Inverno frio de dezembro em Istambul. Era dia 11 de dezembro e a fase de grupos da Champions League estava definida. Todos os grupos, menos um. O confronto entre Galatasaray e Juventus, na Turquia, definiria o último dos classificados do Grupo B, já que o Real Madrid já estava previamente classificado. Por causa de uma nevasca, o jogo teve que ser interrimpido no meio do primeiro tempo e refeito no dia seguinte. Um empate bastava para a Juventus avançar. Aos 40 minutos do segundo tempo, em um campo que mais parecia um lamaçal, Wesley Sneijder chutou cruzado e marcou o único gol do jogo. Vitória do Galatasaray. Juventus eliminada da Champions League na primeira fase. Veio uma chuva de críticas, os problemas táticos, a falta de peso em competições internacionais… Um ano e meio depois, a Juve está na final da mesma competição, tendo eliminado Borussia Dortmund e Real Madrid no caminho. Entre uma temporada e outra, pequenas mudanças. Pequenas, mas muito significativas.

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A Juventus tinha voltado à Champions League na temporada anterior, 2012/13, depois do primeiro título italiano de uma série hegemônica de quatro scudetti consecutivos que o time alcançou. Voltou à Champions League e conseguiu se impor na primeira fase, terminando na liderança lugar do Grupo E, com o Shakhtar em segundo lugar – o Chelsea, então campeão e favorito, ficou em terceiro, eliminado na primeira fase. No mata-mata, uma tranquila classificação contra o Celtic, mas, nas quartas de final, veio o confronto mais forte: o Bayern de Munique. Embora os alemães fossem mais fortes, se previa equilíbrio pela boa defesa dos italianos. Não foi o que se viu. Dois jogos, duas vitórias do Bayern por 2 a 0.

A temporada acabaria com mais um título italiano, mas o questionamento era: o que falta para ir além na Europa? Um questionamento que ficou menor depois de ver o que o Bayern fez com o Barcelona na semifinal e contra o Borussia Dortmund na final. A avaliação da Juventus, e da crítica em geral, era que o time precisava reforçar o seu ataque. O time era sólido defensivamente, mas tinha Quagliarella e Vucinic na frente. Vieram Tevez e Llorente para reforçar o time. Dois jogadores de peso, internacionais, para tornar a equipe mais forte.

O argentino foi destaque desde o começo, o espanhol demorou um pouco para engrenar. Então, quando a Juventus entrou em campo naquele dia 11 de dezembro em Istambul para decidir a classificação às oitavas de final da Champions League, a expectativa era que se classificasse com muito mais facilidade. Perderam por 1 a 0.

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Aquela eliminação precoce colocou a força da Juventus – e do futebol italiano – em questão. Afinal, se o campeão italiano não consegue se impor diante de um time da Turquia, por melhor que seja o Galatasaray, como enfrentar os grandes times do continente? O problema não era mais o ataque, que já tinha Tevez, mas sem o argentino conseguir decidir. Qual era, então?

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O melhor italiano era o Milan, que acabou eliminado pelo Atlético de Madrid nas oitavas de final, mesmo fazendo um ótimo jogo em Milão antes de ser goleado na Espanha. Desta vez, a avaliação era que faltava força à Juventus em jogos internacionais. Alguns classificaram que faltava peso, camisa, força internacional à Juventus. O time, duas vezes campeão europeu, não conseguia impor sua força nacional na Europa. Coisa que os milaneses, mesmo sofrendo na Serie A, conseguiam.

Tradição e história na Europa

A Juventus não tem o mesmo peso do Milan quando se fala de Europa, é verdade, mas isso não significa que não tenha sua força. Finalista da Copa dos Campeões em 1972/73, acabou derrotado pelo forte Ajax de Johan Cruyff. Em 1982/83, novamente finalista, perdeu do Hamburgo de Felix Magath. Em 1984/85, veio a primeira taça. Na triste final de Heysel, a noite mais negra da Champions, Platini fez o gol do título.

PLATINI GROBBELAAR

Os piemonteses voltariam à final em 1995/96, desta vez para se vingar do Ajax e levantar novamente a taça. Foi finalista de novo nas duas temporadas seguintes, 1996/97, quando perdeu para o Borussia Dortmund, e em 1997/98 quando caiu diante do Real Madrid. Em 1998/99, foi eliminado na semifinal contra o Manchester United. Foi finalista em 2002/03, com o time de Nedved, mas perdeu nos pênaltis para o Milan. Foi às quartas de final em 2005/06, perdendo para o Arsenal, e só voltaria a ficar entre os oito melhores em 2012/13.

Se falarmos em tradição na Europa em outras competições, o peso da Juventus aumenta. O time conquistou a sua primeira taça europeia em 1977, quando venceu a Copa da Uefa diante do Athletic Bilbao, com gol de Marco Tardelli. Em 1983/84, venceu a Recopa diante do Porto, com o time que já tinha Platini no seu elenco. Na temporada 1989/90, fez uma final italiana com a Fiorentina na Copa da Uefa, no time que time Totó Schillaci, que seria destaque da Copa de 1990, e Casiraghi. Em 1992/93, a Juventus passou como um trator sobre o Borussia Dortmund com Roberto Baggio, que seria eleito melhor do mundo em 1993, na final da Copa da Uefa. Em 1994/95, decidiu novamente a Copa da Uefa, mas perdeu do Parma de Dino Baggio, Zola e Asprilla.

Por esse currículo parece claro que o problema da Juventus não era camisa em si, mas os problemas pelos quais o clube passou desde o Calciopoli, escândalo de manipulação de resultados no futebol italiano que teve o time alvinegro como pivô, em 2006.

A questão tática

Um dos pontos criticados na Juventus era a falta de opções de jogo. O esquema tático engessado no 3-5-2 de Antonio Conte parecia previsível demais. O time não conseguia aproveitar o melhor do time, o meio-campo, baseando o seu jogo em um sistema defensivo sólido – mas que não era suficiente contra times mais fortes, como foi contra Bayern de Munique e Real Madrid. Conte, porém, era considerado o melhor treinador italiano. Na Itália, era incensado como o melhor, inclusive acima de Cesare Prandelli, então treinador da seleção italiana. Um lugar que Conte assumiria logo depois da Copa do Mundo e abriria espaço para um técnico altamente criticado: Massimiliano Allegri.

O ex-técnico do Milan foi recebido com os torcedores muito desconfiados. Como o treinador demitido do Milan poderia treinar a Juventus? Em 16 de julho de 2014, quando a Juventus confirmou a contratação do técnico, nós escrevemos aqui na Trivela que a troca de técnico poderia ser boa para o time. Como previsto, o esquema de três zagueiros foi mudado. O time base foi montado em uma linha de quatro defensores, aumentando o meio-campo para ter todos os talentos em campo: Pirlo, Marchisio, Pogba e Vidal. No ataque, Tevez ganhou mais liberdade e a novidade Morata ganhou espaço. O tetracampeonato da Juventus no Campeonato Italiano não foi por acaso e não foi um time que manteve o piloto automático das últimas temporadas, como falamos por aqui.

A Juventus não precisou de uma revolução, apenas ajustes. Allegri permitiu que o time tivesse mais opções de meio-campo, conseguindo suprir a ausência de um de seus craques quando preciso – Pogba, que se machucou em janeiro, foi substituído sem que o time caísse demais de rendimento, mesmo o francês sendo um dos principais jogadores do time. Ficou menos dependente de Pirlo, que até teve jogos pouco inspirados durante a competição, como as semifinais. Morata não é nenhum craque, mas fez boa parceria com Tevez. No banco, Llorente continuou sendo uma ótima opção. Pereyra, outro reserva, se tornou um jogador importante, um dos mais utilizados do elenco.

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A Juventus de Allegri não é caracterizada pela defesa forte, mas têm uma dupla de zaga, Chiellini e Bonucci, de excelente nível técnico e dois laterais, Lichtsteiner e Evra, experientes. O diferencial do time está no meio-campo, especialmente quando Pogba está inspirado. Pirlo, Marchisio e Vidal são todos capazes de fazer diferente. E Tevez é um craque decisivo, com 29 gols na temporada, fazendo a sua melhor temporada na Champions League da carreira.

Desta vez, a Juventus chega à final com a autoridade de quem se mostrou forte diante dos adversários. É preciso considerar que o Borussia Dortmund foi eliminado em uma temporada que jogou muito pouco (foi só o sétimo na Bundesliga) e que o Real Madrid foi eliminado em um dos seus piores momentos na temporada. Mesmo assim, são adversários muito duros e que a Juventus soube superar usando as suas armas. O time chega à final longe do favoritismo, mas sabendo que é possível vencer o Barcelona. Confiando, sim, na força da sua defesa, mas também no talento dos seus meio-campistas e atacantes.

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