Unai Emery surpreende positivamente em seu início de trabalho à frente do Arsenal. Apesar das desconfianças sobre o que poderia realizar no Emirates, não apenas pelos problemas enfrentados no Paris Saint-Germain, como também pela estagnação nos últimos tempos de Arsène Wenger, o novo comandante não demorou a exibir suas ideias. Nota-se um time mais fluido, que ainda prioriza o ataque, mas se mostra consistente nas outras fases do jogo. E o mais importante é que os resultados positivos se acumulam, colocando os Gunners na luta pelas primeiras colocações da Premier League. O time não anda desperdiçando mais tantos pontos contra adversários frágeis, enquanto encara de frente os principais concorrentes ao topo da tabela.

Nesta quinta, o Marca publicou uma ampla entrevista, na qual Emery avalia a sua situação no clube. Abaixo, destacamos os principais trechos, dividindo por tópicos.

– Seu projeto para o Arsenal

Antes de Wenger chegar, o Arsenal comemorava as vitórias por 1 a 0 e se baseava na solidez defensiva. Com Arsène, se passou a ter alegria no ataque, com jogadores habilidosos. E a combinação perfeita foram os Invincibles. Mas com o tempo, se cuidou apenas da qualidade técnica e da liberdade ofensiva, perdendo a estrutura defensiva. Eu quero unir ambas as essências e ser mais competitivo. O Arsenal estava em queda. Tínhamos que parar isso e começar a subir. Quero montar uma equipe que saiba jogar com espaços, para contragolpear, ou sem espaço, buscando como gerá-los com calma. Estamos nisso: criar uma ideia, um estilo, sendo competitivos. Viemos de um Arsenal que não ganhava contra os principais oponentes, embora neste ano tampouco temos feito ainda, mas que também custava a ganhar fora de casa contra qualquer um, coisa que já melhoramos.

– O desafio de substituir Wenger

Hoje em dia, é muito difícil que um técnico resista 22 anos. Era preciso mover as cadeiras em todos os níveis do clube. E não por negligencia anterior, mas para voltar a estimular a todos. Sacudir, varrer sob os tapetes, abrir as janelas. Era um plano positivo. Uma vez aprendi com Javier Irureta que, se pedem uma mudança, é para ser feita. E comecei a elaborar minha ideia. Conversei com Wenger, mas não sobre a equipe. Eu me encontrei uma vez com ele. Respeito muito o que ele fez, mas, por mais informações que ele me desse, eu devia mudar as coisas. Eu disse aos atletas: “Começamos no quilômetro zero”. Inclusive agora, quatro meses depois, ainda digo que estamos no início.

– A entrevista para assumir o Arsenal

Como Ivan Gazidis explicou no dia da apresentação, eu formava parte de uma lista de oito candidatos que iam entrevistar. Em partes, foi graças a Arturo Canales, que insistiu que eu era o melhor candidato. As equipes sempre se aproximaram de mim com a decisão tomada. Foi assim no PSG, no Sevilla, no Valencia, no Spartak, no Almería… Eu não estava acostumado a isso, de ser um candidato a mais e expor meus argumentos. Preparei a reunião junto com meus assessores. Ia com a dúvida sobre meu inglês, mas sempre me disseram que esse não seria um problema. E falei com naturalidade naquele dia.

– As adaptações no dia a dia

Havia um preparador físico que continua o trabalho. Interferi em detalhes, como colocar uma academia ao lado do campo para tornar mais rápida a transferência dos exercícios físicos ao campo. A ideia de antes permanece. Sobre os hábitos alimentares, havia o que melhorar. Junto ao nutricionista e ao preparador físico, concordamos em tirar os sucos com açúcares, mas é algo normal, que faço em minha casa. Comer sem açúcar, menos gordura, comida mais saudável. É o que aconteceu.

– A fama de detalhista

Acho muito engraçado quando dizem que sou detalhista. Uma vez um técnico chinês veio nos visitar no Sevilla e me repetia muito: “Unai, fiquei impressionado como trabalha os detalhes”. E assim me ficou. Disse que será algo positivo. Mas também pode ser negativo, se for pesado e influenciar muito sobre os jogadores. O que faço é trabalhar. Divido os 90 minutos e analisamos coberturas, ocupação de espaços, etc. Logo tiro do vídeo e ensino aos jogadores. Creio que há momentos em que o jogador deve se expressar por si. E encontrar o equilíbrio entre isso e os famosos detalhes.

– As mudanças no elenco

Demorei a colocar Torreira  no time porque é preciso respeitar hierarquias. Leno chegou, mas Cech estava jogando bem, é preciso respeitar. Petr estava primeiro. O mesmo aconteceu com Guendouzi e Torreira. Mantive o primeiro, que me encanta, ainda que agora Lucas jogue. Estamos em um processo, também para escalar dois atacantes. Valerá para uma partida, mas não a outra. Você tem que buscar respostas. Eu gosto de analisar Lacazette e Aubameyang. Quando saí do Valencia, disse ao presidente que era mais analista de treinadores que de jogadores. Eu não tenho tempo para analisar futebolistas, sou mais de tática. Wenger era, por exemplo, mais de ver o futebol puro e valorizar os jogadores.

– A concorrência na Premier League

Podemos melhorar esta equipe. Quero ser exigente com isso. Estou encantado com o tratamento recebido como um todo, mas quero que me exijam, porque eu empurrarei o clube. Quero exigir de mim, da equipe e do clube. A Premier League não é a mesma de 20 anos atrás, quando City e Chelsea eram clubes médios, o Everton era mais forte. O capital estrangeiro mudou tudo. E o Arsenal deve ser grande, não deixar que os quatro de cima aumentem a vantagem e não deixar que se aproximem os de baixo.

– A avaliação do momento

Ficar 16 jogos sem perder nos significa que falta muito. Empatamos quatro dos últimos cinco jogos e precisamos dar um empurrão na equipe. Falei com o time nestes dias de paralisação. Nosso objetivo é estar entre os quatro primeiros, mas não é fácil. Contra o Liverpool todo mundo estava feliz, mas apenas empatamos, é insuficiente. O futebol inglês talvez seja o mais complicado porque quase todas as equipes têm um ou dois jogadores de nível alto, por seu poderio econômico. Os melhores vêm para cá, com exceções de Real Madrid, Barcelona, Bayern, PSG, Juve e poucos mais. E cada vez mais vêm também os melhores técnicos. Pep, Klopp, Mou, Sarri, Pochettino…