Liverpool e Manchester United vêm há anos trabalhando por trás das cortinas em uma proposta que mudaria profundamente a estrutura do futebol inglês. Chamada de Project Big Picture, a novidade traz uma série de pontos positivos que parecem ter sido colocados no todo apenas para suavizar o impacto de outros elementos do texto, que veio à superfície no domingo (11) na Inglaterra. Em sua medida mais controversa, muda o número de equipes com direito a voto de 20 para nove, seis delas sendo fixas – Liverpool, Manchester United, Arsenal, Chelsea, Manchester City e Tottenham. Nesta nova configuração, bastariam seis votos para aprovar mudanças e decisões. Em poucas palavras, é uma tomada de poder por parte do Big Six que oferece uma generosa contrapartida imediata, mas com consequências potencialmente nefastas para o equilíbrio do futebol no país em que o esporte foi inventado.

Usando a crise financeira consequente do Coronavírus como oportunidade para avançar suas ideias, United e Liverpool apresentaram um plano que, em primeiro lugar, ofereceria um resgate de £ 250 milhões a ser distribuído entre os clubes da English Football League (EFL), entre a segunda e quarta divisões inglesas, além da distribuição de 25% das receitas com direitos de transmissão à EFL. Outros £ 100 milhões seriam pagos à FA para compensar perdas financeiras do período de pandemia.

Os entusiastas do plano apontarão para o fato de que Liverpool e United estão fazendo o que a Premier League e o governo britânico falharam em fazer até agora: apresentar uma proposta para salvar os clubes menores do futebol inglês da ruína. Já está em andamento, de fato, uma narrativa que coloca este como o ponto principal do plano, mas ela ignora os elementos que explicam o interesse dos gigantes em ajudar os pequenos. Não existe almoço grátis, e, neste caso, o potencial de a conta sair cara é bem alto.

A Premier League seria diminuída de 20 clubes para 18. Championship, League One e League Two, cada uma, teria 24 times. Os dois últimos colocados da Premier League seriam rebaixados automaticamente, enquanto o 16º colocado enfrentaria 3º, 4º e 5º colocados da Championship em um playoff para definir a última vaga na primeira divisão.

Entre os diversos pontos positivos aos clubes do Big Six estão propostas que, sinceramente, não parecem tão absurdas, têm pontos defensáveis e apenas aceleram o fluxo das coisas, como o fim da Community Shield e da Copa da Liga Inglesa, que daria um respiro às equipes participantes de competições europeias além de abrir mais datas para jogos dos torneios da Uefa quando for feita a sua expansão e a criação de uma terceira competição. O próprio ponto do resgate aos clubes menores é muito positivo, mas vem com condições perigosas.

O Project Big Picture acaba com o sistema atual de votação da Premier League, em que os 20 clubes da primeira divisão têm poder de voto igual e em que são necessários 14 votos para aprovar qualquer medida. Em sua proposta, apenas nove clubes teriam direito ao voto: os Big Six (Manchester United, Liverpool, Manchester City, Arsenal, Chelsea e Tottenham) e os três clubes de maior participação recente na primeira divisão. Atualmente, Everton, West Ham e Southampton.

No novo sistema, as votações precisariam de dois terços dos votos para que decisões fossem tomadas. Ou seja, a vontade do Big Six como bloco sempre prevaleceria. Aumentar o número de substituições, mesmo que isso aumente a distância entre os mais ricos e os mais pobres? Claro! Levar jogos para o exterior? Por que não?! Mudar a divisão de receitas de TV e dar mais dinheiro ao Big Six, afinal são eles quem mais atraem os telespectadores? Feito! Proibir a compra de um clube por parte de um bilionário que ameaçaria a hegemonia atual? Para já! Enfim, você consegue imaginar aonde isso poderia chegar.

É preciso também, é claro, ter a opinião pública a seu favor, e qual a melhor maneira de fazer isso senão oferecendo aos torcedores uma das principais demandas dos últimos anos, até agora ignorada? No projeto, seria estabelecido um teto de £ 20 para os ingressos de visitantes. Mais uma vez, algo que, apresentado sem condições, é muito bem-vindo, mas que aqui parece apenas a compra de um cala-boca.

Há também aqui questões esportivas que não podem ser ignoradas. O fim dos ‘parachute payments’ (‘pagamentos de paraquedas’, em tradução livre), bônus aos clubes rebaixados da Premier League à Championship, é algo que é discutido há muito tempo por distorcer a competitividade da segunda divisão. Por outro lado, sem eles, clubes recém-promovidos à Premier League não terão a mesma condição de se reforçar ao alcançar a elite, já que não terão como garantir o pagamento dos salários em caso de rebaixamento.

Ela acabaria com os ‘parachute payments’ a equipes rebaixadas para a Championship. Se, por um lado, isso aumenta a competitividade na segunda divisão, diminui significativamente a capacidade de equipes recém-promovidas à PL de contratar jogadores de alto nível para a disputa da elite, já que não teriam como garantir seus pagamentos em caso de rebaixamento.

As ideias principais do Project Big Picture

  • Premier League reduzida de 20 a 18 equipes.

  • Dois últimos colocados rebaixados à Championship, com o 16º colocado jogando com 2º, 3º e 4º colocados da segundona para definir a vaga final na elite.

  • Fim da Copa da Liga Inglesa e da Community Shield.

  • Resgate imediato de £ 250 milhões às equipes da English Football League.

  • Pagamento de £ 100 milhões à FA.

  • Direito de voto a apenas nove clubes da primeira divisão: o Big Six + três clubes de maior participação recente na Premier League.

O conjunto de ideias vem sendo trabalhado pela família Glazer, proprietária do Manchester United, com John W. Henry, dono do Liverpool, há cerca de três anos, segundo o site The Athletic. Mais recentemente, o Chelsea esteve envolvido na formulação do plano, que contou ainda com a atuação de Rick Parry, presidente da English Football League, órgão à frente da segunda, terceira e quarta divisões inglesas.

United e Liverpool (e o restante do Big Six) aproveitam a incapacidade do governo e da Premier League de achar uma maneira de garantir a sobrevivência do restante da pirâmide do futebol inglês para enviar a sua proposta, em um timing quase indecente.

Vale apontar que a Premier League havia informado que estava esperando a conclusão da temporada passada e, consequentemente, a confirmação de que não perderiam as receitas dos direitos de transmissão, para iniciar as conversas com a English Football League para um resgate aos clubes da parte de baixo da pirâmide. Segundo escreve o Athletic, a Premier League vinha sentindo uma falta de envolvimento da EFL nas conversas, que começaram há cerca de um mês. Agora ela sabe que é porque o presidente da EFL, Rick Parry, já estava em conluio com os gigantes da primeira divisão.

Parry tem sido especialmente alvo de críticas do restante dos clubes da Premier League por ter supostamente sugerido a United, Liverpool e o restante do Big Six que deixem a liga e se juntem à EFL caso a proposta não seja aprovada em votação entre os 20 clubes.

A maneira como as coisas foram conduzidas é alvo de críticas, e é compreensível. Se tivessem as melhores intenções em mente, o restante dos clubes da Premier League não teria descoberto sobre os planos apenas pelos jornais no domingo. Uma fonte ouvida pelo The Athletic de uma das equipes da primeira divisão afirmou: “Isso nunca foi mencionado a nós. É por isso que é uma desgraça. A mesma coisa de sempre. Clubes grandes maquinando maneiras de manter o dinheiro e o poder. Os outros clubes cairão matando para cima de Woodward”.

Parry, presidente da EFL, afirmou que clubes da Championship estavam de acordo com o projeto, mas o Athletic ouviu de ao menos um clube da segunda divisão uma oposição firme à proposta: “Efetivamente, isso irá cristalizar o poder do Big Six perpetuamente e também levar à formação de uma Premier League 2, com uma distância maior para a League One (terceira divisão). Ainda faltam os detalhes, mas o timing é uma clássica exploração da crise de curto prazo, jogando alguns ossos para suavizar a transição”.

Atualmente, clubes da Premier League recebem 92% das receitas distribuíveis da liga. Na nova proposta, ficariam com 75%, com 25% indo para os clubes da English Football League. Isso significaria um aumento de £ 15,5 milhões para cada clube da Championship; £ 3,5 milhões para cada clube na League One; e £ 2,3 milhões para cada clube da League Two. Esses números, no entanto, são relativos ao acordo atual de direitos de transmissão. Com menos clubes e, consequentemente, menos jogos, o dinheiro da TV seria também menor.

A Premier League e o governo britânico, por sua parte, também expressaram sua oposição ao Project Big Picture, condenando a elaboração a portas fechadas do plano. A liga afirmou que o futebol tem várias partes interessadas, então “este trabalho deveria ser conduzido pelos canais apropriados, dando a todos os clubes e acionistas a oportunidade de contribuir. No ponto de vista da Premier League, uma série de propostas individuais do plano publicado hoje (domingo) poderia ter um impacto prejudicial ao esporte como um todo, e estamos decepcionados em ver que Rick Parry, presidente da EFL, tenha dado seu apoio publicamente”.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte do governo britânico atacou a proposta: “Estamos surpresos e decepcionados que, em um momento de crise, em que pedimos que as camadas superiores do futebol profissional se juntassem e finalizassem um acordo para ajudar os clubes de ligas menores, pareçam haver acordos de bastidores sendo preparados que criariam um clubinho fechado na elite do jogo”.

O que vem por aí agora será uma guerra de versões e narrativas na opinião pública, e ela já está acontecendo. Jonathan Walters, ex-jogador com passagens por Stoke City, Burnley, Hull e uma série de clubes ingleses, criticou o projeto que “apenas beneficiaria o topo da pirâmide”. Já Gary Neville, ídolo do Manchester United e hoje comentarista, reconheceu, com bastante eufemismo, que havia “partes da proposta que precisam de negociação”, mas destacou o lado do resgate financeiro imediato: “Há muita coisa boa neste plano para simplesmente o descartarem”.

Para que seja aprovado, o projeto precisará ser aprovado por 14 dos 20 clubes da Premier League. Inicialmente, é difícil visualizar como algumas das equipes poderiam efetivamente votar em algo que, a longo prazo, lhes será prejudicial. Mas vemos coisas mais estranhas acontecerem o tempo todo, não é mesmo?