu a quatro minutos do fim, para determinar o decisivo triunfo por 1 a 0. Em tão pouco tempo, já herói. Mazzola e Loik estiveram presentes em campo durante as 30 rodadas da competição, essenciais ao segundo título nacional dos grenás, encerrando um jejum de 15 anos sem o Scudetto. Como se não bastasse, semanas depois, o Toro ainda faturou a Copa da Itália. Goleou o próprio Venezia na decisão, em 4 a 0 que teve um gol de Valentino para fechar a contagem. Pela primeira vez no Calcio, um clube registrava a dobradinha.

É de se imaginar que a sequência de conquistas do Torino na Serie A pudesse ser maior. Afinal, as duas temporadas seguintes do campeonato não aconteceriam por causa da Segunda Guerra Mundial. O Torino passaria a disputar amistosos e competições regionais, sem caráter oficial. Como funcionário da Fiat, Valentino Mazzola permaneceu em Turim e chegou a ser vice-campeão de um torneio organizado entre clubes do norte da Itália. Além disso, por vezes o craque ainda se juntava ao time da Marinha, disputando partidas diante de bom público em Roma. Nos últimos meses de 1944, o Toro ainda encarou diversos amistosos para arrecadar fundos às vítimas da guerra. Uma realidade que se romperia a partir de 1945, com a morte de Benito Mussolini e a rendição dos fascistas aos Aliados.

A Serie A retornou para a edição de 1945/46, iniciada em outubro. Seria uma temporada atípica do campeonato, regionalizado entre norte e sul, antes de um octogonal reunindo as melhores equipes de cada parte do país. Novamente, ninguém conseguiu competir com o Torino. Os grenás lideraram com sobras a porção norte, com três pontos de vantagem na primeira colocação. E, logo na primeira rodada da fase decisiva, Valentino Mazzola protagonizou um dos jogos mais emblemáticos do Calcio.

O Toro goleou a Roma por 7 a 0, em plena capital, anotando seis gols em míseros 13 minutos. Foi a afirmação do Grande Torino. Por mais que a Juventus tenha ameaçado em parte do octogonal, a vitória por 1 a 0 no clássico da penúltima rodada seria essencial aos campeões. Iniciava-se ali o chamado “Quinquênio de Ouro”. Valentino Mazzola não foi tão prolífico quanto os companheiros Eusebio Castigliano, Guglielmo Gabetto e Ezio Loik, mas terminou a campanha com expressivos 16 gols. Sua genialidade abriu caminhos e facilitou a campanha expressiva da equipe dirigida por Luigi Ferrero.

Os entraves, mas também o ápice

A melhor fase da carreira de Valentino Mazzola, entretanto, seria concomitante às dificuldades que o craque encararia na vida pessoal. O italiano se definia como alguém extremamente calculista. Era um homem fechado e de poucas palavras, meticuloso e intransigente em suas atitudes. A personalidade um tanto quanto disciplinadora acabou criando uma relação insustentável com a esposa e, em 1946, a separação se tornou inescapável.

Naquele momento, além de Sandro, também já havia nascido Ferruccio, o segundo filho do casal – batizado em homenagem ao presidente do Torino, Ferruccio Novo, e outro a virar jogador profissional, apesar da trajetória mais modesta que o primogênito. Após o divórcio, enquanto Ferruccio retornou a Cassano d’Adda com a mãe, Sandro permaneceu sob a guarda de Valentino em Turim. Passou a entrar ao lado do pai no mítico Estádio Filadélfia e até mesmo a bater bola no gramado. Recebeu as primeiras lições para se tornar, anos depois, também uma lenda.

E se precisava reconstruir suas relações fora de campo, dentro das quatro linhas Valentino Mazzola chegava ao ápice de sua forma. A maturidade fez muito bem ao craque, aliando a excelente forma à inteligência aprimorada para liderar o Torino. O camisa 10 era o que poderia se chamar de jogador à frente de seu tempo. Não apenas possuía uma preparação física privilegiada, por sua velocidade e sua luta incansável, se valendo disso para conduzir o time do meio-campo ao ataque.

A mobilidade do armador era uma das grandes armas do Toro, que se valia do meia cerebral para abrir espaços nas defesas adversárias e acumular muitos gols. De certa maneira, era ele quem iniciava o combate e a saída de bola, apesar de guardar o seu melhor à conclusão das jogadas. Antecipou uma versatilidade que, tempos depois, se veria também com gênios da estirpe de Alfredo Di Stéfano e Johan Cruyff.

Tecnicamente, Mazzola era um jogador refinado, sobretudo por sua virtuosidade nos dribles e nos passes. Mesmo assim, sabia jogar duro como o futebol da época mandava, sem perder a firmeza em suas investidas. As garrafas de leite conduzidas ao longo da adolescência certamente ajudaram sua capacidade de bater com ambos os pés, dono de um arremate potente, que rendia muitos gols de média distância e em cobranças de falta. Um legítimo “fantasista” e, por isso, tido como parâmetro no futebol italiano por décadas. O Grande Torino, por fim, valeu para eternizar esta qualidade incomparável.

O Quinquênio de Ouro

Não havia quem segurasse o Torino no final da década de 1940. Valentino Mazzola assumiu a braçadeira de capitão e conduziu os grenás ao tricampeonato nacional em 1946/47. Pessoalmente, aquela seria também sua temporada mais fantástica. Mesmo jogando mais recuado que outros companheiros de ataque, terminou a Serie A como artilheiro, autor de significativos 29 gols em 38 aparições. Seriam 18 tentos apenas no segundo turno, coroando atuações fantásticas – como na tripleta anotada em míseros três minutos durante os 6 a 0 sobre o Vicenza. O Toro fechou a campanha com 63 pontos, dez acima da Juventus, que incomodou na briga pela liderança até o início do segundo turno. Além disso, o quinteto ofensivo composto por Ossola, Loik, Gabetto, Mazzola e Ferraris II balançou as redes 104 vezes. Haveria mais por vir.

Se a artilharia de Mazzola não se repetiu em 1947/48, dois gols abaixo de Giampiero Boniperti, o Torino conseguiu superar as próprias marcas durante o tetra. Chegou aos 65 pontos, 16 a mais que o vice-campeão Milan, e somou 29 vitórias em 40 partidas. Já o setor ofensivo rendeu massivos 125 gols. O Toro chegou a enfiar 10 a 0 sobre a Alessandria, naquela que permanece ainda hoje como maior goleada da história da Serie A. De qualquer maneira, o jogo mais emblemático aconteceu logo no início da campanha, na visita à Roma.

Os giallorossi terminaram o primeiro tempo em vantagem mínima, o que provocou a fúria do capitão. Apenas nos 25 primeiros minutos da etapa complementar, os grenás balançaram as redes sete vezes. Mazzola marcou três vezes, mesmo sustentando uma lesão desde o compromisso anterior. Ao completar a tripleta, por um estiramento na coxa, precisou deixar o campo. Saiu aplaudido de pé pelos romanistas. Já contra a Atalanta, sua meia-bicicleta passou a ser considerada um dos gols mais belos da história do Calcio.

A fama de Mazzola não se continha ao Torino. A partir de novembro de 1945, suas aparições se tornaram constantes pela seleção. Os Azzurri retomavam as atividades, aproveitando o Grande Torino como a base de seu time.  E o craque liderava as expressivas vitórias de sua equipe em amistosos. Entre 1946 e 1948, o time derrotou Áustria, Suíça, Hungria, Tchecoslováquia e França. A série de bons resultados se encerrou apenas com uma goleada por 4 a 0 aplicada pela Inglaterra em Turim.

Além do mais, o Torino cada vez mais passava a ser reconhecido como o melhor time do mundo. E para desfrutar do talento dos italianos, a convite do Palmeiras, os grenás foram recebidos para uma turnê de quatro partidas em São Paulo. Aproveitando as rendas suntuosas geradas pelo Pacaembu lotado, os quatro principais clubes da capital paulista arcaram com a fortuna necessária para garantir a viagem dos astros internacionais. Mesmo que os resultados não tenham sido bons, o Toro deixou suas marcas.

Recebido por milhares de torcedores em Congonhas, o time estreou empatando com o Palmeiras por 1 a 1. Depois, perdeu do Corinthians por 2 a 1, em duelo estrelado por Baltazar Cabecinha de Ouro. Recuperou o moral ao golear a Portuguesa por 4 a 1, com direito a um tento de Mazzola. Já na despedida, empate por 2 a 2 contra o São Paulo, com direito a uma briga atiçada por Leônidas da Silva. As rodadas iniciais do Paulistão foram adiadas, justamente para valorizar o evento. Apesar dos convites para outros amistosos no Brasil, o Torino retornou à Itália, onde daria início à conturbada e triste temporada que encerrou seu pentacampeonato.

O interesse pela Inter, o caminho a Superga

Valentino Mazzola flertou seriamente com um adeus ao Torino em 1948. Na reta final da Serie A 1947/48, o craque se ausentou no duelo contra a Triestina e surgiram várias teorias sobre sua continuidade nos grenás, com os companheiros indicando certos desgastes. Ao mesmo tempo, os rumores sobre uma transferência à Internazionale cresciam. O próprio Mazzola anunciou sua despedida do Toro antes da viagem ao Brasil e apontou que “veria todos no próximo ano em Milão”. Com uma proposta considerável dos nerazzurri na mesa, o veterano ganhou permissão até mesmo da diretoria interista para negociar sua saída de Turim.

A transação não se concretizou. Mazzola permaneceu no Torino e entrou em rota de colisão com a diretoria, por não aceitar a oferta salarial feita pelos grenás – em tempos nos quais os passes dos jogadores estavam presos aos clubes. O craque foi incluído na lista de transferências do Toro, ao lado de seis companheiros, e se ausentou da rodada inicial da Serie A 1948/49. Todavia, quando os turineses já montavam uma nova linha de frente, o impasse teve uma solução. Mazzola viu seus telefonemas ignorados pelo presidente da Inter. Ao mesmo tempo, os próprios companheiros de Torino convenceram o presidente Ferruccio Novo a atender as pedidas do capitão. O dirigente, contra a ideia de criar um abismo salarial dentro do elenco, dobrou os ganhos do ídolo.

Mazzola retornou com gol na segunda rodada, durante uma derrota na visita à Atalanta. E a maior prova de que o capitão estava de volta aconteceu na sexta rodada, quando o Torino realizou o dérbi contra a Juventus. Por mais que fosse dúvida antes do jogo, o craque terminou como a grande figura do clássico, ao determinar a vitória por 2 a 1. No tento decisivo, ele salvou um chute do artilheiro Giampiero Boniperti em cima da linha e armou o contragolpe, ao tabelar com Loik, aparecendo no ataque para concluir às redes. Neste momento, o Toro disputava a liderança cabeça a cabeça com a Lucchese. Logo conseguiria deslanchar. Ao final do primeiro turno, os grenás sustentavam uma vantagem de dois pontos na primeira colocação. O capitão somava oito gols.

O início de 1949 não seria tão fácil a Mazzola, com uma sequência de lesões, apesar das aparições ainda decisivas. Nada que atrapalhasse a liderança do Torino, perseguido pela Internazionale na reta final da campanha. O duelo contra os nerazzurri em 30 de abril, inclusive, foi o último compromisso do Toro antes de sua viagem a Lisboa. Faltando quatro rodadas para o final da Serie A, o empate por 0 a 0 manteve os grenás com uma vantagem de quatro pontos no topo da tabela. Então, ocorreria uma breve pausa, rumo ao amistoso que marcaria uma homenagem a Francisco Ferreira, capitão encarnado.

O desastre de Superga e a memória

Em 3 de maio de 1949, o Grande Torino disputou seu último jogo. O amistoso contra o Benfica havia sido acertado pelo próprio Mazzola, após um duelo entre Itália e Portugal três meses antes. O capitão se encontrou com Ferreira, dono da braçadeira lusitana, e combinaram o confronto com os clubes. Os encarnados venceram aquela partida por 4 a 3. Longe de suas melhores condições físicas, Mazzola se tornou dúvida para a viagem, mas quis manter sua palavra a Ferreira e integrou a delegação em Lisboa.

No dia seguinte ao jogo, em 4 de maio de 1949, o Torino pegou o voo de volta à Itália. Durante a chegada a Turim, por conta dos fortes ventos e das péssimas condições de visibilidade causadas pela densa neblina, o avião que carregava a delegação se chocou contra um muro da Basílica de Superga. Todos os 31 presentes na aeronave, incluindo 18 jogadores, faleceram instantaneamente. Gripado, o presidente Ferruccio Novo não participou da viagem. Já Vittorio Pozzo, jornalista e treinador da seleção até o ano anterior, se tornou um dos responsáveis por reconhecer os corpos.

Dois dias depois, em 6 de maio, mais de 600 mil pessoas compareceram ao funeral do Grande Torino. A Serie A foi dada como encerrada, após a sugestão encabeçada por Juventus, Internazionale e Milan. Confirmou-se o pentacampeonato grená. Durante as quatro rodadas restantes, o Toro escalou seus juniores, que cumpriram tabela contra jogadores da base dos adversários. A equipe somou mais quatro vitórias e encerrou a campanha com 60 pontos, além de 78 gols. Valentino Mazzola, presente em 30 rodadas, foi o artilheiro da equipe com 16 tentos.

A morte de Valentino Mazzola ainda gerou uma disputa pela guarda de seu primogênito, Sandro. A segunda esposa de Valentino, Giuseppina Cutrone, chegou a esconder o garoto na casa de um industrial, antes que ele retornasse com a mãe para Cassano d’Adda. Por lá, o menino cresceu ao lado de seu irmão mais novo, Ferruccio. E foi através de Benito Lorenzi, atacante da Internazionale, que ambos deslancharam no futebol. O Torino não deu a devida assistência para os herdeiros do capitão e eles foram transformados em mascotes da Inter graças a Lorenzi, antigo fã de Valentino. O nerazzurro fazia questão que a Inter pagasse até bicho aos meninos durante as vitórias, para ajudar a família, e foi assim que eles iniciaram suas carreiras na base interista.

Ferruccio não vingou na equipe principal da Internazionale, rodando por outros clubes italianos – mas com títulos da Serie B pelo Venezia e da Serie A pela Lazio. Sandro, por sua vez, aproximou-se do pai nos gramados. Na base da Inter, tornou-se pupilo de ninguém menos que Giuseppe Meazza, lenda da seleção bicampeã mundial. E não demoraria a desabrochar como símbolo dos nerazzurri. O atacante estreou numa tumultuada derrota por 9 a 1 para a Juventus, em 1961, aos 18 anos. Conquistou quatro títulos da Serie A com o clube, duas Copas dos Campeões da Europa e dois Mundiais Interclubes. Já pela seleção, seria campeão da Euro 1968 e vice na Copa de 1970. Capitaneou a Inter por sete anos, superou os 500 jogos e os 150 gols.

Sandro permaneceu como o maior legado de Valentino ao futebol. Ainda assim, as homenagens ao antigo capitão do Grande Torino se repetiram em inúmeras ocasiões nestas últimas sete décadas, desde sua morte em Superga. Introduzido no Hall da Fama do Calcio, o craque segue considerado como um dos maiores jogadores italianos de todos os tempos. E prevalece a dúvida sobre aquilo que o Toro poderia ter feito na sequência dos anos 1950, assim como a própria seleção italiana no Mundial do Brasil, caso a fatalidade não ocorresse. No entanto, ainda maior é a consciência pelas façanhas que Valentino Mazzola concretizou com a camisa grená. Os feitos preservam sua grandeza.