Mathieu Valbuena tinha tudo para jogar a Euro 2016 em casa. Tendo participado das Copas do Mundo de 2010 e 2014 e da Euro 2012, era nome constante de Didier Deschamps. Mas então veio o caso da sex tape, envolvendo seu companheiro de seleção Karim Benzema. Sob os holofotes pelo motivo errado, o meio-campista sofreu com as repercussões do episódio – incluindo um adeus unilateral da seleção nacional.

Em entrevista reveladora ao jornalista Mohamed Bouhafsi, na RMC Sport, Valbuena contou detalhes da sua carreira, dos trotes pesados no Olympique de Marseille à exclusão da seleção francesa, passando, claro, pelo caso da sex tape.

Para quem não lembra, em 2015, Valbuena e Benzema ambos faziam parte da seleção, até que o meio-campista passou a ser chantageado por um homem que dizia ter em sua posse um vídeo pornográfico em que Valbuena aparecia. Acontece que o chantagista era um amigo de infância de Karim Benzema, e este passou a intermediar as negociações entre o companheiro de equipe e o amigo de longa data.

Na entrevista à RMC Sport, Valbuena falou sobre o período. À época no Lyon, o meia encontrava dificuldades para achar uma casa, morando em um hotel por até seis meses. Sua vida já não estava fácil, e o caso da fita só piorou tudo. “Antes da lista do Deschamps (para a Euro 2016), houve o caso (da sex tape), que vazou (para a mídia), e eu já tinha avisado minha família e todos para não serem pegos de surpresa. Isso aconteceu quando eu estava em Lyon, que já estava complicada, com tudo caindo sobre mim”, relembra.

Como seria de se imaginar, Valbuena confirma que a situação foi ainda mais difícil para a família dele, e isso o deixou sem opções senão ser forte. “O mais difícil de encarar, mesmo que eu não demonstrasse, era ouvir tudo que diziam sobre essa sex tape. Ouvíamos de tudo, muita bobagem. É isso que machuca. No fim das contas, não dá para impedir as pessoas de pensarem tal ou tal coisa, só eu sei o que se passou. Não posso dizer mais do que isso”, encerra.

O mais duro a ele, Valbuena, pessoalmente, foi como, mesmo sendo vítima, ele acabou “duplamente punido”, já que Deschamps parou de convocá-lo, inicialmente sob o pretexto de protegê-lo – o último jogo de Valbuena com a camisa da França aconteceu em outubro de 2015.

“Isso é o que mais me fez mal. Não acho que mereci isso, fiz muito pela seleção francesa. Na convocação seguinte (à sex tape), o Deschamps me ligou para me dizer que não me levaria, só para me proteger. Fui duplamente punido por algo de que fui vítima. Doeu não fazer mais parte da seleção de forma injusta. Hoje, é uma pena, e isso me entristece.”

Valbuena havia trabalhado duro para chegar à seleção francesa. Diferentemente da maioria dos jogadores convocados, o meia nunca havia passado pelas equipes de base dos Bleus. Sua convocação aconteceu devido ao nível que apresentava no Olympique de Marseille, equipe à qual chegou em 2006, aos 21 anos, vindo do modesto Libourne, que ajudara a levar a uma inédita participação na Ligue 2.

A primeira convocação veio em 2008, chamado por Raymond Domenech, mas sem ganhar minutos em campo devido a uma lesão. Depois, foi ser convocado de novo só em 2010, mas aí fazendo sua estreia. Dali pra frente, esteve entre os chamados para as Copas do Mundo de 2010 e 2014, além da Euro 2012.

Apesar de ter se tornado por fim ídolo no Olympique de Marseille, onde ficou de 2006 a 2014, o começo na equipe do sul da França foi bastante difícil, e Valbuena acredita que isso tem a ver com sua baixa estatura.

O meia revela a Mohamed Bouhafsi que sofreu trotes constantes por parte de seus então novos companheiros. Ele diz não ser contra trotes, mas que isso se torna um problema quando é o tempo todo.

“Às vezes, você aceita com prazer. Houve outras vezes que foram incômodas. Mas eu não dizia nada. Não foi fácil. Porque, quando você chega do Libourne, ninguém te conhecem. É difícil ser confrontado por essas pessoas que já têm um nome. Não dá para revidar, e eu deixei que me tratassem assim.”

“Quando você estaciona, quer pegar seu carro de volta, não o vê mais e te dizem que está no estacionamento dos reservas, com as janelas abertas e jornais dentro, é difícil de aceitar. (…) Eu estava infeliz, às vezes chorava”, relembra.

“Parto do princípio de que não gosto de fazer aos outros o que não gostaria que fizessem comigo. Posso colocar sal no seu prato, isso eu já fiz, mas quando é o tempo todo…”

Mais de 13 anos depois, Valbuena entende que isso acontecia por sua vulnerabilidade no momento – e também pela maneira excessivamente respeitosa com que olhava para os companheiros já consagrados.

“Faziam isso porque eu era jovem, pequeno e não podia me defender. É isso que me travou um pouco, eu não queria criar caso. Se eu tivesse 1,85, não fariam isso comigo após o primeiro dia. Eu era mais vulnerável. É muito fácil atacar uma pessoa mais frágil. Também me faltava personalidade. Eu olhava para eles com muito deslumbre.”

Independentemente do que se passou nos bastidores, Valbuena conseguiu se consolidar como um dos grandes da história recente do Olympique de Marseille. Quanto à seleção francesa, sabe há algum tempo que não tem mais chances de um retorno – e admite até que, se os Bleus vencessem a Euro 2016 sem ele, teria ficado consternado.

“Tendo dado tudo pela seleção francesa, eu gostaria de ter tido uma outra convocação. Já falei disso com o Didier (Deschamps). A seleção francesa está no meu passado. Eu tinha a esperança de voltar se eu fosse bem no Lyon, mas no começo com o Fenerbahçe eu entendi rapidamente que estava acabado. Tive que digerir isso. Levou tempo. Não escondo que, se a França tivesse ganhado a Euro (2016), eu teria ficado muito nervoso.”