Ficar mais de 20 anos com o mesmo técnico é um tempo longo demais em um futebol que muda tanto, ainda mais na Inglaterra. Nesses 20 anos, a Premier League se tornou a principal liga do mundo e de quando Arsène Wenger chegou ao Arsenal, em 1996, até a sua saída, em 2018, houve um mundo de diferenças. Quando o Arsenal escolheu Unai Emery como treinador, houve desconfianças.

O espanhol vinha de um trabalho no PSG que passou longe de ser um grande cartão de visitas, em um elenco que ele mal conseguia domar. Ir para o Arsenal pareceu bom demais para ele e um passo curioso, no mínimo, para o clube inglês. O relacionamento entre clube e treinador não durou tanto quanto se esperava. Passado menos de um ano e meio, ele foi demitido, depois de uma temporada de altos e baixos, que terminou em baixa, com uma série que deixou o clube com a sua pior temporada em 30 anos, e uma montagem de elenco falha no começo da temporada seguinte.

“Na primeira temporada, nós fizemos muitas coisas bem”, disse Emery. “Eu pensei: este é o meu time’. As pessoas diziam: ‘Unai, nós podemos ver sua personalidade neste time’. Havia ânimo, jogos com intensidade, energia – Tottenham, Manchester United, Chelsea – e nós chegamos à primeira final [europeia] em 13 anos, jogando muito bem contra Napoli e Valencia. Terminar em terceiro estava ao alcance, mas nós perdemos quatro pontos decisivos contra Crystal Palace e Brighton”, analisa o técnico, em entrevista ao Guardian.

O Arsenal viveu altos e baixos. Foi o melhor início da história do Arsenal, ao mesmo tempo que foi a pior campanha dos últimos 30 anos. Em uma mesma temporada. O time que parecia ter um rumo no início da temporada derreteu ao longo dela, culminando com a frustração de ter ficado fora da Champions League, em quinto lugar na Premier League, e perdendo a final da Liga Europa para o Chelsea. Uma série de frustrações com derrotas contra Crystal Palace, Wolverhampton e Leicester, além de um empate com o Brighton.

Emery descreve a série como “incompreensível”. “No começo, as coisas foram magnificamente bem; havia um bom ambiente no vestiário”, conta o técnico. “A lesão de [Aaron] Ramsey, quando ele estava no seu melhor, teve uma grande influência: ele transmitiu positividade, muita energia. E jogando muitos jogos importantes em abril sem ele, precisávamos de 100% de aplicação de todos os jogadores”.

“Em Baku, o Chelsea foi melhor, eu aceito isso. No segundo tempo, Eden Hazard faz a diferença. As preparações foram boas e todo mundo estava comprometido. Mas alguns jogadores tinham a mentalidade que dizia um dia ‘sim’, outro dia ‘não’. E no futebol, é preciso que seja ‘sim’, ‘sim’, ‘sim’ todos os dias. Nos faltou aquele pequeno extra para passar por tantos jogos naquelas semanas finais. Se a sua aplicação e comprometimento cai para abaixo de 100%, você pode perder, e foi isso que aconteceu”, explicou Emery.

O problema do capitão e a escolha de Xhaka

“As pessoas estavam felizes, mas alguma coisa estava faltando”, afirmou ainda o treinador. “Eu disse às pessoas que estavam dirigindo o clube. E então houve decisões que não foram boas. Foram cometidos erros, e como técnico eu assumo a responsabilidade pelos meus. Por exemplo, todos nossos quatro capitães saíram. Ramsey decidiu que ele sairia. Seria melhor para o time se ele ticesse continuado, e para mim. Petr Cech estava se aposentando, tudo bem. Mas eu queria que Laurent Koscielny ficasse, Nacho Monreal ficasse. Todos esses líderes saíram, o que tornou o vestiário outra coisa”, contou o espanhol.

“Inicialmente, ele queria ficar”, diz Emery sobre Ramsey. “Ele precisava negociar um novo contrato e eles não chegaram a um acordo. O clube tinha dúvidas em renovar por uma certa quantia. Ramsey queria se sentir valorizado. Era uma questão financeira; eu não posso me envolver nisso. E eu ainda não o conhecia bem quando eu cheguei. Ele era importante, mas eu não posso dizer o quanto eles deveriam pagar a ele”, justificou o treinador.

“Eu acreditava que Xhaka poderia ser capitão. E os jogadores votaram por ele, ele era respeitado no vestiário”, continuou explicando Emery. “Minha estratégia era 50% eu, 50% eles. Eu gosto que os jogadores falem, deem sua opinião. Havia pessoas com personalidade para ser o capitão, mas você precisa tempo e apoio. Sem o apoio de certas pessoas ou dos torcedores, é mais difícil. Se Xhaka tivesse Koscielny e Nacho, ou Ramsey, ele poderia facilmente ter facilitado. Emocionalmente, certos resultados e atitudes internamente não ajudaram o time a ter o comprometimento e união de antes”.

Emery queria Zaha, mas ganhou Pepé

“Nós contratamos [Nicolás] Pepé. Ele é um bom jogador, mas nós não conhecíamos sua personalidade e ele precisa de tempo, paciência. Eu favoreci alguém que já conhecia a liga e não precisaria se adaptar. [Wilfried] Zaha ganhou jogos por si mesmo: Tottenham, Manchester City, nós. Performances incríveis. Eu disse a eles: ‘Este é o jogador que eu conheço e quero’. Eu encontrei Zaha e ele queria vir. O clube decidiu que Pepé era alguém para o nosso futuro. Eu disse: ‘Sim, mas nós precisamos vencer agora e este rapaz ganha jogos’. Ele nos venceu sozinho”, revelou o treinador. “Também é verdade que ele era caro e o Palace não queria vender”, admite. “Houve uma série de decisões que tiveram repercussões”.

Questão Özil

“Eu falei muito com Özil. Ele tem que ser autocrítico também, analisar sua atitude e comprometimento. Eu tentei com toda minha força ajudar Özil. Ao longo da minha carreira, jogadores talentosos chegaram ao seu melhor nível comigo. Eu sempre fui positivo, queria que ele jogasse, estivesse envolvido”, afirmou o treinador.

“Na pré-temporada, eu disse a ele que queria ajudar a recuperar o melhor Özil. Eu queria um alto nível de participação e comprometimento no vestiário. Eu o respeitei e pensei que ele poderia ajudar. Ele poderia ter sido capitão, mas o vestiário não queria que ele fosse. Não foi o que eu decidi, foi o que os jogadores decidiram. Os capitães são aqueles que continuam defendendo o clube, o técnico, os companheiros”, continuou o treinador.

“Às vezes [as atuações de Özil] foram melhores, outras vezes piores, como todos os jogadores. Às vezes ele não estava disponível porque estava doente ou com seu joelho machucado. O jogo contra o Watford foi o seu primeiro depois do assalto, e eu o coloquei diretamente. Eu sempre estava aberto a falar, ele sempre esteve nos meus planos, mas ele tem que fazer a sua parte. E havia coisas que eu não tinha controle”.

Dificuldade com o inglês

Uma das dificuldades foi a língua. Unai Emery chegou à Inglaterra sem o domínio do idioma e isso ficou claro já desde os primeiros momentos. A sua forma de falar e se comunicar, especialmente nos momentos difíceis, tornaram a sua missão muito complicada. Especialmente quando começou a ser atacado e não tinha armas para se defender. Mais do que isso: sua forma de falar se tornou uma arma usada por críticos contra ele.

“Eu tinha um nível decente [de inglês], mas eu precisava melhorar. Quando os resultados são ruins, não é a mesma coisa. Faltava profundidade de linguagem para explicar. Pegue ‘good ebening’: ok, é ‘good evening’, mas quando eu dizia ‘good ebening’ e vencia, era divertido; quando nós estávamos perdendo, era uma desgraça”, declarou o técnico.

“Estavam acostumados com Wenger”

“Um técnico tem que ter força para assumir responsabilidade, para estar na linha de frente. Eu protejo os jogadores e o clube protege o técnico. Eu sou um homem do clube, foi isso que eles contrataram. Com Arsène Wenger era diferente: ele fazia tudo. Agora, com Raul [Sanllehi] e Edu e eu tive que confiar neles para fazer o meu trabalho. Meu trabalho era o futebol. O clube tem pessoas que podem lidar com outras coisas, ainda que tenha impacto no campo. Algumas dessas coisas nos causaram problemas”, disse o treinador.

Os resultados pioraram, o time parecia se desmontar e nem as tentativas de mudar jogadores e formações adiantou. “É difícil. A energia cai, as coisas derrapam; tudo acontece, todo mundo acontece. Alguns te apoiam, mas você sente a atmosfera, relacionamentos mudam. E isso é transmitido para o campo. Perder as vantagens contra o Palace e Wolves refletiram nosso estado emocional: nós não estávamos bem. Não estava funcionando. Eu disse aos jogadores: ‘Eu não vejo o time que eu queria’. Aquele comprometimento e unidade não estavam mais ali. Foi quando eu vi por mim mesmo. O clube me deixou sozinho e não havia solução”.

Jorge Valdano disse uma vez que só há dois tipos de técnicos: os fortes e os fracos. E que quando os jogadores percebem que o treinador é fraco, ele está perdido. “De fato”, afirmou Emery. “Em todos os clubes, eu estive protegido: Lorca, Almería, Valencia, PSG. No Sevilla, eu tinha Monchi. No PSG, Nasser al-Khelaifi protegia o vestiário e a mim, e publicamente. No Arsenal, eles não foram capazes de fazer isso, talvez porque eles vieram de Wenger, que fazia tudo. Eles diziam: ‘Nós estamos com você’, mas na frente dos torcedores e do vestiário eles não podiam me proteger. A verdade é que me senti sozinho. E os resultados ditaram que eu tinha que sair”, revelou o treinador.

“Mas, veja, eu estava feliz no Arsenal e eu lembro das coisas boas. O primeiro ano foi magnífico, eu dei oportunidades para jovens jogadores: Bukayo [Saka] jogou oito minutos e nem tocou na bola, mas foi o primeiro passo para alguém de 17 anos que será ótimo. Bernd Leno cresceu. [Joe] Willok, Reiss Nelson, [Eddie] Nketiah, [Gabriel] Martinelli. Mattéo Guendouzi fez bem, Lucas [Torreira]. É gratificante vê-los crescer. E [Pierre-Emerick] Aubameyang fez 31 gols e era artilheiro, [Alexandre] Lacazette marcou 19 gols e fez 13 assistências”.

“Tudo que ficou faltando foi Aubameyang fazer o gol naquele pênalti contra o Tottenham: dois pontos extras para a qualificação da Champions League. Ou vencer Brighton e Palace. Nós não conseguimos terminar o trabalho e houve erros. Eu faço autocrítica, em certos momentos eu não consegui os resultados. Eu gostei do Emirates. Eu ainda acompanho o Arsenal. Eles estão fazendo mudanças. [Mikel] Arteta foi a escolha certa… Eu falei com ele no Natal. Eu desejo o melhor para ele e para o Arsenal”.

Se me chamar, eu vou

“O desejo e energia está aqui. Eu estou assistindo futebol, aprendendo. E se tiver um bom projeto na Inglaterra, se alguém me quiser e estiver preparado para me apoiar, estou disponível. Na Inglaterra, essa identificação com o seu time faz o jogo ficar vivo. É mais profundo lá, como uma igreja. Eu nasci em San Sebastián e o meu time é a Real Sociedad. Aquele sentimento no meu coração é o que eu encontro na Inglaterra. É maravilhoso, a coisa mais linda que existe”.