O sábado será decisivo no Campeonato Argentino. A Superliga viverá sua última rodada, com o confronto indireto entre River Plate e Boca Juniors pela taça. Líder com 46 pontos, River terá uma pedreira ao visitar o Atlético Tucumán. Já o Boca soma 45 pontos e tenta reverter a situação na Bombonera, onde receberá o Gimnasia de La Plata, em noite que será marcada também pela recepção a Diego Maradona. Neste momento parece difícil, mas, se os dois times terminarem com a mesma pontuação, definirão o troféu em um jogo extra em campo neutro.

Aproveitando a ocasião, relembramos a única final do Campeonato Argentino entre River Plate e Boca Juniors. Ela aconteceu em dezembro de 1976, pelo Campeonato Nacional, então disputado em mata-matas com final única. Em Avellaneda, os xeneizes conquistaram um título memorável contra os millonarios. O texto abaixo foi originalmente publicado em novembro de 2018 aqui na Trivela. Confira:

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A antologia do superclássico entre Boca Juniors e River Plate possui um marco especial ocorrido há mais de 40 anos. Afinal, por mais que os rivais tenham disputado infindáveis jogos decisivos ao longo das décadas, ficaram mais de um século limitados a apenas uma final entre si: o Nacional de 76. Um campeonato de valor ímpar justamente por oferecer o duelo mais importante aos rivais até a final da Libertadores de 2018. Ainda assim, a história vivida naquele 22 de dezembro de 1976 em Buenos Aires permanecerá encravada na memória de xeneizes e millonarios. Uma noite insubstituível.

Eram tempos significativos a ambos os clubes, afinal. O River Plate havia encerrado no ano anterior o maior jejum de sua história no Campeonato Argentino, logo faturando o Metropolitano e o Nacional – as duas ligas semestrais equivalentes ao título argentino, naquela época. O Boca Juniors, por sua vez, era o dono da taça vigente, ao celebrar o Metropolitano de 1976. E, em Núñez, havia o desejo particular de se reerguer após a derrota na final da Copa Libertadores. Elementos que tornavam aquele Superclássico mais importante do que já seria naturalmente.

Durante a fase de classificação do Campeonato Nacional, tanto Boca Juniors quanto River Plate lideraram os seus grupos regionais. Enfrentaram-se duas vezes nesta fase de classificação, em duelos intergrupais, com o empate por 1 a 1 na Bombonera e a vitória bostera por 2 a 0 no Monumental. Os dois primeiros de cada chave avançavam aos mata-matas, disputados em jogo único e campo neutro. Pelas quartas de final, Boca superou o Banfield em Avellaneda, na mesma data em que o River vitimou o Quilmes em Parque Patrícios. Já nas semifinais, dois triunfos de peso contra oponentes que viviam fases de destaque: os xeneizes festejaram em cima do Huracán na Doble Visera, enquanto os millonarios despacharam o Talleres em plena Bombonera, sua casa de ocasião. Até que a multidão se reunisse no Cilindro de Avellaneda durante o fatídico 22 de dezembro, para ver qual dos rivais botaria a faixa no peito e gritaria mais alto na inédita decisão.

A memória coletiva, aliás, pendia ao Boca Juniors antes daquela finalíssima. A década de 1960 havia sido recheada de duelos decisivos nas rodadas finais do Argentino, sempre terminando com a festa dos xeneizes. O pênalti defendido por Antonio Roma em 1962, os gols de Norberto Menéndez em 1964 e 1965, o heroísmo de Norberto Madurga em 1969: a volta olímpica sempre terminava em azul y oro. Este último episódio, inclusive, é o mais emblemático. O empate por 2 a 2, com dois tentos de Madurga, permitiu aos xeneizes darem a volta olímpica em pleno Monumental. Ouviram aplausos das arquibancadas, enquanto a diretoria millonaria mandou ligar o sistema de irrigação do gramado para literalmente “molhar a festa”. Nem assim os boquenses pararam.

A realidade em 1976, de qualquer maneira, era bastante distinta. O River Plate possuía uma equipe mais amadurecida. O lendário Ángel Labruna conduzia os millonarios em um dos períodos mais vitoriosos de sua história e, entre jovens talentos ou medalhões trazidos de fora, contava com um esquadrão. O capitão Roberto Perfumo e o ponta Oscar Más encabeçavam a parcela mais rodada da equipe. Enquanto isso, despontavam vários craques que se consagrariam dois anos depois, com a conquista da Copa do Mundo: Ubaldo Fillol, Daniel Passarella e Leopoldo Luque formavam uma trinca dourada. O ídolo Norberto Alonso, fundamental ao bicampeonato de 1975, havia se transferido ao Olympique de Marseille meses antes, por conta de rusgas com os cartolas. Ao menos, a diretoria havia reforçado o elenco após a derrota na final da Copa Libertadores.

O Boca Juniors, por outro lado, vinha em um momento de afirmação. Juan Carlos Lorenzo assumiu o time em 1976, referendado por uma carreira de passagens pela seleção e títulos com o San Lorenzo. O veterano vinha de um bom trabalho à frente do Unión de Santa Fé, trazendo consigo alguns jogadores que se destacaram no clube do interior. Adições vitais que incluíam o goleiro Hugo Gatti, o atacante Ernesto Mastrángelo e o capitão Rubén Suñé. Além disso, o elenco xeneize se reforçou com jogadores campeões por outros clubes, a exemplo de Francisco Sá (dono de quatro Libertadores com o Independiente) e Carlos Veglio (este consagrado no próprio San Lorenzo do próprio Juan Carlos Lorenzo). Por fim, a se destacar ainda algumas crias da casa, como Roberto Mouzo e o ascendente Alberto Tarantini, outro que conquistou a Copa de 1978.

A decisão aconteceu apenas três dias após as semifinais. E a maior dúvida para a partida era Mastrángelo, estrela do ataque boquense, que lesionou o tornozelo antes do clássico. Ainda assim jogou, mas graças a um artifício do técnico Juan Carlos Lorenzo, conforme o jogador contou à El Gráfico: “Assim que nos classificamos à final, fomos nos concentrar. Na segunda-feira, durante o dia de descanso, a dor no meu tornozelo não desaparecia. Por isso me chamou a atenção quando, no dia seguinte, Lorenzo me fez ir ao consultório médico diante dos jornalistas. Diante dos microfones, ele gritava ao doutor: ‘Venda um tornozelo esquerdo a Mastrángelo’. Quando terminou essa encenação, disse a ele: ‘Professor, eu não posso nem me mexer e o tornozelo que dói é o direito’. Ao que me respondeu: ‘Você jogará do mesmo jeito e fiz que o médico colocasse os curativos no bom. Assim, Passarella te bate no esquerdo e não no que está lesionado’. Um fenômeno. Ele me explicou: ‘Você tem que jogar porque, se estiver em campo, Passarella não vai passar ao ataque por medo de sua diagonal e Labruna não vai deixá-lo ir a lado algum’”.

Para a finalíssima, quase 70 mil ingressos foram vendidos, mas há relatos que muito mais gente entupiu o Cilindro de Avellaneda. O anel superior do estádio se pintava em azul y oro, enquanto o inferior era alvirrubro. Expectativas a um grande jogo que tomou manchetes e o assunto nas ruas de toda a Argentina. “O estádio do Racing é o cenário que desde o domingo se imaginava. Bandeiras, estandartes, bonés, instrumentos. E sobretudo gargantas para dar escape ao fervor. Gritar pelo Boca, gritar pelo River. Explodir pelo Boca, explodir pelo River. É o acontecimento que qualquer torcedor ansiava ter diante de seus olhos como espectador. Um dos dois será campeão, mas já estão agradecendo suas torcidas. A do Boca acima, a do River abaixo. O cimento racha, a noite se acende, o céu se limpa. É festa e cor. É Boca x River”, poetiza a edição seguinte da El Gráfico, lançada após aquela final. Obviamente, nem tudo foram flores. A desorganização também era criticada, com invasões no estádio e ocupações de locais proibidos. Mas nada que tenha prejudicado tanto assim o duelo.

Para se ter uma ideia, a agitação era tão grande que o árbitro Ithurralde precisou tirar o “cara ou coroa” com os capitães ainda nos vestiários. Desta maneira, os jogadores entraram diretamente ao pontapé inicial. “Saímos ao campo com os assistentes antes do jogo e me surpreendi. Esperava muita gente, mas não tanta. Por um momento pensei que não íamos sair vivos dali, pela maneira como se movia o gramado. Estava parado no círculo central e a terra parecia que não ficava quieta. Nunca aconteceu algo igual na minha carreira”, explicaria o juiz, anos depois, à El Gráfico.

Aquela reunião no túnel do Cilindro, aliás, foi essencial aos rumos da partida. Durante a conversa com os capitães, Perfumo falou a Ithurralde: “Ainda bem que você apita, porque deixa jogar e isso é melhor para nós, que queremos executar rápido as faltas”. Pouco antes, havia surgido uma recomendação da Fifa, orientando que as cobranças poderiam ser feitas sem a autorização dos árbitros – o que auxiliou e também prejudicou os millonarios na final da Libertadores. Diante da afirmação do oponente, Suñé apontou que o Boca também não teria problemas se as infrações fossem chutadas antes do apito. O desfecho da noite se daria justamente em uma jogada assim.

Ithurralde, aliás, era considerado o melhor árbitro argentino do momento. E antes do jogo, viveu uma anedota curiosa, relatada por ele mesmo à revista El Gráfico: “Nessa época, os árbitros não eram profissionais e tínhamos outro emprego além da arbitragem. Eu era empregado do Banco Nación e na manhã do jogo fui ao meu escritório. Desde que cheguei, estava rodeado por meus colegas, que vinham perguntar coisas da partida. O gerente, que não entendia muito de futebol, perguntou ao meu chefe: ‘O que se passa com Ithurralde?’. Então ele explicou o jogo. O gerente respondeu imediatamente: ‘Que Ithurralde vá para casa, ponha uma música e descanse. E amanhã tampouco quero vê-lo, mande-o ao arquivo. Prefiro perder um empregado por um par de dias a ter todo o setor sem trabalhar”.

Quando a bola rolou, o Boca Juniors tinha a partida sob o seu controle. No entanto, diante de tudo o que estava em jogo, o receio prevalecia entre os times. “Era o típico clássico onde não havia espaços. Foi travado e lutado, brigando por cada bola no limite. Mas, a mim, chamava atenção a ocasião. Nunca havia estado em um estádio tão cheio. Sinceramente, temia que os cimentos caíssem”, resumiu Mastrángelo. Em compensação, não havia muita violência entre os jogadores. Apesar da vontade de vencer, o encontro não descambava a faltas graves. Não à toa, o árbitro mostrou apenas um amarelo ao longo dos 90 minutos.

Aos 30, aconteceu o primeiro lance importante. Luque ia ficando de frente para o gol e Gatti se antecipou, saindo nos pés do atacante. O millonario ainda hoje reclama da penalidade, mas os relatos da época apontam que o goleiro xeneize foi apenas na bola. Do outro lado, Fillol também trabalhou, pegando uma cabeçada de Mastrángelo. E logo na sequência, a melhor chance da etapa inicial: Juan José López percebeu Gatti adiantado e resolveu arriscar da intermediária, por cobertura. O arqueiro se recuperou a tempo com um voo espetacular, saltando de costas para espalmar a bola que parecia certeira rumo às redes. Posteriormente, o ídolo xeneize definiria esta como a melhor defesa de sua carreira.

No segundo tempo, o Boca aumentou a sua pressão, mesmo assim insuficiente para ameaçar a segurança de Fillol. Prevalecia a sensação de 0 a 0 arrastado, possivelmente levando a definição aos pênaltis. Quando menos se esperava, porém, é que o gol decisivo ao título do Boca Juniors aconteceu. Definiu a vitória por 1 a 0.

Carlos Veglio era quem mais incomodava no setor ofensivo, com suas escapadas. Aos 27 minutos do segundo tempo, o meia recebeu uma bola de costas ao gol e, quando tentou girar, foi derrubado por Passarella – “se equivocando com demasiada frequência”, segundo os relatos da imprensa. Mouzo e Suñé se preparavam à cobrança, a dez metros da grande área, quando o capitão se valeu da recomendação do árbitro. Aproveitou que Fillol ainda armava a barreira para soltar o pé de fora da área. O goleiro da seleção apenas viu a bola entrando em seu ângulo, perfeita, entre o poste e o travessão. Um gol até hoje controverso, mas que vale ouro aos xeneizes.

“Suñé não vacila. Fillol está mal posicionado. Quase nada se opõe. Mete o direitaço, suave, exato, medido. A bola busca vorazmente o ângulo esquerdo millonario. Fillol tenta um passo em busca da defesa. Perfumo, Passarella, todo River assiste boquiaberto à sua trajetória. Um título de campeão nacional está em pleno voo, branco e redondo…”, descreve a El Gráfico na legenda da fotografia que flagra o lance. Ao lado, no momento do arremate, uma imagem mostra claramente o árbitro de braços erguidos, enquanto Suñé segue com o movimento de sua perna direita após acertar a pelota.

“Quando apitei a falta, Suñé tomou a bola e, como estava ao seu lado, ele me disse: ‘Posiciono e bato’. Ao que eu respondi: ‘Posicione e bata’. Foi um golaço, que pegou Fillol de surpresa. Nenhum jogador do River reclamou e nem protestou”, contou Ithurralde, 35 anos depois, à El Gráfico. “O insólito foi que o Boca, e por meio de seu próprio capitão, terminou ganhando a partida por uma jogada pedida por seus rivais”.

O River Plate, inclusive, tinha um jogador designado para atrapalhar as cobranças de falta até que a barreira fosse formada: o atacante Luque. No entanto, ele não conseguiu chegar a tempo. “Tudo começou com um lançamento que mandaram para mim. Corri e não alcancei. Gatti repôs a bola rápido, houve dois ou três toques até a falta. Eu tinha que cuidar para que não cobrassem rápido. Quando Pato estava armando a barreira. Suñé pegou e acertou o ângulo. Faltou um metro para que eu conseguisse bloquear o chute. Além do mais, pegou muito bem na bola, como um monstro. Eu havia dito aos meus companheiros para que estivessem atentos, porque, ao jogar no ataque, poderia acontecer que eu não chegasse para bloquear algum tiro livre. E isso foi o que aconteceu”, relatou ao La Nación.

Já Suñé desfrutou de sua inteligência e de sua precisão. “O River era um time lírico, que jogava um bom futebol, mas ficava distraído nas bolas paradas. Dois deles estavam virados e Fillol começou a armar a barreira. E ali aconteceu. Tempos depois me cruzei com Pato e ele me disse: ‘Se eu estivesse bem posicionado, também seria gol. Entrou no ângulo. Era indefensável, Rubén’. E tem razão. Na minha carreira, devo ter feito quatro ou cinco gols de falta. Mas nesta noite, surpreendi a todos, até meus companheiros. Assim que vi a bola entrando, saí correndo. Ninguém poderia me frear. Queria voar, abraçar a todos. E terminei próximo da tribuna mais cheia de torcedores do Boca. Só parei por causa do alambrado e do fosso”, contou, ao La Nación, em outra reportagem.

Durante os minutos finais, o River Plate até esboçou uma reação, mas não demonstrou forças suficientes para o empate. O placar magro renderia mesmo a alegria máxima ao Boca Juniors. “A volta olímpica, os abraços. As lágrimas, lágrimas de mil sonhos concretizados, lágrimas de homens. É Boca. É Boca campeão. Bicampeão. Fechando o ano como havia inaugurado. Ganhador do Metrô e do Nacional. As ruas de Buenos Aires seguiram sentindo esse palpitar tão particular de uma torcida de futebol. A torcida do Boca. Fenômeno de bairro que penetra em todos os rincões do país. Já todos esquecemos os esquecíveis caminhos tortuosos da partida. Já não importam as imperfeições técnicas ou a falta de clareza ofensiva. É Boca campeão. Bicampeão. Outra proeza se escreve na rica história do Boca. Noite de Buenos Aires, noite do país, inesquecível. Pelo River. Pelo Boca. Embora o encerramento é todo Boca. Quando se termina a noite? Esta noite não termina nunca”, assinalou a El Gráfico da época.

A conquista renderia mais ao Boca Juniors nos anos seguintes. Sob as ordens de Juan Carlos Lorenzo, os xeneizes conquistaram o bicampeonato da Libertadores em 1977 e 1978, seus primeiros títulos da competição. O capitão Suñé pôde erguer a taça mais ambicionada do continente. O gol no superclássico de 1976, afinal, marcou uma volta por cima ao veterano. Por desentendimentos com dirigentes, ele deixara La Boca nos anos anteriores, até ser levado de volta por Lorenzo após a passagem pelo Unión. Ajudou a transformar a história de La Bombonera. Hoje em dia, o camisa 5 é reconhecido com uma estátua no estádio, ao lado de outros ídolos bosteros.

O mais curioso é que o gol de Suñé se transformou em um fantasma. Embora o jogo tenha sido transmitido ao vivo pela televisão local, o trecho do lance se perdeu por décadas. Existiam várias teorias sobre o desaparecimento. Alguns diziam até que, em tempos de ditadura, um censor torcedor do River mandou cortar e queimar o pedaço do filme. Mas o fato é que somente 43 anos depois descobriu-se novamente o vídeo. Imagens que serviram para reforçar as memórias de quem nunca se esqueceria daquele eterno chute.