O Liverpool lidera a Premier League e tinha a possibilidade de igualar o recorde de vitórias consecutivas pelo Campeonato Inglês, se vencesse em Old Trafford, enquanto o Manchester United está em crise, com o treinador pressionado e muita dificuldade para fazer gol. Como igualar um clássico entre times em fases tão diferentes? Ole Gunnar Solskjaer teve uma estratégia e a aplicou quase à perfeição. Em um momento de vacilo, no entanto, Adam Lallana apareceu livre na segunda trave para arrancar o empate por 1 a 1.

Não foi uma estratégia super-elaborada do norueguês: defender bem e contra-atacar. Mas fazia sentido, provavelmente ciente da dificuldade recorrente do Liverpool de furar defesas fechadas e também que contaria com velozes atacantes contra um sólido sistema defensivo, mas cujas peças estão um pouco abaixo da excelência que já mostraram, especialmente Virgil Van Dijk.

E houve também uma ligeira diferença de postura. O Manchester United encarou a ocasião como um jogo de vida ou morte, porque provavelmente era mesmo. Uma derrota pesada poderia ser, na prática ou no simbolismo, o fim do trabalho de Solskjaer. Para o Liverpool, era uma partida importante, um clássico, uma chance de fazer história, mas está em uma maratona, com olhos no troféu da Premier League, em maio.

O problema, porém, é que o jeito como o Manchester United funciona com margens pequenas. As poucas oportunidades na frente precisam ser aproveitadas e, atrás, o erro tem que ser próximo de zero. E se Rashford foi eficiente para completar a melhor chance do jogo, uma desligada na retaguarda custou a vitória.

O clássico teve surpresas antes de a bola rolar. Jürgen Klopp havia dito durante a semana que Alisson Matip e Salah eram dúvidas para a partida e suas escalações dependeriam dos treinos prévios. Os dois primeiros estiveram entre os titulares, enquanto o egípcio nem no banco de reservas ficou. No lado do Manchester United, a carta na manga de Solskjaer foi David de Gea começando a partida.

O treinador norueguês escalou o United com três zagueiros e laterais formando uma linha de cinco sem a bola, tentando anular o Liverpool primeiro e buscar a velocidade dos de Rashford, Daniel James e mesmo dos alas Ashley Young e Wan-Bissaka no contra-ataque. Sem Salah, os visitantes tiveram Origi pela esquerda e Mané pela direita.

Os primeiros 30 minutos foram bem travados. Nenhum dos dois times teve muitos espaços ou inspiração, com erros técnicos no campo de ataque. As primeiras finalizações, uma para cada lado, saíram de fora da área, sem problemas para o goleiro. Pouco depois, o Liverpool começou a ficar um pouco mais saidinho.

Em contra-ataque puxado por Mané, Firmino recebeu livre dentro da área, mas bateu fraco e facilitou a defesa de De Gea. Na sequência, cabeceou para ótima intervenção do espanhol, mas estava em posição de impedimento.

Mas clássico tem dessas. Origi perdeu a posse no campo de ataque, e o United esticou rápido com Daniel James pela direita. Matip errou um corte e Rashford apareceu dentro da área para completar o cruzamento rasteiro e fazer 1 a 0 para o Manchester United. Se a ideia era esperar o momento certo para dar o bote em velocidade, ela funcionou perfeitamente no lance do gol.

Os jogadores do Liverpool reclamaram bastante de falta de Lindelöf em cima de Origi no começo da jogada, e ela realmente parece ter acontecido. No entanto, trata-se de um lance mais interpretativo do que objetivo e, após revisão do assistente de vídeo, foi mantida a decisão de campo.

A dinâmica do jogo se acentuou no segundo tempo, quando os maiores problemas dos dois times ficaram evidentes. De um lado, o Manchester United teve algumas escapadas, não as finalizou bem – três chutes, todos para fora – e chegou ao 11º jogo seguido nesta temporada sem fazer mais de um gol. A única exceção foi o 4 a 0 sobre o Chelsea, na estreia.

No outro, quando o adversário se fecha, seja o Sheffield United ou o Manchester United, o Liverpool tem dificuldades. Depende muito da criatividade dos seus laterais, que não estiveram no melhor dos dias, ou da individualidade do trio de ataque, desfalcado por Salah e com Firmino um pouco abaixo. Sadio Mané foi o que mais tentou.

A posse de bola do Liverpool foi esmagadora no segundo tempo, 78%, mas houve poucas finalizações ou momentos de perigo, até os 40 minutos do segundo tempo, quando Robertson cruzou da esquerda e a bola passou por todo mundo – inclusive Firmino – e encontrou Lallana livre na segunda trave.

Após o empate, o Liverpool parece ter recebido uma injeção de ânimo e chegou a ficar próximo da virada com aproximadamente dez minutos daquela pressão em que cria muito volume de jogo, com a bola frequentemente cruzando a área e vários jogadores no campo de ataque. Chamberlain fez os corações dos torcedores da casa pularem uma ou duas batidas com um chute cruzado e houve um forte pedido de pênalti por uma bola que bateu no ombro de Fred.

No esquema geral das coisas, um ponto em Old Trafford está na conta do Liverpool até que porque não ganha na casa do rival desde 2014. O recorde de vitórias consecutivas não veio, mas a invencibilidade pela Premier League mantém-se desde janeiro, 26 partidas a partir da derrota para o Manchester City, a seis pontos de distância.

No entanto, as atuações mais recentes não têm sido inspiradas. Perdeu para o Napoli, teve problemas contra o Chelsea, precisou de uma falha clara de Dean Henderson para bater o Sheffield United e de um pênalti duvidoso no fim para superar o Leicester e dormiu no ponto contra o Red Bull Salzburg. O alento é que mesmo assim os resultados têm aparecido, sintoma de um grande time.

Solskjaer ganha uma sobrevida. O Manchester United fez uma boa partida, dentro das suas possibilidades do momento, mas o torcedor tão acostumado a ter possibilidades muito maiores do que apenas defender e especular no contra-ataque se pergunta quando o seu time conseguira encarar os grandes novamente de igual para igual.

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