A mistura do futebol e suas possibilidades infinitas de boas histórias com o Netflix e suas produções muito bem feitas tinha tudo para dar certo. E parece que deu mesmo. Desde a última sexta-feira, a série mexicana Club de Cuervos está disponível aos assinantes do serviço de streaming, e a Trivela já viu metade. O bastante para ter uma impressão positiva e recomendar aos nossos leitores que pelo menos deem uma chance para ela.

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A série gira em torno do Cuervos de Nueva Toledo, um clube médio do futebol mexicano que disputa a primeira divisão desde o começo dos anos noventa, chegou quatro vezes à final e perdeu todas. Apesar de ter o apelido de “povo mágico”, a cidade não tem muitos atrativos e praticamente respira o time. O dono é Salvador Iglesias, patriarca de uma família influente da região, que também controla uma fábrica de sabão. O milionário morre no primeiro episódio de ataque cardíaco, e seus dois filhos herdam sua fortuna junto com o Cuervos de Nueva Toledo.

Chavo Iglesias é um playboy sem tirar nem por. Sua primeira participação na história é em uma festa regada a cocaína e prostitutas que ele próprio organizou para os jogadores. Administra o clube para inflar seu próprio ego, na base do impulso, e confundindo maluquice com pioneirismo. Quer que o Cuervos vire o “Real Madrid da América Latina”. Isabel, sua irmã, tem MBA em administração, é responsável por toda a operação do clube e tenta implementar um plano de longo prazo. Claramente, é muito mais capacitada para assumir a presidência, mas por machismo puro e simples, é escanteada pelo irmão.

Os dois personagens principais são caricatos, provavelmente de propósito, para deixar bem claro o contraste, e também como instrumento cômico. O conflito de filosofias no comando do clube é o fio condutor da série, e em torno dele, desenvolvem-se tramas que mais usam o futebol como pano de fundo: ego, tradição, paixão, traição, lealdade, inveja e outros sub-enredos que podem agradar mesmo quem não curte muito o assunto. Afinal, séries sobre esportes, médicos ou advogados são todas, no fundo, sobre seres humanos. Mas não se preocupe. Tem muito futebol, principalmente a partir do quarto capítulo, depois que os personagens já estão devidamente apresentados.

O roteiro não chega a ser raso a ponto de incomodar quem é apaixonado pelo assunto, mas parece ter sido escrito justamente para também ser acessível a quem acompanha futebol mais superficialmente. Não há grandes debates táticos ou referências a craques Lado B dos anos 1940. Há um equilíbrio entre o papo especializado e o didatismo para entender, por exemplo, porque o planejamento para o clube ser campeão em oito anos pode dar certo. O ponto negativo são alguns errinhos de informação, como dizer que Alemanha, Brasil, Argentina e Itália mantêm seus técnicos por oito anos, o que só é verdade no caso da campeã mundial, que está com Joachim Löw desde 2006.

Por enquanto, o Cuervos de Nueva Toledo disputa o Mexicano apenas com adversários de verdade, o que deixa a série bem mais interessante do que se ela fosse recheada de clubes fictícios. Os jogadores do elenco e o técnico também são inventados. Mas há referências a Riascos, hoje no Vasco, e a Ronaldinho Gaúcho, contratado pelo Querétaro na época da produção e o nome do peixe de Chava Iglesias. O futebol brasileiro aparece de vez em quando. Uma frase de Pelé abre a série (cada episódio começa com uma epígrafe).

Por ser centrada em dois dirigentes, muitos enredos da série concentram-se nos bastidores do futebol, mas eles não esquecem os jogadores e seus dramas, como uma aposentadoria iminente, a tentativa desesperada de ser titular da equipe ou mesmo a relação entre astros e suas companheiras que antecederam a fama. Contrabalanceia bem com o núcleo, digamos, administrativo e concede a série um ar mais boleiro.

Juntando tudo isso com um roteiro leve e bem humorado, às vezes até pastelão, temos uma comédia com pitadinhas de drama, bem no tom que uma produção sobre futebol deveria ter. A fórmula pode se esgotar e encaminhar Club de Cuervos para uma tragédia, mas o começo é animador e vale uma chance de quem ama séries e ama nosso esporte favorito.