Quando um clube grande cai para a segunda divisão pela primeira vez, a torcida apoia, lota os estádios e tenta levá-lo de volta à elite com a força de abraços e cantos. No segundo rebaixamento, a atitude muda. Fica mais severa. Lembra uma mãe supervisionando o filho travesso que não fez a lição de casa e bombou em um exame. O clube-criança precisa fazer apenas o mínimo para ser feliz, para deixar a mãe feliz. Mas, quando a criança tira apenas a média e passa por um triz, num teste fácil, a bronca é inevitável. Não há outro jeito de descrever o Vasco senão apelando para a metáfora escolar. As vaias são tão merecidas quando o corte do videogame até janeiro. É da vida, camarada.

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Só que há dois jeitos de entender a vaia. Uma é cornetar a torcida, dizendo que são uns mal agradecidos. A outra é usar as vaias como ponto alto de um ano desleixado. As vaias mostram que a torcida se importa, que conhece a grandeza do time e do que ele é capaz. A diretoria e a torcida do Vasco deveriam transformá-la em trilha sonora do CT até que o clube pare de oscilar tanto. Elas são o ponto alto de um ano desleixado – e podem ser o ponto de partida para dias melhores.

O descaso

O Vasco parece ter adotado a lei do mínimo esforço em 2014. Tanto é que se tornou o time grande com a pior campanha na Série B desde que o novo regulamento foi adotado, como mostramos no começo do mês. O sábado de acesso e vaias foi apenas mais um capítulo dessa história de desleixo.

O time subiu no último sábado com o empate por 1 a 1 contra o Icasa porque não tinha ninguém para subir no seu lugar. Os principais adversários pecaram pela inconsistência, da derrocada inesperada do Ceará à ascensão tardia do Boa Esporte no final do torneio. Tanto que a diferença do quarto colocado para o oitavo é de apenas dois pontos. Sim, o Vasco poderia ter ficado de fora.

Nesse perde e ganha, a estrutura, a camisa e o elenco com alguns jogadores acima da média (embora alguns deles, como Kleber e Douglas, estejam longe do auge) fizeram a diferença, independente dos erros. E como houve erros. A campanha no Campeonato Carioca, derrota na final para o Flamengo após dois empates, pode ter iludido a diretoria a continuar apostando em Adilson Batista, um técnico que prometeu muito no começo da carreia, mas não faz um bom trabalho há bastante tempo. Contra adversários apenas medianos, o Vasco penava como em uma semifinal de Libertadores. O começo da campanha foi muito ruim, com apenas duas vitórias em oito rodadas.

A pausa para a Copa do Mundo estava chegando, e Adilson foi mantido no cargo mesmo assim. Teria um mês para trabalhar e arrumar o time. De certa forma, conseguiu. Os resultados melhoraram bastante. Emendou uma sequência de cinco vitórias e dois empates depois do Mundial. Mas então veio uma derrota para o Vila Nova, um empate contra o Icasa e a maior humilhação: a goleada do Avaí por 5 a 0, em São Januário, o placar adverso mais amplo de um grande na história da Série B.

Assumiu Joel Santana. O experiente treinador não trabalhava desde que deixou o Bahia, ano passado, e nunca foi um grande estrategista, mas fez o que sabe fazer melhor: mudou o ambiente do clube, conversou com os jogadores e os resultados vieram. Foram apenas três derrotas em 17 partidas pela Série B e o acesso garantido a uma rodada do final. E agora quer ficar para o ano que vem. “Eu entrei em um momento de alta dificuldade. Agora, no filé mignon, vem outro? Só o osso fica com o Papai? Também gosto de filé mignon”, disse. Papai Joel ou qualquer outro técnico terá um elenco de 78 jogadores ano que vem, grande evidência de que não houve nenhuma estratégia na montagem do elenco, mesmo com um executivo de futebol renomado como Rodrigo Caetano na folha salarial.

A cereja no bolo para o ano do Vasco foi a ressurreição de Eurico Miranda, um desses retornos políticos que apenas uma gestão tenebrosa como a de Roberto Dinamite permite. Com seu indefectível charuto, prometeu devolver o Vasco à grandeza, e sabemos que isso significa “custe o que custar”. Lembrando que o primeiro rebaixamento cai muito na sua conta, entre outros probleminhas.

O futuro

O pior de tudo isso foi o desperdício. O Vasco não usou um campeonato com adversários teoricamente de nível inferior para construir as fundações de um Vasco gigante novamente. Martin Silva, Guiñazu, Thalles, Rodrigo e Maxi Rodriguez talvez sejam os únicos destaques que o clube pode levar para a elite. A formação do time começa novamente.

Por tudo isso, as vaias que recebeu da torcida no jogo do acesso contra o Icasa realmente condizem muito mais com a temporada que o time teve do que qualquer festa.

Que o Vasco-filho escute a mãe. Caso contrário, o mundo sem videogame pode virar um colégio interno daqueles de deixar traumas para o resto da vida. Poucas vezes as vaias foram tão didáticas quanto as deste sábado.

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