Uma vitória da aceitação

Ao falar da proximidade que o Flamengo tinha para conquistar o título brasileiro, a coluna passada indicava que só faltava uma coisa: provar que o time já aprendera a jogar com calma perante a torcida. Essa lição a equipe não aprendeu muito bem, pelo que mostrou no Maracanã, contra o Grêmio. Evidentemente, a escalação que Marcelo Rospide levou a campo colaborou para o temor flamenguista: os jogadores mostraram bastante brio, além de vontade e profissionalismo altamente elogiáveis – e não importa a reação despropositada de alguns torcedores, no retorno do elenco a Porto Alegre.

Todavia, a atuação do Grêmio lembrou muito a situação da última rodada no Brasileiro de 2007, quando também enfrentou uma equipe de massa em situação decisiva. O time da Azenha comportou-se com serenidade, pois a vitória não lhe era obrigatória. O “clube de massa” da vez é que tropeçou nos seus próprios problemas. No caso do Corinthians, foi a falta de habilidade técnica da equipe que levou ao 1 a 1 – e ao rebaixamento à Série B; no caso do Flamengo, a dificuldade em conseguir marcar gols, que levou a torcida a ter grande temor de testemunhar nova tragédia.

Mas David e Ronaldo Angelim estavam no lugar certo, na hora certa. Mesmo antes do empate, Petkovic conseguia fazer alguns lançamentos que criavam boas chances de gol. E, mais importante, todo o Flamengo imbuiu-se de uma vontade altamente útil em situações decisivas. Algo do tipo “se não vamos conseguir pela técnica, conseguiremos pela raça”. E poucas coisas são mais admiradas pela torcida rubro-negra. Deu certo, os gols vieram – e também o título, após 17 anos de jejum.

Entretanto, é óbvio que a campanha que levou ao título do Flamengo não pode ser vista apenas pelo último jogo. E o que a conquista revela é que houve, acima de tudo, aceitação ao estilo pessoal de cada jogador. E, ainda que o clube tenha atravessado algumas grandes crises (tradicionais em se tratando de Flamengo), essa aceitação ao “homem”, não somente ao “atleta”, criou um oásis, talvez o responsável pela reação resultante na conquista.

Evidentemente, um episódio isolado não quer dizer que clubes confusos, que tratem suas crises apenas agindo compreensivamente, “passando a mão”, vão sempre conseguir boas campanhas. Em tese, é partindo-se de uma estrutura bem fundamentada, que dê tranquilidade, que vêm as conquistas. E estrutura bem fundamentada, sabe-se, é tudo o que o Flamengo não tem. Prova disso foram as turbulências ocorridas quando Márcio Braga ainda não se licenciara da presidência, e Kleber Leite era o homem forte do futebol do clube.

Pois um deixou a presidência para ser tocada por Delair Dumbrosck, e o outro saiu do clube. Com o ambiente mais serenado, restava a resolução dos problemas internos do time de futebol. E eles eram muitos com Cuca, que insistia em impor sua disciplina à equipe. Não conseguiu, e caiu. Dumbrosck bancou a efetivação de Andrade, visto como eterno interino. E o ex-jogador flamenguista, aos poucos, pôs jeito na equipe.

Primeiramente, por aquilo que já foi dito aqui, e nem necessita de muita explicação: poucas pessoas sabem tanto os códigos flamenguistas como Andrade. Era algo que não se via no clube desde Carlinhos. E, além de tal sabedoria, o técnico exibiu notável capacidade de contornar crises e resolver mal-entendidos, sem dar alfinetadas via imprensa. Por exemplo, com Bruno. Havia certo temor de novos desentendimentos com o goleiro, que já o ofendera com duras palavras, em um treinamento, no início do ano. E as duas partes foram profissionais. Cada uma em seu canto, sem rancores aparentes.

E, finalmente, Andrade conseguiu ter paciência – e transmiti-la a todo o clube – para que atletas controversos do elenco pudessem, enfim, render. Caso de Adriano. Não que o atacante fosse uma nulidade durante o tempo de Cuca. Todavia, a pressão do técnico gaúcho por maior disciplina ia completamente de encontro à busca por “felicidade” que o camisa 10 disse buscar, quando do retorno ao Rio de Janeiro. É evidente que tal sentimento prevê atitudes pouco usuais, no mínimo, para um profissional. Mas não se pode dizer que o clube não sabia disso quando decidiu contratar Adriano. E foi somente com um técnico mais maleável que o jogador engrenou rumo à artilharia do campeonato.

Houve paciência com Petkovic, com Zé Roberto… os exemplos da aceitação ao ritmo de cada jogador grassam no Flamengo. E foram fundamentais para a festa vista. Que Patrícia Amorim, a nova presidente do clube, saiba chegar tendo humildade de não querer mudar certas coisas imediatamente. Ter paciência pode significar um ambiente que permita partir com otimismo para a disputa da Copa Libertadores – ou a volta de tempos sofridos.

Intolerância necessária

Um jogo tenso, no melhor dos sentidos. O Coritiba precisava de um gol para manter-se na Série A. E até merecia, pelo esforço. Mas enfrentava um Fluminense de abnegação inesgotável – e comovente. Não conseguiu virar o jogo para o triunfo que ficou lhe faltando. E amargou o rebaixamento para a Série B.

Mesmo assim, não é uma dor que justifique as cenas de selvageria vistas no Couto Pereira, tão logo encerrou-se a partida. É complicado dizer se houve motivo para tal reação, como eventuais gozações dos jogadores do Fluminense, ou mesmo dos torcedores. Mas o certo é que nada, nada mesmo, faz com que a reação tida por uma parte da torcida (uma parte, sempre bom ressaltar) coxa-branca seja compreensível.

E, tendo em vista o fato do começo da mobilização para sediar a Copa de 2014 (enfim!), está aí, também, uma ótima oportunidade para haver punição dura. Se rebaixar o Coxa à Série C talvez seja algo duro, não é irreal pedir para que o clube do Alto da Glória não possa jogar nenhum de seus jogos em sua casa, na próxima temporada. Seria um exemplo possível. Há outros.

E não se trata de haver punição “porque é o Coritiba”. Trata-se de começar a criar uma cultura de que levar o futebol a sério é mais do que fundamental, se o Brasil quer deixar uma boa imagem quando sediar o Mundial daqui a cinco anos. E medidas drásticas seriam necessárias se a torcida a ter cometido os atos de violência fosse a do maior ou a do menor clube do Brasil.

Não é questão clubística. É questão de justiça. Ou, então, de sentar e esperar o próximo caso. E muitos podem existir, se nada for feito até 2014.