O homem que um dia disse que o Brasil merecia um chute no traseiro teve o próprio traseiro chutado. Depois de ser banido do futebol pela Fifa, Jerôme Valcke decidiu recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS, ou CAS, como alguns dizem, em uma variação que chama de Corte Arbitral do Esporte). E o processo de Valcke por lá rende algumas revelações interessantes. Uma delas é que meses depois do escândalo Fifagate, o então secretário-geral da Fifa passou a usar jatos privados pagos pela Fifa para ele e a família para evitar ser preso. É isso mesmo. Ele se defendeu dos custos irregulares com jatos dizendo isso.

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Segundo documentos do processo, a Fifa gastou US$ 11,7 milhões em menos de três anos em jatos privados, incluindo viagens de luxo para um alto funcionário. Adivinha quem é o alto funcionário? Um memorando de 2013 mostra que Valcke recebeu a missão de encontrar “alternativas econômicas sempre que possível”, segundo o veredito do TAS, que justifica a razão do pedido de Valcke contra o banimento ter sido negado.

Entre as presepadas cometidas por Valcke no seu tempo de secretário-geral da Fifa, que levou ao seu banimento, uma delas é o excessivo uso de jatos privados e pedidos de voos em classe executiva para o seu filho. Valcke foi banido pelo Comitê de Ética da Fifa em 2016, depois de ter sido demitido. O francês recorreu ao TAS contra a punição, que o impede de trabalhar em qualquer cargo ou trabalho no futebol mundial.

O uso de jatos privados foi só um dos pontos da ficha corrida de Valcke, que tem ainda mais: ele intermediou um contrato de Copa do Mundo de US$ 709 mil para uma empresa do seu filho, segundo detalham os documentos do TAS. Segundo o tribunal, Valcke infringiu as regras da Fifa quatro vezes ao voar desnecessariamente em um jato privado com mais de um convidado e sem devolver o dinheiro do custo extra.

Os voos incluíram uma viagem dentro da Índia para o Taj Mahal, um encontro com o Emir do Catar em Doha, além de levar a sua família para o sorteio das Eliminatórias da Copa, em julho de 2015, em São Petersburgo. O melhor é quando o ex-dirigente da Fifa é chamado a explicar isso. Valcke disse ao tribunal que seguiu conselho do então presidente da Fifa, Joseph Blatter, para “não viajar em voos comerciais para evitar ser preso”. Sim, com essas palavras.

Vamos fazer uma linha do tempo, que é importante aqui. No dia 27 de maio de 2015, pouco menos de dois meses antes da viagem de luxo de jatinho com a família para a Rússia, autoridades dos Estados Unidos e da Suíça deram início a uma operação que ficou conhecida como Fifagate. Nós explicamos aqui por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de vários dirigentes da Fifa, especialmente da Concacaf e da Conmebol.

A resposta do TAS para a alegação de Valcke, é claro, foi de negar o pedido de revogar a sua suspensão. Segundo o Tribunal, isso foi “manifestamente uma razão não válida para um indivíduo cumpridor da lei”, segundo escreveu um juiz do TAS. Promotores suíços anunciaram abertura de procedimentos criminais contra Valcke em 2016 e 2017 por irregularidades financeiras. Segundo apuração interna, a viagem de Valcke com a família para São Petersburgo em jato privado, em vez de voo comercial, custou US$ 71,699. Houve ainda um custo extra para que seu filho fosse do Brasil até Zurique, se encontrar com a família, e se unir ao jato privado.

“O senhor Valcke requisitou à Fifa que o voo do seu filho fosse melhorado de classe econômica para executiva”, diz painel do TAS. Valcke ainda foi um grande paizão ao ajudar a carreira do filho nos negócios em intermediar um acordo para que a empresa dele fornecesse equipamento para uma fan zone em Copacabana, no Rio de Janeiro, na Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

Em julho de 2013, Valcke e seu filho e o então diretor de marketing da Fifa, Thierry Weil, foram para Manchester, na Inglaterra, para se reunir com uma empresa, EON Reality Inc., para desenvolver um software de realidade virtual. Durante as negociações, Valcke usou a sua posição dentro da Fifa para ajudar seu filho a conseguir a remuneração de um parceiro de negócios da Fifa, relata o Tribunal. Ele compartilhou e-mails confidenciais da Fifa com o seu filho e o aconselhou a como estruturar os pedidos para receber o dinheiro.

Por fim, mas não menos importante, o TAS negou o pedido de Valcke depois de dizer que ele cometeu grave má conduta em explorar o mercado negro de ingressos para a Copa do Mundo no Brasil e que isso, por si só, já valeria a punição de 10 anos banido do futebol. O tribunal ainda manteve uma multa de 100 mil francos suíços (equivalente a US$ 104 mil) imposto pela Fifa.