Falar sobre a Ligue 1, o Campeonato Francês, e a Premier League, o Campeonato Inglês, é algo fácil. Conseguimos ver a diferença entre as duas ligas com alguma facilidade. Os ingleses estão em alta no momento, com apenas times do seu país nas finais europeias, mas saber como são as diferenças do ponto de vista de um treinador, é ainda mais interessante. Em entrevista al El Mundo, o técnico Unai Emery falou sobre a diferença entre trabalhar no PSG e no Arsenal.

Um dos aspectos citados é fora de campo, sobre a forma como é tratado fora de campo. Emery, basco e espanhol, não é nativo da língua francesa, que tentou aprender. E nem nativo do inglês, que também tenta aprender, nos dois trabalhos. “Aqui me facilitam as coisas. O Arsenal é um clube muito grande, mas ao mesmo tempo muito próximo e carinhoso. Todo mundo está disposto a ajudar. Respeito é a primeira palavra que se sente”, afirmou o treinador espanhol.

“Eu te dou um exemplo. Quando cheguei a Paris, tentei falar francês e a resposta, sarcasticamente, foi que não falei bem. Em Londres eu uso inglês muito básico e todo mundo sorri para mim e eles me agradecem por tentar”, explica ainda Emery.

“Desde que comecei em Lorca, onde passei de jogador a treinador, tive a sensação de vencer para sobreviver, para evitar ser demitido. Os clubes têm duas portas, uma na frente e outra atrás, e você luta para sair pela primeira. Almería, Valencia … em todos os lugares eu trabalhei com o estresse de ganhar para evitar demissão, para não crescer com o tempo”, contou o treinador do Arsenal.

“Quando cheguei a Paris, as coisas não correram bem no começo e contei a Al-Khelafi. Ele me disse para não se preocupar, era um projeto de longo prazo, dois anos. Nós ganhamos uma liga e duas Copas, mas eles queriam que eu fizesse algo grandioso na Liga dos Campeões. Nós voltamos para a mesma coisa. Eliminamos o Barça e o [Daniz] Aytekin [árbitro do jogo] na primeira temporada, e o Real Madrid na seguinte”, disse.

“Com o VAR, hoje, o Barcelona não teria passado e Real Madrid teria anulado o primeiro gol no Bernabéu. Curiosamente, é o VAR que para o PSG nesta temporada contra o Manchester United. Nós discutimos isso com Al-Khelaïfi quando nos vimos recentemente”, afirmou ainda o treinador basco.

“No Arsenal, tenho a sensação, pela primeira vez, de ganhar para construir, não para sobreviver. Sinto respeito por mim mesmo quando perdemos, mas quero que as derrotas doem mais, porque é um passo para melhorar competitivamente. Eu quero que o luto perca mais de duas horas”, continuou.

“Eu não prometo títulos, prometo competir. O que Wenger fez neste clube foi muito grande. Ele conseguiu dar um toque de qualidade para tornar o jogo mais fluido e colorido, mas pouco a pouco ele perdeu o gene competitivo. Foi o que me foi transmitido e para o que fui contratado quando entrevistei Raúl Sanllehí [diretor de futebol] e os donos. O potencial econômico do United, City ou Liverpool é maior do que o nosso, mas pela história, torcida e estrutura, o Arsenal está entre os 10 melhores clubes da Europa, e temos que colocá-lo lá novamente”, disse Emery.

O Arsenal, na final da Liga Europa, tem a possibilidade de não só ganhar um título, o que é excelente, mas também ganhar de bônus uma classificação à Champions League. Um dos principais nomes do Chelsea é Eden Hazard, que pode se despedir do time azul de Londres. O treinador do Arsenal foi bastante elogioso com o camisa 10 adversário.

“O perigo é um jogador de instantes, mas instantes decisivos. É o que temos que evitar. O Chelsea é capaz de ganhar graças a eles, e essa habilidade eu só vi em Messi, Cristiano, Neymar ou Salah. Para mim, é no quinteto dos melhores do mundo. O City, por exemplo, ganhou sua segunda Premier, mas fez mais com o coletivo. É um time mais coral, como o Tottenham, apesar da contribuição de Harry Kane e Son”, afirmou o espanhol.

Tanto a final da Liga Europa quanto a da Champions League têm finalistas ingleses. Para Emery, isso é fácil de explicar. “A Premier é a mais forte no nível de receitas e tem um impacto direto na contratação. Você pode dizer que nem Messi nem Cristiano, nem Neymar, que eu considero os três melhores, jogam na Inglaterra, algo verdadeiro, mas se vamos para a segunda linha de qualidade, a maioria está aqui”, analisa o treinador.

“Além disso, o Premier é mais versátil em seus modelos, com alguns dos treinadores mais competitivos da Europa, como Guardiola, Klopp, Pochettino ou antes Mourinho. Durante anos, a prioridade era ganhar a Premier, com os torneios continentais em segundo plano. Isso mudou. Agora eles olham mais para a Europa, seus torneios começam a ser mais desejados”, explica ainda o ex-treinador de Valencia e Sevilla.

Ligue 1 x Premier League

O jogo em campo na Premier League e na Ligue 1 são muito diferentes, e isso é óbvio para quem assiste. Emery dá explicações para essa diferença que vemos nos jogos para a parte de preparação dos times nos dois países.

“No futebol inglês atual, jogando como você jogar, com ou sem a bola, você faz com alta intensidade. Não se pode jogar de outra forma: ou é intenso, ou morre. Vencer os duelos individuais é uma prioridade para a maioria dos treinadores, está muito presente no trabalho. A Big Data está nos ajudando a conseguir isso”, analisou Emery.

“Isso significa que não é um futebol técnico? Em absoluto. Isso significa que a qualidade técnica não é suficiente, dado o nível físico que os rivais impõem a você, especialmente fora de casa. Você tem que combiná-lo para manter-se e, em seguida, ter qualidade para impor em uma base regular. Na França, por exemplo, não foi necessário, porque houve poucas partidas importantes e jogamos a temporada em momentos específicos”, explicou ainda o treinador, ex-PSG.

“Essa é a barreira que nós tivemos que quebrar e eu não pude por causa das circunstâncias de que falamos antes. Sua capacidade de ter sucesso ou não se concentrou em momentos. Isso me lembrou o Sevilla, onde o presidente me disse que para os fãs o importante era chegar ao fim, porque eram momentos únicos. A regularidade foi para o segundo plano. Na Premier você é obrigado a ser regular. O futebol espanhol dominou o mundo graças à qualidade, que é o que prevalece. Ele também tem toda a tecnologia que temos na Premier, mas sua intensidade e velocidade são menores. É o que a Europa indica”, contou o espanhol.

Guardiola

O Manchester City de Pep Guardiola foi o grande campeão da Premier League nesta temporada, com 98 pontos conquistados, depois de ter alcançado 100 pontos na temporada anterior. “Pep fez uma mistura. Tem seus princípios sagrados, que não se mexem, mas esses são apenas 50%. Os outros 50% formam o cenário e as variáveis”, explica Emery.

“O City marcou gols com lançamentos longos do seu goleiro, algo impensável no seu Barça, e seu contra-ataque é vertiginoso. Uma das coisas que ele disse logo que chegou foi que ele tinha que ser forte em ambas as áreas e para isso você tem que ser físico. Veja muitas de suas grandes contratações: Stones, Walker, Mendy, Laporte … Quais são elas? Defensores”, disse o técnico do Arsenal.

Nesta quarta-feira, 29, Arsenal e Chelsea decidem o título da Liga Europa em Baku, no Azerbaijão. O jogo será às 16h, horário de Brasília, com transmissão do Fox Sports.