A conquista do Brasileirão de 2015 já tinha servido para Vágner Love ocupar um lugar especial no coração da torcida do Corinthians. Não importava qual camisa o atacante vestira no passado ou mesmo as dores que havia infligido nos alvinegros, seus tentos naquela campanha embalaram o feito – com direito ao gol do título. Aos 34 anos, o retorno do veterano poderia ser visto com desconfiança. Mas a estrela do artilheiro outra vez brilhou, definitivamente. Difícil encontrar um momento a ser mais lembrado que um gol decisivo, de campeão, nos minutos finais. Para desencadear um terremoto em Itaquera, diante de um desfecho tão incerto na final do Campeonato Paulista. Em cima do São Paulo, com a vitória por 2 a 1, os corintianos são tricampeões estaduais. Sem apresentar um futebol brilhante, mas confiando nas velhas referências. Love outra vez entre elas.

Que o Corinthians de Fábio Carille seja quase uma antítese de time ofensivo, não faltam opções à linha de frente. Se há um setor bem servido no elenco é o comando do ataque. Gustagol voltou em uma fase esplendorosa, Mauro Boselli tinha a sua reputação internacional a seu favor. E o passado referendava Vágner Love. Porém, se a dificuldade para competir com Gustagol afastou o veterano de sua posição tradicional, seu espírito voluntarioso ainda pesa para ser importante na rotação. Saindo do banco ou atuando pelos lados do campo, é uma peça utilizada com frequência na equipe.

Não é um reinício tão prolífico a Vágner Love. Até a decisão do Paulistão, o atacante havia anotado dois tentos neste início de ano. Balançou as redes contra o Racing, pela Copa Sul-Americana, e também diante do Ceará, na Copa do Brasil. Permanecia em branco no Paulistão. Mas a um cara que sabe de cor os atalhos nos arredores da área, o momento sempre acaba chegando. E nestas finais sofríveis contra o São Paulo, não poderia ser mais providencial.

Se os gols faltaram no primeiro jogo, a impressão de que os goleiros dificilmente seriam desafiados permaneceu em Itaquera. A história só começou a mudar por causa de bons personagens, prontos a despontar nesta final. Danilo Avelar é uma figura intrigante deste Corinthians. Alvo de ódio durante meses, sobretudo por suas dificuldades defensivas, acabou se transformando em um talismã recentemente e a fase inspirada também o ajudou a melhorar o nível. Abriu o placar aos 31 minutos. Todavia, o São Paulo também elegeu o seu xodó, Antony. O garoto que maravilhou na Copinha e que ajudou a mudar os rumos do time neste Paulistão, sem sentir o peso da responsabilidade. Um tento diante da torcida alvinegra não poderia ser menos emblemático, e ele saiu em uma bela jogada, para deixar tudo igual nos acréscimos do primeiro tempo. A indefinição era o mote deste clássico.

Ao longo do segundo tempo, poucas pistas de que os times estavam dispostos a mexer no placar. A tensão congelava dois rivais mais temerosos a perder que dispostos a ganhar. Até que um lance acabasse evitando os pênaltis, quando menos se esperava. Sornoza não é um jogador constante, por vezes sofre para acompanhar o ritmo dos jogos. Mas não se nega que ele bate na bola como poucos. E isso valeu demais ao Corinthians, aos 43 do segundo tempo. Conectou-se com Vágner Love, velho conhecedor dos caminhos da Arena, pronto a dar o bote. O veterano tinha entrado com muita vontade e pegada no segundo tempo. Tinha a energia preservada para ganhar da marcação e acertar um lindo chute de primeira. O gol que garantiu o título. A loucura (finalmente) tomaria a partida depois disso, mas nada que atrapalhasse a conquista.

A velha guarda do Corinthians, aliás, acaba merecendo elogios neste Paulistão. Cássio encaminhou o time à final, embora não tenha sido tão testado pelo São Paulo. Ralf lembrou os seus melhores tempos neste domingo em Itaquera, um leão no meio-campo. E a cereja do bolo foi mesmo Vágner Love. Seja pelas opções ou pela idade, os alvinegros têm consciência que o atacante será um jogador para momentos pontuais. O cara de talento, experiência e sangue nos olhos em quem podem confiar. Assim foi em um clássico, na decisão, em condições elevadas de temperatura e pressão. Natural que as câmeras se voltassem a ele depois do jogo.

Este Paulistão tem um significado especial ao Corinthians, dentro de seu contexto histórico. É o 30° título do clube, em seu quarto tricampeonato. Deixou rivais pelo caminho, em um momento de dúvida. E valorizou alguns ícones, colecionando novos lances especiais. Ainda é pouco à pretensão que o clube precisa ter, ou mesmo para o desenvolvimento do time, aquém de agradar a sua própria torcida. Mas está lá, o brilho da taça, o ano nos registros. À torcida, o gol explosivo de Love, lembrança inescapável quando se falar deste jogo.