Quem afirma que o Campeonato Espanhol é só Barcelona e Real Madrid está olhando apenas a tabela e negligenciando as histórias paralelas. Talvez a melhor delas fora desse eixo Barcelona-Madri está em Valência. O clube da cidade comemorou em 18 de março deste ano o seu centenário, com um arco dos mais interessantes. O título da Copa do Rei neste sábado, com vitória por 2 a 1 sobre o Barça no Benito Villamarín, em Sevilha, foi o desfecho perfeito para a temporada dos Ches.

O Valencia fez o jogo que precisava contra o Barcelona. Marcelino armou sua equipe para se defender bem, com atenção, entregando a bola ao adversário e de olho nas bobeadas dos catalães para roubar a posse e partir com velocidade para o ataque, alternando também momentos de paciência com a bola para achar o melhor passe. Assim vieram os gols dos Murciélagos no primeiro tempo.

O placar poderia ter sido inaugurado logo aos cinco minutos de jogo. Lenglet interceptou toque em profundidade com precisão, mas errou terrivelmente seu passe e entregou a bola nos pés de Rodrigo. O brasileiro naturalizado espanhol driblou Cillessen e bateu para o gol vazio, mas Piqué se atirou no gramado e, em cima da linha, evitou o tento.

Aos 21 minutos, após troca de passes no meio de campo, a bola voltou para Gabriel Paulista, que acertou um lindo lançamento para Gayà. O lateral tocou para o meio e encontrou Kevin Gameiro. O francês viu a aproximação de Alba, tirou o espanhol da marcação e bateu com força no ângulo superior esquerdo de Cillessen para fazer 1 a 0.

Doze minutos mais tarde, Rodrigo participou da tomada de bola na defesa e recuou para o goleiro Doménech, que iniciou o contra-ataque. A bola foi rodando até Carlos Soler ser lançado pela ponta direita. O jovem de 22 anos ganhou na velocidade de Alba e cruzou com precisão para Rodrigo, agora na pequena área, completar de cabeça e ampliar para 2 a 0.

Valverde voltou para o segundo tempo com duas alterações, promovendo a entrada de Vidal no lugar de Arthur e tirando Semedo para colocar Malcom, recuando então Sergi Roberto. O gol do Barcelona demorou a sair, mas veio. Aos 27 da etapa final, Malcom cobrou escanteio na área, Lenglet cabeceou com firmeza e forçou o rebote de Doménech. A defesaça de pouco adiantou: Messi, livre, chegou para completar para as redes.

Precisando do empate, o Barcelona impôs pressão, mas não conseguiu furar a barreira do Valencia. Mais que isso, deu oportunidades de ouro para os Ches matarem o jogo nos contra-ataques. Em dois deles, já nos acréscimos, Gonçalo Guedes perdeu chances incríveis, primeiro saindo na cara de Cillessen e chutando para fora aos 48 minutos. No minuto seguinte, vendo o gol vazio – já que o holandês saíra para tentar o empate em escanteio –, arriscou chute do meio da rua e, novamente, errou o alvo.

Para alívio do português, essas oportunidades não fizeram falta. Não havia mais tempo para o Barça. O apito final soou em Sevilha, e a festa dos Murciélagos tomou conta do gramado.

O Valencia entrara para a temporada de seu centenário como todo time em um momento histórico desses: cheio de expectativas. O início de campanha foi um enorme balde de água fria. Nas 11 primeiras rodadas de La Liga, a equipe conquistou apenas uma vitória, acumulando oito empates e duas derrotas.

No fim de semana passado, a vitória por 2 a 0 fora de casa contra o Valladolid, na rodada derradeira, dedicada pelo técnico Marcelino a seu falecido pai em emocionante cena, amarrou um belo enredo de superação, levando a equipe à próxima Champions League, algo que por muito tempo era impensável no segundo semestre do ano passado. Que tenha tido tamanha reviravolta no campeonato enquanto fazia uma campanha semifinalista na Liga Europa só reforça o feito. E a redenção é agora completa, com o título da Copa do Rei sobre o campeão espanhol.

O triunfo deste sábado significa também que a fila de títulos do Valencia chegou ao fim. Onze anos sem conquistas depois, os comandados de Marcelino repetem a façanha que o time de Juan Mata e Fernando Morientes alcançou ao bater o Getafe por 3 a 1 no Vicente Calderón pela mesma Copa do Rei. Desta vez bem maior, é claro, pelo adversário. Mas, sobretudo, por escrever o capítulo final de uma temporada que poderia perfeitamente ter sido escrita em um roteiro de série – ô, Amazon, se ao menos você tivesse escolhido os Ches em vez dos aurinegros de Dortmund