Fenerbahçe e Galatasaray possuem vários capítulos negros na história da rivalidade. O fanatismo de ambas as torcidas impressione, embora alguns indivíduos confundam os limites e tornem as cenas de violência recorrentes. Nos últimos anos, porém, os torcedores dos gigantes turcos entenderam que a força enorme que têm uns contra os outros pode se tornar muito maior quando se unem. Assim, ao lado do Besiktas, criaram o Istambul United para protestar contra o autoritarismo do governo turco. Da mesma maneira, se misturariam nas arquibancadas em um ato contra o terrorismo – que, no fim das contas, acabou impedido por outro atentado do Estado Islâmico.

Neste cenário, é importante o entendimento do papel de ambas as torcidas. O futebol é o mote que agrupa as pessoas em torno de clubes rivais. Mas a sociedade vai muito além disso, e engloba interesses em comum a todos os torcedores, independente das cores. Embora as ações em conjunto não tenham extinguido a violência, os embates se cessaram em busca de um bem maior. Os dois lados se concentraram em uma briga que realmente valia a pena, desta vez praticada de maneira racional, e pleiteando os próprios interesses como cidadãos – que poderiam beneficiar, inclusive, aqueles que nem gostam de futebol.

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A compreensão como agente social é algo que deveria estar no cerne de todas as torcidas. Não é o que acontece. E o paralelo sobre os episódios na Turquia pode ser trazido para São Paulo. Diante do turbulento contexto político no Brasil, as organizadas se inseriam no debate. É preciso, sim, questionar a motivação política das ações de qualquer um dos lados, assim como todo cuidado é necessário para se analisar uma situação que envolve personagens historicamente opostos – as uniformizadas, a polícia e certos nomes do poder público. Ainda assim, a manifestação feita nas arquibancadas tinha o seu valor, a partir do momento em que se une a tantas vozes no país (independente do lado no jogo político) para protestar contra um sistema acusado de corrupção.

Este era o momento de união das organizadas em busca de algo maior. E ele até começou a se esboçar. Todavia, os próprios movimentos se sabotaram neste domingo, por culpa da irracionalidade de membros dos próprios grupos. A briga entre as uniformizadas de Corinthians e Palmeiras deixou uma vítima fatal na estação de trem de São Miguel Paulista. Um inocente que sequer estava envolvido com os clubes faleceu com um tiro no coração. Além disso, confrontos se registraram em outros pontos da cidade, e não necessariamente nos arredores do Pacaembu, onde aconteceu o dérbi. Fatos lamentáveis, que destroem o que se almejava construir com a união.

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As organizadas têm a sua função nos estádios, empurrando os times e realizando o espetáculo nas arquibancadas. E também podem atuar como agente social. Contudo, a boçalidade de um episódio como o deste clássico acaba tirando o respaldo que as torcidas tanto pleiteiam. Dá a brecha ao ataque (muitas vezes exagerado) de grande parte da imprensa e gera a ação repressiva do poder – ambos, por vezes atuando por interesses de terceiros.  Se antes havia apelo para o apoio da opinião pública, isso se perde em meio à barbaridade cometida.

É importante que as torcidas entendam seu papel na sociedade. Mas, antes disso, precisam se conscientizar de seu próprio processo interno. Não dá para admitir que indivíduos atrelados a elas continuem se espancando recorrentemente e, pior, colocando em risco a vida de gente que não tem nada a ver com isso, como aconteceu neste domingo. Este tipo de criminoso precisa ser expulso a partir das organizadas. Além disso, não podem permitir que um interesse maior se perca pelo descontrole no mero encontro casual com os rivais. A intolerância que resulta na violência acaba afastando estes grupos do intuito ao qual a maioria de seus membros está disposta: torcer. E impossibilita caminhar a outras direções em busca de direitos.

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Enquanto as torcidas organizadas não agem por si, a razão muitas vezes acaba de mão beijada a quem se opõe a elas. Faz com que a repressão generalizada, tratando como criminoso todo e qualquer indivíduo, seja aplaudida por muita gente. Permite também uma reação do poder público, que nem sempre se mostra eficaz. É guerra que gera guerra, na qual todos os lados se veem como inimigos. É permissividade interna que se complementa com as punições brandas, que deixam as brigas em moto-contínuo.

Há muito a se desconfiar e também a se questionar nesta sequência de episódios. Mas, enquanto as próprias organizadas não se tornarem um pouco mais confiáveis em seus reais objetivos, menos gente vai dar créditos a elas. Mesmo que seja apenas ao objetivo primordial de torcer e dar show nas arquibancadas. Pior quando isso acaba em um resultado tão horrível, como a morte do inocente em São Miguel Paulista.

Ah, e é claro, o clássico aconteceu no Pacaembu sem maiores efeitos da barbárie dentro de campo. Melhor para o Palmeiras, que realizou uma boa partida e se aproveitou do desencontro do Corinthians para conquistar uma importante vitória. O ápice veio no pênalti de Lucca que Fernando Prass defendeu, pouco antes que Dudu garantisse o triunfo por 1 a 0, a partir da saída desastrada de Cássio. Valeu para reforçar a confiança dos alviverdes, após a sequência ruim das últimas semanas.