Nenhum dos quatro grandes clubes de São Paulo conseguiu ganhar um título em 2014. Palmeiras, Corinthians, Santos e São Paulo ficaram pelo caminho em todas as competições que disputaram, o que significa que a maioria dos torcedores do estado não comemorou a conquista de um troféu nos últimos meses. Na capital, nenhum, exceto pelos poucos, bravos e apaixonados fãs do Nacional, campeão da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, o equivalente ao quarto nível do futebol estadual.

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O Nacional é um simpático clube da Barra Funda, zona oeste da capital, no lado oposto dos centros de treinamento de Palmeiras e São Paulo na Avenida Marquês de São Vicente. Foi um dos fundadores da Federação Paulista e tem quase cem anos de idade. O estádio Nicolau Alayon é um destino comum dos amantes do futebol alternativo, mas não de troféus. Soma dois títulos da Copa São Paulo de Juniores (1972 e 1988) e, no profissional, apenas o bicampeonato da A3 (1994 e 2000), o equivalente à terceira divisão.

“Ainda não tinha caído a ficha que, de todos os clubes da capital, o Nacional foi o único campeão”, admite o diretor de futebol Pedro Pale. “Estamos um pouquinho distante dos grandes times”. Um eufemismo, claro. A folha salarial com a qual Pale trabalha mensalmente representa os vencimentos de um jogador ruim do trio de ferro: R$ 70 mil. E não é nada fácil captar dinheiro na quarta divisão do futebol paulista. Ninguém quer pagar para colocar a marca na camisa do clube porque as suas partidas mal passam na televisão. Segundo o dirigente, foram apenas duas na última campanha, e naturalmente, também não dá para contar com a verba das emissoras.

Com média de público de 284 pessoas durante o torneio, o Nacional arrecadou R$ 23 mil nas 14 partidas que sediou no Nicolau Alayon, um terço de uma folha salarial. No começo do ano, havia uma parceria com uma empresa privada, mas ela foi desfeita em maio. “Fomos rebolando daqui, rebolando de lá e conseguimos reverter a situação”, afirma Pale. As alternativas foram alugar as quadras do clube para o futebol amador e realizar eventos dentro do estádio.

Foi o suficiente para chegar até o fim do campeonato. O Nacional fez uma campanha das mais consistentes. Liderou o seu grupo da primeira fase com oito vitórias e dois empates. Na segunda, escorregou um pouco e se classificou como o terceiro melhor colocado na chave do União São João e do Atibaia, que viria a ser o adversário da decisão. Ficou com o segundo lugar na terceira (não se assuste com o excesso de fases, é a Federação Paulista de Futebol) e venceu o seu grupo na quarta etapa do torneio.

Chegou à final contra o Atibaia com 16 vitórias, oito empates e apenas quatro derrotas. Havia marcado 48 gols e sofrido 22 em 28 partidas. Perdeu por 2 a 1 fora de casa e, no Nicolau Alayon “lotado” por 1.039 pagantes, precisava pelo menos devolver o placar para se sagrar campeão (por ter a melhor campanha, jogava por resultados iguais). O primeiro tempo terminou 1 a 0 para o time do interior. A bronca do técnico Carlinhos no intervalo foi importante, mas também não custa ouvir o conselho de outros especialistas, como fez Bruno Silva, no gol de empate. “Na hora que eu fiz a tabela com o Léo (volante), eu fiquei de costas e não esperei que ele fosse devolver de primeira. Quando o vi devolvendo, a bola passando do meu lado, o goleiro já veio deitando e eu pensei em bater chapado e cruzado, mas Deus falou para mim: ‘dá uma cavadinha aí’. Foi um belo gol”, disse, ao site da FPF. Fernando selou o título.

Criança assiste à final da Quarta Divisão (Foto: Fábio Soares/Futebol De Campo)
Criança assiste à final da Quarta Divisão (Foto: Fábio Soares/Futebol De Campo)

“O treinador conseguiu ter o grupo na mão”, conta Pale. “Falávamos todo dia: se chegarmos ao título e subirmos, a maioria de vocês vai conseguir propostas”. Foi o que aconteceu. Léo acertou com o Penapolense, semifinalista da último Paulistão da primeira divisão, e Fernando foi para o Guarani. O elenco ainda conta com Sócrates, artilheiro da competição com 16 gols, outro que pode atrair interesse. Até porque, até aqui, nenhuma das transferências rendeu dinheiro ao clube. Mas só de estar na A3, já existem novas possibilidades de negócio. “Temos mais credibilidade para falar com as empresas, tanto que já estamos acertando propagandas no estádio”, diz o dirigente.

Muito interessado no futuro está o técnico Carlinhos. Era jogador de futebol e se aposentou no Nacional, em 2004. Como técnico, foi ganhando experiência em Matonense, Guariba, Jaboticabal e Batatais, além de ter sido auxiliar das categorias de base do Corinthians, em 2005, sob a liderança de José Augusto. Chegou ao clube da Barra Funda ano passado para comandar o sub-17, treinou o sub-20 e chegou ao time principal, no qual ganhou seu primeiro título profissional. “Nosso principal objetivo agora é a A3, uma competição mais curta. Já disse para os jogadores que agora é tiro curto”, afirma.

E com a autoridade de ser o único técnico da cidade com um troféu na prateleira em 2014, e dentro dos limites do bom humor, cede uma dica aos seus colegas de São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Portuguesa. “Muito trabalho, muita dedicação. Formar um grupo competitivo que tenham profissionais com os mesmos objetivos que você. Com isso, você consegue o fundamental”, explica. Pedro Pale, também diretor associativo do Corinthians, conhece os meandros do futebol de elite e também tem uma sugestão para os gigantes: união. “O Palmeiras vem de uma eleição, o Corinthians também está dividido (tem pleito presidencial no começo do ano). Acho que o principal problemas são os dirigentes e os conselheiros que ficam a todo momento no estica e puxa, visando interesses próprios. Aqui, não temos isso. São poucas pessoas que comandam e fica muito mais fácil”, encerra.

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