VAI, CORINTHIANS

LEONOR MACEDO

Me lembro como se fosse ontem de uma conversa que eu, Grude, Dog e Pulguinha tivemos em uma manhã fria de uma semana qualquer na padoca do lado dos Gaviões da Fiel. Era 2000 e poucos, não sei ao certo, mas sonhávamos lá atrás com hoje, com esse dia que chegou.

– Imagina como é que vai estar a cidade no dia em que o Corinthians chegar à final da Libertadores? – o Dog perguntou.

Engolindo o meu pãozinho, fiquei ali parada por alguns minutos, sonhando e tentando imaginar como seria.

E hoje, no dia dos últimos 90 minutos do campeonato, sinto que é como se fosse o meu momento particular com o Corinthians. Um dia de tê-lo só pra mim. É como se o Corinthians fosse tão absolutamente gigante que pudesse se dividir em um para cada um dos 30 e tantos milhões de corinthianos que existem pelo mundo.
Como se, ao soar o apito do árbitro, os jogadores suassem sangue em campo porque eu estou ali, na arquibancada, gritando, chorando e sorrindo pelo Corinthians. Como se cada gol fosse dedicado a mim, como um prêmio por toda a minha caminhada alvinegra até aqui.

Hoje é o dia de todo o corinthiano ter um Corinthians só pra ele. E no meu dia com o meu Corinthians, eu só penso em agradecer por quem fez parte de tudo isso comigo até aqui (e a quem estará nos próximos 70 anos da minha vida corinthiana, ao meu lado).

Ao meu tio, por ter me levado pela primeira vez ao jogo, ainda pequenina. Aos meus pais, por me deixarem viver o Corinthians todos os dias. Ao meu irmão, por ser meu novo companheiro de bancada e por ser meu maior parceiro na vida. Ao meu filho, simplesmente por ser corinthiano (e o mais amado dentre todos eles).

Aos meus amigos, por estarem comigo sempre, na chuva, no sol, na fila (e agora no F5), no avião, no busão, no Pacaembu ou em qualquer outro estádio, no Brasil ou na puta que pariu, na cachaça, na cerveja, na mandinga, no sinal da cruz, no radinho de pilha, no silêncio, no choro sentido, no sorriso rasgado, na vitória ou na derrota. Obrigada por estarem comigo nesse dia e em todos os outros.

Vai Corinthians! Jogai por nós!

BOCA ES UN SENTIMIENTO

ANAMARIA BACCI

Torcer pro Boca é muito legal. “Boca es sentimiento, Boca es pasión”, como diz a letra cantada pela 12, a torcida xeneize, e com toda razão, já que é mesmo como se fosse mais um jogador
dentro do campo.

Torcer pro Boca é muito bom, pois é uma relação de amor recíproca. Você ama e é amado. Você torce e é correspondido. Você sofre, mas no final vale a pena. O hincha se sente
recompensado porque tem muitos títulos.

Virei bostera por causa do meu marido, claro, argentino. E aprendi com ele a ser fiel ao Boca: um dia meu filho do meio apareceu em casa com um papel pra encapar o caderno com o
escudo do Estudiantes de La Plata (como vivemos na cidade dos “pinchas”, nada mais normal). O pai não teve dúvida – direto pro lixo. Uma a zero pra democracia!

No Brasil tudo acontece antes ou depois da novela das 8. Aqui é antes ou depois do futebol. Acho que o argentino é mais fanático, mais “doente” por futebol que qualquer outro. E olhe lá
se seu time perder. Meu marido já chegou até a chutar o televisor.

Franco, meu mais novo, treina futebol 3 vezes por semana e ai de mim se a camiseta do Boca não estiver lavadinha, pronta pra ele usar. Nem adianta querer trocar, parece pintada na pele.
O material escolar também tem que ser do Boca, tudo azul e amarelo, e se tiver o escudo melhor ainda. O caderno de classe desfila com a foto do ídolo Riquelme na capa.

Na hora de comprar bola, meia, camiseta e acessórios pro futebol, também em que ser das cores do time. Quando tem aniversário entre a molecada é comum dar pro felizardo algo com
o escudo do seu time (ou do Boca pra sacanear, afinal é o time que mais vitórias tem). O bolo, a velinha, assim como toda a decoração da festa, incluindo bexigas e guardanapos, também
devem ter os motivos do time. Aqui na terra dos Pinchas é bem mais fácil encontrar artigos do Estudiantes, mas como o Boca é a Mitad más uno, sempre se acha!

Divertido é reunir a moçada em bar pra ver jogo. Uma farra! Mas a gente tem que se infiltrar, – esse é o lado negativo – na Argentina mulher não se mistura com futebol. Meu marido
(assim como a maioria dos argentinos) acha que a mulherada não entende nada (e pode até ser verdade) e não deve participar nem dar palpite na hora do jogo. Tanto é que no último
que teve no estádio Único, eu toda contente achando que ia assistir e que nada, não me convidaram…era só pra os caras….Ah, tem coisa mais sem graça deixar a gente de fora? Pelo
menos no Brasil fica todo mundo junto.

Na verdade ser esposa e mãe de bostero é um prazer, o time, joga bem, ganha sempre, tem raça, que mais a gente pode querer?

Tem quem diz que é culpa da “buena racha” que nos acompanha há vários anos. Há quem diga que é talento mesmo.

Sempre fui tricolor de coração, mas confesso que sinto muito prazer hoje sendo metade Boca Jrs. – arrepia até o último pelinho do braço quando faz gol. A torcida te contagia, não tem jeito.
Meus amigos me perguntam “Como você pode torcer pra um time que não seja brasileiro?” Claro, numa final de campeonato, qualquer vencedor é válido desde que seja do Brasil. Sei lá,
no começo até me dava um pouco de vergonha, mas depois vi que mesmo sendo brasileira, podia me apaixonar por um estrangeiro, exatamente como aconteceu na minha vida amorosa,
e tenho que reconhecer:

Nada se compara à explosão de emoção que acontece na Bombonera em dia de jogo. É algo que não se pode descrever. A torcida xeneize é demais!!